APRESENTAÇÃO DO LIVRO E PERFIL DO AUTOR

“Eu estava a 10 metros de profundidade quando eles chegaram e me cercaram por todos os lados, com a pior das intenções. Não sei, francamente, de onde vieram: só sei que era um cardume de tubarões — uns bons quinze deles –, dispostos a enriquecer seu regime alimentar, devorando a mim, um pobre engenheiro brasileiro que fazia pesca submarina nas Ilhas Marquesas, a porta de entrada da Polinésia para quem vem das Américas.

“Ali, em pleno azul esplêndido do Pacífico, a mais de 5.000 quilômetros de distância do Panamá, numa manhã belíssima, pensei que viraria comida de tubarão. Se escapei foi sem nenhum heroísmo de minha parte, e sim graças à competência de meu anjo da guarda e à providencial ajuda de um amigo também brasileiro, Celso. Escapei e continuei minha deliciosa viagem de quatro anos através dos mares, num percurso de mais de 90.000 quilômetros. Conheci 27 países, incontáveis ilhas e, sempre que minha reserva de dinheiro baixava, tive os mais variados empregos: fui garçom, pescador, ajudante de pedreiro, transformei meu veleiro Vagabundo em condução para turistas, colhi gengibre e fiz algumas, digamos assim, amadorísticas transações comerciais.

“A bordo do Vagabundo — ou Vagau, para os íntimos –, sucessor de meu primeiro barco, o Brasileirinho (que compartilhei com um sócio), vivi os melhores dias de minha vida. Com seus 35 pés[1] e um único mastro, o veleiro me levou a muitas aventuras fascinantes e situações engraçadíssimas — mas principalmente inesquecíveis”.

Foi assim, com humor e irreverência típicos, que o navegador Helio Setti Jr. começou, anos atrás, uma coleção de pequenas narrativas de suas andanças pelos mares do mundo publicada na revista Playboy. Este livro é a íntegra das divertidas e fascinantes memórias de sua longa viagem de volta ao mundo. Para os amigos, é uma deliciosa forma de relembrá-lo. Para os que não tiveram tempo de conhecê-lo — já que a morte o surpreendeu em 1992, aos 39 anos, no auge do vigor físico e mental — é uma boa amostragem do que era, sentia e pensava este homem aventureiro, idealista, generoso e cheio de alegria de viver.

Um navegador cuja personalidade multifacetada e de fortes contrastes o tornavam uma pessoa ainda mais interessante. Muitos desses contrastes aparecem neste livro e de alguma forma remetem para episódios de sua vida fora do mar. Ele tinha sangue-frio diante do perigo — para escapar dos tubarões nesse dia nas Marquesas, por exemplo, como o leitor verá ao ler o episódio completo, ou para controlar-se e não desaparecer no mar num ponto da longa travessia solitária do Oceano Índico, entre a Austrália e as Ilhas Mauritius, quando foi lançado à água, à noite, durante uma tempestade. Não fosse esse auto-controle, Helio nem teria chegado a realizar sua aventura pelos três oceanos. Anos antes, ainda iniciante na arte de navegar, uma tempestade o colheu no meio de uma travessia entre Guarujá, no litoral centro-sul de São Paulo, e Ubatuba, ao norte, a bordo de um minúsculo hobie-cat Ele conseguiu aproximar-se de terra, teve o hobie-cat destroçado nas pedras e, esquentando-se com uísque de uma garrafa providencialmente amarrada ao mastro pelo pai, aguardou a chegada de socorro. Brincalhão, como sempre, atribuiu sua sobrevivência ao uísque — presença constante, aliás, nas celebrações com sua imensa roda de amigos.

Mas com surpreendente (e sempre bem-humorada) candura, Helio é também capaz, neste livro, de descrever seus medos: o que sentiu em meio a uma grande tempestade de areia na fronteira da África do Sul (um dos muitos países que visitou longamente durante sua viagem) com a Suazilândia. Ou no Parque Krüger, também na África do Sul, diante do ataque de um bando de elefantes, depois de provocações imprudentes de um amigo. Ou, ainda, durante um passeio inocente, ao dar de cara com guerreiros ferozes, armados de arcos, flechas, lanças e tacapes e prestes a entrar em combate com inimigos, na ainda primitiva Papua-Nova Guiné. “Dizer que fiquei com medo é me chamar de Super-Homem”, brinca ele, dizendo-se, na ocasião, “petrificado”.

De outro lado, era um homem capaz de emocionar-se até as lágrimas diante de um pôr-do-sol no Taiti ou na Austrália, arrepiar-se de encantamento frente à explosão de cores de uma formação de coral sob o mar azul do Caribe, sentir o peso da história ao descobrir os cemitérios submarinos de belonaves ao largo de Guadalcanal — palco de uma das mais terríveis batalhas da Segunda Guerra Mundial. E, sobretudo, de sentir-se transportado a um outro plano de maravilhamento quando, uma noite, num trecho de travessia solitária, seu Vagabundo entrou numa zona de fosforescência tão intensa e tão ampla que, como ele escreve, “a luz do mar apagou as estrelas”. O cérebro entendeu que era um fenômeno provocado pela alta concentração dos microorganismos plânctons na área. Mas o coração deixou Helio “inebriado, bêbado, dopado diante daquele brilho infinito”.

Tais contrastes não são novidade para quem o conhecia. Garoto bem-nascido, filho único de pai advogado, político e, mais tarde, empresário, que estudou nos melhores colégios de Curitiba, sua cidade natal, e de São Paulo, para onde sua família mudou-se quando tinha 11 anos, o Helio adolescente já desenhava roteiros de futuras viagens nos atlas escolares, começou a conhecer o Brasil e exterior (viajando, ainda, de automóvel, ônibus e avião) e ganhou sua primeira lancha a motor — mas, sem fazer alarde, também viria a dar aulas gratuitas para alfabetização de adultos no Mobral.

Mas essa sua faceta jamais escondeu o boa-praça, o gozador sempre de bem com a vida, mesmo quando enfrentava dissabores. Não foi por acaso que em Malaita, uma das Ilhas Solomon, um paraíso perdido e ainda preservado no Pacífico Sul — no qual, por alguma razão, os nativos repetem palavras em todas as frases que constroem no idioma Pidgin, espécie de inglês simplificado — seu apelido ficou sendo Helio Laugh Laugh: Helio Rindo Rindo. O gozador que chamava de “Toninho” a imagem de Santo Antônio presente em sua mesa de navegação do Vagabundo não hesitava, para abrir portas, em dizer-se, além de brasileiro, amigo de Pelé — o eterno e idolatrado embaixador-mor do país. Dava sempre certo.

A bonomia, porém, não fazia Helio levar desaforo pra casa. Garoto franzino, que em Curitiba precisou praticar natação para vencer a asma, ele se transformou num atleta de 1,87 metro que também lutou karatê e, além de velejar, mergulhava, esquiava, jogava futebol. Não se assustava, pois, com cara feia. Nesta narrativa, foi assim que aconteceu na Ilha Thursday, na costa da Austrália, num bar de hotel: enquanto Helio ia ao banheiro, um valentão engraçadinho pôs fogo na camiseta que ele deixara sobre o balcão. Levou, como diz o autor com algum eufemismo, “um tapão na orelha”.

Boêmio e festeiro, como o leitor poderá verificar, namorador inveterado desde que se entendia por gente, navegou também nesse terreno por muitos mares, inclusive na viagem — mas acabou definitivamente nos braços da namorada de muitos anos, Maria Adélia, mãe de seus filhos Antônio e Alice.

Duro quando precisava, mas de coração mole. O Helio que encarava marmanjos se necessário era o mesmo que anos depois, à noite, deitados os dois no gramado de sua casa à beira da represa de Guarapiranga, em São Paulo, ensinava para o filho Antônio coisas do céu, que aprendera com a navegação astronômica.

Outro contraste: desorganizado, esquecido, distraído, Helio no entanto foi metódico o suficiente para fazer, ao longo de toda a viagem, anotações que lhe permitiriam, mais tarde, reconstituir sua trajetória e escrever este livro. Para a tarefa, recorreu também à vasta e rica correspondência que, nos anos ao mar, escreveu para os pais, Helio e Hilda: 172 cartas, algumas delas em versos brincalhões.

Quem lê o resultado desse trabalho — um livro tão voltado para a natureza e o ser humano — talvez se surpreenda com o fato de Helio ter tido formação em ciências exatas: graduou-se engenheiro civil em 1976 pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, fez estágio em várias empresas de engenharia, meteu-se em construção de barragens, trabalhou, já formado, em três diferentes construtoras, fez mestrado, passou a trabalhar no Centro Tecnológico de Hidráulica, órgão vinculado ao Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo e à Politécnica. Mas acabaria enveredando por outro rumo: mesmo tendo flertado durante bom tempo com a informática, tinha alma de ecologista. Militou em entidades, participou de movimentos, acabou aportando, em efêmera passagem, na Secretaria Especial de Meio Ambiente do governo federal em 1990, como subsecretário na gestão de José Lutzemberger. O ecologista, como o leitor vai perceber, está por todo o livro: na observação da natureza, no interesse por seus mistérios.

Ao longo da viagem, esse observador da natureza tinha o mesmo grau de interesse nas pessoas (primitivas ou não), seus usos e costumes, e fez inúmeras pequenas descobertas para si — em alguns casos, como não poderia deixar de ser, divertidas. A naturalidade diante do sexo na Polinésia. O velho marinheiro de Caicos, nas Bahamas, que foi capitão do iate do mitológico ator Erroll Flynn. A regata Sail Naked em Charlotte Amalie, nas Ilhas Virgens Americanas — em que, como o nome diz, homens e mulheres velejam nus e depois comemoram, da mesma forma, dentro de uma grande piscina. Os nativos de Samoa que guardam nas orelhas e no nariz as moedas utilizadas para pagar o transporte público. Os homens da Ilha de Santa Helena, no meio do Atlântico — o lugar do exílio até a morte de Napoleão Bonaparte — que invariavelmente se chamam Thomas. A estranha maldição do kuru na Nova Guiné — um eterno sorriso dependurado no rosto da pessoa que, na verdade, é o sinal de uma doença mortal. As imensas crateras de vulcões extintos que, na Ilha de Réunion, entre Mauritius e a África, abrigam civilizações inteiras vivendo quase à margem do século XX. O rastreio da influência portuguesa em lugares remotos como as paradisíacas Ilhas Fiji, onde a palavra para tapioca é tapioca e há nativos com o nome de Guilherme.

Para chegar a uma travessia desse porte, Helio passou por todas as etapas de formação como homem do mar não-profissional: arrais, mestre amador, capitão amador. Fez curso de radiotelefonia, estudava tudo o que lhe caía nas mãos sobre o mar, lecionou num curso para capitão amador. Participou de regatas e campeonatos e foi tripulante de um veleiro oceânico do navegador João Zarif, tornou-se amigo do grande navegador e aventureiro Amyr Klink. (Uma carta de Helio para Amyr ler durante sua longa hibernação na Antártica acabou virando uma espécie de prefácio do best-seller Paratii — Entre Dois Pólos). Foi sócio de diversos clubes náuticos, como o Bahia de São Vicente Iate Clube e o Ubatuba Iate Clube — porto de chegada do Vagabundo neste livro.

Seu primeiro barco foi uma lancha a motor — a Tricolor, homenagem ao São Paulo Futebol Clube, do qual, além de torcedor fanático, foi sócio e conselheiro. Dos barcos a motor logo partiu para os veleiros; houve um Vagabundo II e um Vagabundo V, o Brasileirinho, que compartilhou com um sócio e com o qual começou a grande travessia, e o Vagabundo deste livro, cujo “nome completo” de registro é Vagabundo VII.

Com Helio, o Vagabundo virou gente: na narrativa, o navegador conversa com o barco, faz confidências para o barco, reclama dele, briga com ele, elogia e afaga o barco, sente saudades do Vagau quando incursiona por alguns de seus pontos de parada, ouve o que o barco lhe diz… Não foi sem razão que o Vagabundo migrou para o título deste livro: Helio o chama, no texto, de “meu irmão, meu companheiro”.

O Vagau foi a casa de Helio durante muito tempo. Por fora, um veleiro branco, com casco de fibra de vidro, um mastro. Por dentro, um lar eficiente, mas algo espartano. Em seus poucos mais de 10 metros, tem cinco compartimentos, com uma pequena cabine de proa, um mini-banheiro, uma saleta de refeições que também serve de dormitório, uma pequena cozinha (sem geladeira), a mesa de navegação e, à popa, um espaço para o motor.

Apesar de ter feito parte da travessia no Brasileirinho, foi certamente no Vagabundo que Helio viveu suas maiores emoções. A partir de agora, leitor, você está convidado a partilhá-las.

[1] 10,6 metros.

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