Comecei no jornalismo antes de completar 19 anos de idade, e com data certa: no dia 29 de março de 1965.

Neste dia me apresentei para trabalhar como estagiário na sucursal de Brasília da hoje extinta agência de notícias Interpress, chefiada pelo jornalista Dirceu Maciel Coutinho.

Dele recebi os primeiros toques na profissão, mas em menos quantidade do que de dois outros profissionais que se tornariam queridos amigos, e que estão na foto: Alberto Gambirasio, à esquerda, secretário de Redação da sucursal e auxiliar do grande Pompeu de Souza como professor de jornalismo na Universidade de Brasília, exigente mas paciente com o foca, e Alencar Monteiro, um jornalista faz-tudo agitadíssimo e generoso, que me abriria a porta seguinte na profissão — uma emissora de rádio.

Eu cursava Direito na Universidade de Brasília, mas estava inquieto por trabalhar. Sempre gostei de escrever, lia jornais desde criança — comecei com A Gazeta Esportiva — e meu Pai, Arnaldo Setti, advogado e à época procurador do Instituto Brasileiro do Café, tinha um colega de trabalho que era funcionário público e jornalista no Jornal do Brasil.

Daí para o estágio foi um passo. Minha decepção ao final de um mês de trabalho, a 30 de abril, por não receber um tostão furado foi largamente compensada pelo que aprendi em menos de dois meses naquela sucursal no Setor Comercial Sul de Brasília, e pelos numerosos jornalistas que passei a conhecer, iniciando uma network valiosa na profissão. De José Leão Filho a Ronan Soares, de Flamarion Mossri a Fernando César Mesquita, fui colecionando contatos e, em muitos casos, amizades.

A Interpress praticamente não tinha repórteres exclusivos: a grande maioria, se não todos, tinham empregos em grandes jornais ou em cadeias como os Associados, e deixavam na sucursal da agência, ao final do dia, cópias carbono — sim, carbono! — do material que haviam remetido para suas sedes.

A mim cabia reescrever esse material, para diferenciá-lo do original, colocar títulos e passar os textos para os teletipistas (sim, havia teletipistas, que picotavam fitas codificadas, as quais, introduzidas num aparelho antediluviano denominado telex, transmitiam as matérias para a sede, em São Paulo, de onde eram distribuídas para uma rede de assinante).

Também ajeitava o texto da montanha de releases que chegavam diariamente, especialmente do Palácio do Planalto, com informações oficiais relevantes — decretos assinados, nomeações feitas, viagens presidenciais programadas, discursos feitos –, colocava títulos e passava adiante.

Foi Alencar Monteiro quem me  disse que, na Rádio Planalto, procuravam um noticiarista — alguém que redigisse um noticiário, curto, de meia em meia hora, com base em informações de agências, rádio-escuta de emissoras importantes do Rio e São Paulo e alguns poucos colaboradores que passavam material por telefone.

Acabei sendo contratado — dessa vez, com um salário. Como estagiário de jornalismo contratado, pude registrar-me no Ministério do Trabalho (a legislação da época permitia) e, assim, decorridos três anos consecutivos sendo remunerado pelo que fazia, adquiri a profissão que, sem saber, já estava no meu sangue desde sempre.

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