Foto posada para o amigão Raymond Frajmund diante da sucursal do Estadão em Brasília, em 1966. Da esquerda para a direita, Santer de Jesus, pilar da administração da sucursal, o motorista-jornalista Jorge Faria de Souza, o contínuo Waldir Carolino Dantas e o motorista Seu Antonio motorista.

Jorge Faria e Waldir são figuras inesquecíveis para mim. Jorge era teoricamente motorista, atividade registrada em sua carteira de trabalho e que de fato exercia, sempre com um bom humor fora do comum. Ocorre que, inteligentíssimo e perspicaz, rapidamente adquiriu faro e traquejo de repórter e dispunha de uma relação de contatos de provocar inveja em grandes repórteres.

O segredo: a Jorge cabia a incumbência de entregar, em uma kombi, os exemplares de cortesia do jornal a ministros, ministros dos tribunais superiores, senadores, deputados e outras autoridades. Ele não demorou para estabelecer um rapport direto com meia república.

Quase todo dia trazia para a sucursal alguma novidade. Apurada com mais detalhes, tornava-se notícia no jornal do dia seguinte. Tornou-se a tal ponto bem informado que, mantendo o emprego de motorista no Estadão, passou a assinar uma (boa) coluna de notas políticas em um jornal de Goiânia, sua terra.

Tão inteligente quanto era o contínuo Waldir. Sempre que, a cada quinzena, ia receber o envelope com seu salário, ele costumava comentar:

— Vou buscar meus esparcos proventos.

Ele sabia perfeitamente que inventara uma palavra, pois considerava seus “proventos” parcos, ou seja, poucos, e, ao mesmo tempo, eles eram esparsos — só se pagavam a cada 15 dias.

Outra dele, inesquecível, depois de um mês de férias:

— Settinho (era meu apelido), voltar das férias é kafkiano.

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