Meu amigo visita o Salão Oval da Casa Branca — e fica impressionado com a escrivaninha de Obama

Um dos recintos mais mencionados no planeta, o Salão Oval da Casa Branca, de onde o presidente dos Estados Unidos governa o país mais rico e poderoso do mundo, é menor do que parece — talvez porque a televisão, por onde sempre ele é visto, aumente as dimensões reais de pessoas e objetos, como se sabe.

Esta é a impressão que me contou um jornalista espanhol que esteve rapidamente com o presidente Barack Obama em seu gabinete de trabalho, durante uma visita do primeiro-ministro da Espanha, José Luís Rodríguez Zapatero, aos Estados Unidos. Como jornalista, já fiz trabalhos profissionais em Washington e conheço parte da Casa Branca. No Salão Oval, porém, poucos jornalistas brasileiros já estiveram. E eu achei interessante a descrição do meu amigo. Queria compartilhar com vocês.

Surpresa: a sala de imprensa é minúscula

Ele ficou muito surpreso ao constatar como é minúscula a sala de imprensa da Casa Branca, que na TV parece grandiosa — impressão que qualquer brasileiro teria, também, em sua equivalente no Palácio do Planalto, tornada algo solene por diferentes recursos, como aquela reprodução de uma bandeira do Brasil tamanho grande em movimento que ficava atrás do porta-voz André Singer, no primeiro mandato do presidente Lula (2003-2007).

Na da Casa Branca, são apenas 49 lugares, dois corredores laterais que não passam de um metro e meio de largura e o cenário onde fica o pódio, diante da primeira fileira, em que o Secretário de Imprensa faz seus briefings diários.

Junto com outros jornalistas, meu amigo espanhol deixou a sala de imprensa rumo ao Salão Oval. Seguindo as indicações de um funcionário que acompanhava o grupo, entraram na Ala Oeste — área de trabalho da Casa Branca, em contraposição à residencial — por um corredor que desemboca numa espécie de terraço alongado, salpicado por colunas brancas, por onde o presidente passa quando vai da ala residencial para seu gabinete, e que dá para o famoso Rose Garden (Jardim das Rosas), palco de tantos encontros e entrevistas históricas.

O presidente Bush, durante uma coletiva de imprensa no Rose Garden, em junho de 2006

O famoso Rose Garden da Casa Branca, em junho de 2006, durante entrevista coletiva á imprensa do então presidente Ge0rge W. Bush

Ali o grupo foi detido por cinco minutos, à espera de um sinal para ingressar no Salão Oval. Um funcionário instruiu que deveriam entrar em silêncio e sem empurra-empurra.

O grupo entrou no Salão Oval pela porta envidraçada que fica à direita da tão televisionada mesa do presidente. Obama e o primeiro-ministro Zapatero aguardavam sentados na outra ponta da sala, de frente para a mesa presidencial e  para os janelões atrás dela, através dos quais se viam balanços e outros brinquedos instalados após a chegada do casal Obama e suas duas filhas à Casa Branca.

Quadros austeros e vasos de flores

Ele diz ter logo sentido “aquele cheiro de limpeza e ar condicionado, típico dos escritórios americanos”. O Salão Oval é muito claro, devido à luz natural, decorado de forma clássica, com quadros austeros e vasos de flores. Os jornalistas ficaram meia hora com os governantes. Meu amigo gostou do jeitão de Obama, ficou bem impressionado. Mas não conseguiu deixar de notar a especialíssima mesa presidencial, absolutamente limpa, sem um papel, pronta para a visita.

Obama na mesma e veneranda escrivaninha usada por outros 23 presidentes americanos: um presente da rainha Vitória em 1880

É que ele gosta de objetos que carregam consigo um pedaço de história, e a veneranda escrivaninha, aquela mesma em que se escondiam e brincavam os filhos pequenos do presidente John Kennedy, tem história. Não só porque 23 presidentes a usaram (Richard Nixon foi uma das três exceções), inclusive gigantes como Franklin D. Roosevelt, que dali declarou guerra ao Japão e começou a dar um fim à II Guerra Mundial.

A famosa foto de 1963 em que John F. Kennedy Jr. aparece brincando  enquanto seu pai trabalhava

Um presente da rainha Vitória

Mas também pela história do próprio móvel. Ela foi feita com madeira de um navio abandonado encontrado por uma frota americana — a fragata britânica HMS Resolute, que o governo americano devolveu à Grã-Bretanha como gesto de boa vontade. De sua carcaça a rainha Vitória encomendou a um artesão a escrivaninha e a presenteou ao presidente americano Rutherford B. Hayes em 1880.

“Confesso que tremi na base”, me disse, em tradução livre, o amigo — não muito fã dos Estados Unidos, diga-se de passagem.

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Nenhum comentário

  • Frederico Hochreiter/BH

    Ricardo:
    Interessante descrição a de seu amigo, entremeada de seus comentários. Nunca entrei num palácio presidencial além do Catete e, em matéria de legislativos conheço o do Uruguai. No mais, apenas por fotos. Mas tenho sempre a impressão de que tais lugares devem, por necessidade, encarnar uma história. Deve haver no lugar aquela atmosfera, móveis, quadros, lembranças, que acabam impregnando os que ali atuam com o espirito dos que ali estiveram, trabalharam, pregaram. Você deve conhecer o texto da recomendação de Churchill para que o parlamento inglês fosse reconstruido após a guerra exatamente como era antes, no formato tradicional retangular e bancos onde cada um se assenta em seu lugar, o governo de um lado e a oposição do outro. Tudo isso contribui para criar aquele clima de seriedade e tradição (nem sempre devidamente respeitado, é claro, mas de qualquer jeito cria). Por outro lado, essas modernosidades (se é que existe o termo), que vemos em Brasilia e na maioria dos estados brasileiros produzem o efeito exatamente contrário. As “exceléncias” se refestelam em espaçosas poltronas giratórias, botam em cima da mesa notebooks que não sabem usar, ficam trançando pelo plenário com conversinhas paralelas, sobem à (e por pouco na) mesa diretora, ninguém ouve ninguém e o resultado é o que sabemos. Noves fora as exceções tipo Nixon, acredito que o ambiente no salão oval definitivamente não é propício a conversas sobre dossiês, armações e mensalões. Posso estar enganado, mas a arquitetura aberta, espaçosa, cheia de vidros é, ao contrario, um convite a esse tipo de tramóias. No mais, cumprimentos pela diversidade de temas.

    Obrigado pelo comentário e pela visita, caro Frederico.
    Volte sempre!

  • Jefff

    Li no livro Perigo real e imediato que deu origem ao filme estrelado pelo Harrison Ford que Ronald Reagan como era um homem bem alto achava a mesa pequena.

  • Tiago

    Caro Ricardo,

    Muito bom o post, inclusive me lembrou de vários filmes americanos que contam e mostram detalhes sobre a casa branca. Lá nos EUA, o cinema é visto como um business e a história nacional é lembrada a todo instante pela sociedade. Aqui, o cinema mama nas tetas do governo e a maioria do povo em geral não sabe nem o hino nacional…

    Abraços!

  • chorei antes de nascer

    Era impossível ver André Singer na televisão e não lembrar da cara do Hitler, sumiu do mapa, digo da mídia televisiva, porque os tenebrosos do PT se tocaram com a inconveniente – para eles, (em termos gramscianos), associação, da evocativa e ilustrativa semelhança? Uma imagem vale por mil palavras!