Os dois são políticos calejados e matreiros, e sabem do que estão falando. “Não existe partido político em Minas”, sentencia, do alto de seu favoritismo multipartidário para voltar ao Palácio da Liberdade, o ex-governador mineiro Hélio Garcia, ouvido pelo repórter Ricardo Amaral, do Estado. “O quadro partidário tem de ser reformulado no ano que vem, porque até o PMDB acabou”, constata o atual governador das Gerais, Newton Cardoso.

Tem mesmo, e não se trata de um problema exclusivamente mineiro. O estado terminal, de sinais vitais apenas preservados, exibido pela candidatura presidencial do deputado Ulysses Guimarães no ano passado – quando chegou em modestíssimo sexto lugar no primeiro turno – foi o mais clamoroso sintoma da falência do ainda maior partido político brasileiro, o PMDB. Pior ainda, como todo mundo sabe, foi a situação do candidato do segundo maior partido, o PFL – o ex-vice-presidente Aureliano Chaves, de cuja campanha os pefelistas fugiram em escandalosa debandada.

Pesada foi, e ainda está sendo para o PMDB, a conta da transição do País rumo à democracia. Se for um consolo, sempre é bom lembrar que a situação do PMDB – e um pouco menos a do PFL, hoje dependurado no prestígio do furacão Fernando Collor e com alguma chance de sobrevida – não é original. A dificílima transição argentina corroeu em velocidade galopante a União Cívica Radical do presidente Raul Alfonsín, eleito de forma consagradora em 1983 para ver o candidato à sua sucessão ser triturado nas urnas pelo velho peronismo recauchutado, dançando tango e portando suíças do hoje presidente Carlos Menem.

Algo na mesma linha ocorreu também em Portugal. A baderna anárquico-militar que se seguiu à euforia dos Cravos, em 1974, desembocou dois anos depois no socialismo moderado de Mario Soares. Em três anos, Soares era apeado do governo, para só voltar quatro anos mais tarde, com seu Partido Socialista fora das nuvens e já em coligação com os mesmos conservadores que antes proclamava abominar. Hoje Soares é um presidente bonachão, de poucos poderes, num país governado por conservadores, que surraram os socialistas nas duas últimas eleições.

De arrepiar os cabelos, mesmo, foi a história da União do Centro Democrático (UCD) na Espanha. A espetacular vitória do socialista pragmático Felipe González, em 1982, deu-se sobre os escombros da implosão total do partido armado pelo ex-primeiro-ministro Adolfo Suárez, o grande executor da passagem do país das trevas para a liberdade. De 168 deputados, num total de 350, a UCD desabou para risíveis 13. Na eleição seguinte, em 1986, o partido desapareceu.

Se, numa transição genialmente concebida e executada como a espanhola, a conta foi de tal forma salgada para o partido condutor, não há, evidentemente, por que se surpreender com a tragédia shakespeariana em que mergulhou o PMDB depois da transição brasileira, feita – como dirá Nélson Rodrigues – com arrancos de cachorro atropelado, por um presidente, como foi José Sarney, que não teve grandeza para entender seu papel na História, e por dois partidos que, depois de governarem, brincaram na televisão de fazer oposição a Sarney, achando que alguém iria acreditar.

Não se trata de profetizar a extinção física do PMDB. É claro que a derrota do doutor Ulysses provocou grande sangria em seus quadros, mas sobrarão fortes enclaves, aqui e ali – embora o partido não tenha [neste ano de 1990] grande chance de eleger governador em nenhum grande Estado. O PFL, que durante a campanha de 1989 abandonou Aureliano para collorir, afifar, malufar e até brizolar, acabou se pendurando no presidente e em velhas lideranças que ressurgem, a começar pelo ex-governador e ex-ministro Antônio Carlos Magalhães, senhor absoluto da eleição na Bahia, e poderá se aprumar novamente. Legendecas que serviram de palco para exibicionistas ou espertalhões de carteirinha foram devidamente varridas pela campanha presidencial, e pode-se imaginar que em 3 de outubro ainda escapem da guilhotina partidos de consistência ideológica e os que se fundam em figuras marcantes – para o bem ou para o mal.

Mesmo com a derrota do deputado Luiz Inácio Lula da Silva [na disputa pela Presidência], o PT viu a campanha de 1989 fazer fermentar um partido coerente, com militantes fiéis e entusiasmados, apesar da teimosia eleitoral de seus líderes e do erro que constituiu agora, por exemplo, a não-candidatura de Lula a deputado. O PSDB, por sua vez, tem um programa sólido e lideranças respeitadas, embora ainda esteja devendo exibir músculos mais vistosos nas urnas. O PDT vai em frente, apesar de guetificado no Rio e no Rio Grade do Sul, satrapias eleitorais do ex-governador Leonel Brizola. E o velho PDS, hoje virtualmente controlado pelo malufismo, provou na campanha eleitoral – e mostra novamente, na disputa pelos governos estaduais, a começar por São Paulo – que tem seu lugar na sociedade. O mais pouco conta.

Apesar de ninguém aguentar mais paternalismo, provavelmente não haverá como escapar de um fato da vida: é ao presidente Fernando Collor, eleito por um partido inexistente e artificial, o PRN, que caberá algum tipo de condução no necessário processo de reformulação partidária de que falam Newton Cardoso e Hélio Garcia. É natural que o presidente cogite da medida com os olhos voltados para a urgente necessidade de ter uma maioria no Congresso para tocar seu projeto de mudanças. Mas o País espera que ele também o faça mirando o futuro e o vigor da democracia que jurou defender e aperfeiçoar. Vamos ver.

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