Gaveta de Presidentes: Minha reportagem com Médici sofreu um corte da censura da ditadura. Vai ver foi por minha cara feia

Gaveta de Presidentes: Minha reportagem com Médici sofreu um corte da censura da ditadura. Vai ver foi por minha cara feia A pequena reportagem publicada em VEJA no dia 15 de outubro de 1975

A ordem veio do editor Almyr Gajardoni, jornalista e pessoa de primeiríssima, um de meus dois chefes na seção “Brasil” de VEJA, onde eu chegara há pouco mais de 3 meses e era um dos editores-assistentes:

— Setti, o Médici vai receber uma homenagem de estudantes na PUC de Campinas, e é bom dar uma olhada nisso. Você vai, tá?

Marcos Sá Corrêa, a quem se poderia aplicar igualmente os dois adjetivos, era o outro editor de “Brasil”. Almyr ficava na sede da revista, em São Paulo, e Marcos na sucursal do Rio. A distância geográfica e a diferença de idade e de temperamentos — Almyr mais velho e mais fechado, Marcos expansivo, brincalhão e mais jovem — não impedia que formassem uma dupla em permanente e impressionante sintonia, como se fossem xifópagos.

Os dois recebiam maçarocas de laudas dos repórteres e longos relatos das sucursais e, juntos, manuseando aquela papelada e se revezando na máquina de escrever — eram tempos pré-computador — até que saíam textos claros, límpidos, articulados e, não raro, repletos de ironia.

Médici, naturalmente, era o ex-ditador Emílio Garrastazu Médici, terceiro dos generais-presidentes do regime militar, que transferira o poder em março do ano anterior para o general Ernesto Geisel e se recolhera, discreto, a seu apartamento no Rio.

Pouco ou nada identificado com o projeto de abertura “lenta, gradual e segura” do regime proposta por Geisel, seu eventual reaparecimento público poderia ter implicações políticas.

Num dia de outubro de 1975, lá fui eu para Campinas, junto com o fotógrafo Sérgio Sbragia, hoje cineasta.

É importante que vocês leiam o texto que eu escrevi, e está depois da foto abaixo. Saiu na edição nº 371 de VEJA, de 15 de outubro de 1975 (aqui é possível lê-la na versão escaneada da revista). É curtinho. Depois eu volto, também em itálico, para contar o fim da história.

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Médici, tendo à esquerda o prefeito Lauro Péricles Gonçalves e o general Mário de Souza Pinto e, à direita, o reitor Benedito Fonseca. Atrás do reitor, cabeludo e bigodudo, eu olho feio para o ex-general-presidente

Três vezes chamado de “nosso eterno presidente” e uma de “o unificador do século XX” por um orador que também não se esqueceu de louvar-lhe a “voz máscula e serena”, o general Emílio Garrastazu Mádici foi homenageado terça-feira passada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Inaugurava-se, na ocasião, uma praça no campus universitário que leva seu nome e, ao que parece, um novo hábito na até agora recatada e discreta vida do ex-presidente: o de viajar, ouvir discursos, receber homenagens e conversar com políticos e chefes militares.

O inflamado orador – André Prezzi, presidente da comissão de formatura dos estudantes de Comunicações, que escolheram Médici como patrono em 1974 – teve sua opinião quanto à eternidade do cargo honorífico compartilhado pelo reitor da PUC, Benedito Fonseca, que falou em seguida e louvou a obra do governo anterior. Como resposta, um servidor da PUC leu a protocolar mensagem que o ex-presidente deixara, por escrito, no livro de visitas da reitoria. Médici não discursou.

Médici com o reitor e o prefeito; em primeiro plano, eu, de cara feia de novo

Visitantes – O general chegou segunda-feira à noite, e na terça, às 8h30, visitou a Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Depois das solenidades na PUC, almoçou num hotel com os formandos. Sempre protegido por uma dúzia de seguranças, visitou ainda uma creche da Prefeitura e no dia seguinte, antes de voltar ao Rio, concedeu audiência ao prefeito de Paulínia – cidade vizinha incluída na área de segurança nacional e sede de uma refinaria da Petrobras.

O prefeito, entretanto, não foi o único visitante recebido por Médici no Hotel Vila Rica: lá estiveram, entre outros, o general Mário de Souza Pinto, comandante da 11ª Brigada de Infantaria Blindada, o coronel José Maria Camargo, comandante da Escola Preparatória, o deputado Ricardo Izar e o ex-governador Laudo Natel.

O ajudante-de-ordens de Médici, major Ivo Pachalli, assegura que tudo isso é fora da rotina, pois o ex-presidente só sai do Rio para atender “a convites irrecusáveis” e em casos extremos.

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Aqui volto eu, amigos. Naturalmente, devido ao período negro em matéria de direitos humanos no qual governou o país, como cidadão eu não tinha nenhum apreço pelo general Médici. Como profissional, porém, cabia-me cobrir a visita e apurar o que pudesse sobre sua incursão campineira. Por alguma razão, porém, nas fotos de Sérgio Sbragia em que apareci, estava de cara feia.

Eu andava destreinado em política, porque, durante praticamente todo o governo Médici, deixara a área política para trabalhar, no Jornal da Tarde e posteriormente na extinta revista Visão, na editoria Internacional, o que me levara, entre outras experiências, a cobrir a eleição do socialista Salvador Allende no Chile.

Nunca tinha estado com Médici, a quem apenas vira de perto uma vez, por acaso, quando, altas horas da noite, voltava de um lanche no centro de São Paulo para a redação do Jornal da Tarde e dei com o então presidente, acompanhado de poucos agentes de segurança, descendo de um carro e entrando no Hotel Jaraguá, que ficava no mesmo edifício. Eu me aproximei para observar, fiquei a um metro do general e, para minha surpresa, não levei safanão de nenhum segurança.

Mesmo destreinado, em Campinas não foi nem um pouco difícil descobrir o segredinho embutido na homenagem que os formandos haviam prestado ao ex-presidente.

A última frase de meu texto publicado ali atrás, só para lembrar, era: “O ajudante-de-ordens de Médici, major Ivo Pachalli, assegura que tudo isso é fora da rotina, pois o ex-presidente só sai do Rio para atender ‘a convites irrecusáveis” e em casos extremos.” O texto continuava com a seguinte informação, que explicava tudo:

O que não parece ter sido o [caso] de Campinas: segundo o estudante Prezzi, foi a própria assessoria de Médici que lhe telefonou em julho passado, informando que o general gostaria de ir à cidade, já que não pudera comparecer à formatura, seis meses antes.

Vejam no trecho da lauda, abaixo, o corte com tinta vermelha feito pelo censor que então “trabalhava” em VEJA, e que se chamava Richard Bloch:

O fecho do texto foi proibido pela censura: mostrava que Médici, na verdade, tinha se auto-convidado para a homenagem em Campinas

A censura da ditadura quis, portanto, que VEJA não revelasse a seus leitores que o general, para voltar a aparecer publicamente, se auto-convidara.

Mas não sei, não.

Vai ver que os seguranças do general constataram a cara feia do repórter, julgaram tratar-se de um perigoso dissidente do regime e passaram a informação à censura, que imediatamente tomou providências.

É claro que estou brincando. Mas o regime que então oprimia os brasileiros, além de negro, também sabia ser extremamente ridículo. Uma coisa assim poderia até acontecer. O fato é que, embora frustrado por não ver publicada a razão de ser da matéria, acabei depois considerando o corte do censor como uma pequena condecoração.

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