50 ANOS DO GOLPE DE 1964: Eu vi JK votar no marechal Castello, para depois ser cassado (capítulo 1)

50 ANOS DO GOLPE DE 1964: Eu vi JK votar no marechal Castello, para depois ser cassado (capítulo 1)
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Parlamentares aplaudem depois de elegerem o marechal Castello Branco como primeiro presidente do regime militar (Foto: Reprodução revista “Manchete”)

Meu primeiro presidente foram dois: Juscelino Kubitschek (1956-1961) e o marechal Humberto de Alencar Castello Branco (1964-1967), primeiro do ciclo da ditadura de 1964. Só que eu ainda não era jornalista – mas, meninos, eu vi.

Entre os 70,1 milhões de brasileiros de então, eu fui, aos 18 anos, e ao lado de meu pai, de um grande amigo dele e de um de meus quatro irmãos, um dos 2.000 cidadão que assistiram, no Congresso Nacional, à eleição indireta de Castello como presidente da República para completar o mandato do deposto presidente João Goulart, o Jango.

Dessas duas mil pessoas – entre o público nas galerias da Câmara dos Deputados, onde se reúne o Congresso, os próprios parlamentares e os funcionários e jornalistas que assistiram à cena história –, quantos estarão vivos?

Sem ter planejado nada e na condição de mero estudante de Direito na Universidade de Brasília (UnB), acredito ser hoje, com meu irmão Arnaldo Augusto, à época estudante secundarista, uma rara testemunha sobrevivente entre 193 milhões de brasileiros do triste acontecimento, que se deu no dia 11 de abril de 1964.

E vi JK – sim, exatamente JK, que seria cassado e perseguido pela ditadura – votar no marechal. 

Excitação e tensão no Congresso

O leitor já percebeu, até pelo título do post, que, à semelhança de meu colega de site e querido amigo Augusto Nunes, também adquiri uma pequena coleção de presidentes ao longo da carreira. Não se trata de um grande baú, como o dele, mas, tal qual figura no título, uma gaveta. Comecemos, então, pelo começo.

Presidente do Senado, Auro Soares de Moura Andrade 1964. (Foto: UH/Folhapress)

O senador Auro de Moura Andrade (PSD-SP) em seu gabinete de trabalho: ele presidiu a sessão do Congresso que elegeu Castello, com o voto de JK

Lembro-me perfeitamente do clima de excitação e tensão que reinava aquele dia no Congresso até que a sessão começasse. Não me esqueço, igualmente, do vozeirão empostado, digno de locutor profissional, com que o então presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, do PSD paulista, chamava um por um, Estado por Estado, deputados e senadores para que votassem a descoberto, em voz alta. (O Congresso fora profundamente depenado pelas cassações de mandatos, mas os militares não queriam correr qualquer risco. Nada de voto secreto).

Houve um grande frisson no plenário quando Moura Andrade chamava para votar a bancada da Bahia. Ao declamar o nome do então deputado da “banda de música” da UDN — feroz opositora do governo de JK — Aliomar Baleeiro, futuro ministro do Supremo Tribunal Federal, o deputado aproveitou o momento solene para fustigar o candidato a vice-presidente que o PSD conseguira contrabandear para a chapa de Castello, o ex-ministro da Fazenda José Maria Alckmin.

O ministro fora acusado pelo deputado, em 1957, de acobertar negócios escusos de um empresário, Antonio Sanchez Galdeano, no que a oposição a JK chamou de “o escândalo do uísque a meio dólar”.

Chamado seu nome, em vez de votar, como toda a UDN fazia, no marechal Castello, Baleeiro berrou, do fundo do plenário, escandindo vagarosamente cada palavra:

– Antonio… Sanchez… Galdeano!

Houve um estrondo simultâneo de aplausos, gargalhadas e vaias.

A devoção de meu pai a JK e Brasília em obras

Meu pai, Arnaldo Setti, viu com péssimos olhos o golpe contra Jango. Adepto incondicional de JK, que no início de seu mandato, em 1956, convidara aquele jovem advogado do interior do Paraná, formado na Faculdade do Largo de São Francisco, para exercer altas funções no hoje extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC), no Rio, ele trabalhara próximo ao presidente e temia que o novo regime fosse expurgá-lo, como de fato acabaria ocorrendo.

A devoção de meu pai ao ex-presidente era tal que, em determinadas férias familiares, passadas em Goiás no longínquo julho de 1959, ele levou minha mãe e os cinco filhos para conhecer Brasília. Experiência absolutamente inesquecível para o moleque de 13 anos que eu era – uma cidade inteira sendo erguida do nada, um turbilhão de obras cobertas de poeira vermelha.

Naquele Brasil ainda primitivo, rural, que JK acelerou em todas as áreas, causava espanto e orgulho ver o exército de enormes bull-dozers – falava-se em mil – rugindo seus poderosos motores por todo lado, terraplenando o solo ressequido e vermelho do cerrado, preparando o terreno para construções, rasgando futuras avenidas e estradas.

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A Esplanada dos Ministérios ainda em esqueleto, em julho de 1959. A foto foi tirada por mim, então com 13 anos de idade, na Brasília em obras

Numa capenga, rudimentar câmera Kapsa ganha de presente, fiz algumas fotos da obra gigantesca e grandiosa. Só sobrou a que está publicada acima– a Esplanada dos Ministérios, ainda um esqueleto. Também viviam a fase de concretagem os edifícios-sede da Câmara dos Deputados e do Senado, o Palácio do Planalto, a sede do Supremo Tribunal Federal.

A catedral e a torre de TV não passavam de esboços. O Alvorada, onde JK se hospedava, funcionava e foi devidamente visitado pela família, embasbacada.

Chegando a hora de JK votar

De todo modo, apesar de suas desconfianças para com o golpe, naquele 11 de abril meu pai estava ali, nas galerias do Congresso, seus olhos muito azuis fixos no plenário, algo esperançoso de que ainda houvesse chance de prosseguimento da campanha pela volta de JK – o movimento “JK-65”, referência ao ano da eleições presidenciais previstas para o ano seguinte.

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O ex-presidente Juscelino Kubitschek, eleito em 1961 senador por Goiás, apoiou Castello, certo de que os militares o poupariam. Terminou cassado

Os militares golpistas juravam que queriam uma democracia.

Quanto a mim, tal qual meus quatro irmãos menores, fora criado na veneração doméstica ao “presidente bossa-nova”, o construtor de Brasília e de hidrelétricas, que cortara o país de rodovias, implantara a indústria automobilística, era tolerante e generoso com os inimigos e dissipou Brasil afora uma onda de otimismo e confiança até então inédita. Um presidente galante e dançarino, que se emocionava com a canção “Peixe Vivo”, percorria o Brasil de avião turboélice – extraordinária novidade –, tinha duas filhas adolescentes e venerava a mãe velhinha, mas firme e forte em sua natal Diamantina (MG).

Portanto, é compreensível que me lembre com emoção – ainda me arrepiam os pelos do braço – quando a chamada do senador Moura Andrade para a votação nominal se aproximava do Estado de Goiás, pelo qual Juscelino se elegera senador no ano anterior, com avassaladora votação.

O vozeirão trovejou:

– Goiás!

E em seguida, por ordem alfabética dos três senadores do Estado, chamou:

– José Feliciano! [ex-governador, do mesmo PSD de JK]:

– Castello Branco! – foi o voto.

E Auro:

– Juscelino Kubitschek!

JK fez o combinado dias antes, como contarei em outro post.

– Castello Branco!

Uma enorme ovação, com palmas e gritos das galerias, do plenário e até de funcionários quebrou o protocolo. Não me esqueço, não vou me esquecer nunca, da figura para mim então mitológica de JK, na parte posterior do plenário, do lado direito do corredor central, de pé e sorridente, recebendo a saudação. Antes disso — e meu irmão é quem me refresca a memória –, tanta gente cumprimentava o ex-presidente que ele passou parte da sessão num incessante senta-e-levanta.

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O general Amaury Kruel

Combinaram de poupar JK, e o cassaram

Os militares golpistas, que queriam manter as aparências de uma democracia tutelada, preocupavam-se com o possível apoio de deputados e senadores ao general Amaury Kruel, comandante do poderoso  II Exército, sediado em São Paulo — atual Comando Militar do Sudeste –, amigo e compadre de Jango.

Era, então, muito importante o apoio do PSD, maior partido do Congresso, a Castello. E ficou combinado que o ex-presidente seria poupado das cassações em troca de seus parlamentares votarem em Castello na eleição indireta daquele 11 de abril de 1964.

Que nada.

Castello, previsivelmente, elegeu-se. Obteve 361 votos. Três congressistas votaram no deputado e marechal Juarez Távora, ex-tenente da Revolução de 1930, dois homenagearam o marechal e ex-presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), 72 se abstiveram e 37 não compareceram.

Menos de dois meses depois da eleição indireta, a 8 de junho de 1964, Castello cassou o mandato e suspendeu por 10 anos os direitos políticos de JK.  Não demoraria e o ex-presidente seguiria para o exílio em Paris.(Continua às 14 horas).

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Castello, já presidente, chega ao Palácio do Planalto com um dos netos

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