Tive o privilégio de estar no círculo mínimo de pessoas com os quais se consultou Fernando Morais — meu amigo querido há quase meio século, e meu padrinho de casamento — quando a editora Planeta, para a qual fora recentemente contratado, lhe pediu que escrevesse um livro sobre alguma personalidade de grande impacto junto aos leitores potenciais.

Durante e após um almoço no restaurante Piselli, nos Jardins, em São Paulo, Wilson Moherdaui, Márcio Valente, Fernando e eu, amigos inoxidáveis que se reúnem para um periódico almoço ou jantar há mais de 20 anos – que chamamos de Amici Miei, em homenagem à extraordinária comédia italiana — discutimos várias sugestões.

Elas iam de figuras públicas gravíssimas a esportistas, e um dos nomes em debate chegou até a ser o da apresentadora Xuxa. Foi, porém, o próprio Fernando quem pensou em Paulo Coelho.

Como leitor, simplesmente detesto o que Paulo Coelho escreve. Acho insuportável, subliterário, raso — e por aí vai. No entanto, apoiei de imediato a ideia do livro. Paulo Coelho pode ser uma droga de escritor, pensei, mas sua vida inacreditavelmente movimentada renderia, sem dúvida, uma bela biografia: sofreu internações forçadas pela família por causa de drogas, foi para a cama com mulheres famosas, tornou-se compositor famoso em dupla com Raul Seixas, flertou com o demônio antes de tomar rumo oposto, apregoava dispor de poderes sobre a Natureza.

E, last but not the least, era o escritor brasileiro de maior sucesso em todos os tempos, e, de longe, o mais conhecido no mundo.

Fechado o contrato com a Planeta — depois trocaria de editora –, Fernando se pôs a trabalhar com o afinco a que eu tanto conhecia. Um militante do lazer, da boa conversa e do descompromisso, sempre que isto é possível, Fernando se transforma completamente quando tem diante de si um contrato assinado, um prazo e um computador a ser preenchido com bytes.

O causeur incomparável e divertido, o apreciador de bons vinhos e de charutos ainda melhores, o amante do sossego e do conforto se transmuta — passa a viver 24 horas por dia aquela tarefa, não descansa, pesquisa além do necessário, realiza entrevistas num volume que enlouqueceria o mais detalhista historiador, vai buscar energias sabe Deus onde para ficar ligado o tempo que for necessário.

Com Paulo Coelho as coisas decorreram exatamente assim. Fernando acompanhou o escritor mundo afora — até uma palestra de Paulo Coelho embaixo de um viaduto, no Cairo, ele assistiu, e a plateia improvisada era imensa –, viajou não sei quantas vezes à França, onde reside o escritor, e recolheu mais de 100 horas de entrevista gravada.

Só para comparar: no trabalho que fiz com o Presidente Fernando Henrique Cardoso em seu livro de memórias políticas, A Arte da Política — A História que Vivi, para abordar temas que ele não incluíra no grande rascunho da obra realizei, ao longo de seis meses, 15 horas de entrevistas gravadas — e quase enlouqueci, depois, para selecionar material.

Meses de duro trabalho resultaram, para Fernando Morais, num volume de informação brutal sobre Paulo Coelho, incluindo material que ele jamais mostrara a qualquer outra pessoa, incluída sua mulher, Christina Oiticica: um baú inteiro de diários escritos desde a adolescência.

Aí viria a fase em que meu amigo mais sofre: organizar o material e escrever. São dias, semanas, meses de angústia, até o ponto final. No caso, em um volumaço de 624 páginas.

Nesse período, como ocorrera em vezes anteriores, Fernando me honrou com um convite para palpitar sobre o livro. Para isolar-se e trabalhar em paz, ele se refugiara na bela casa de praia que então possuía em Maresias, no belo litoral Norte de São Paulo, onde me hospedou por vários dias.

(CONTINUA)

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