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Merkel com Sarkozy: apoio eleitoral dela a ele, no contexto europeu, não é absurdo (Foto: exame.com.br)

Se o presidente do México, Felipe Calderón, disser que, nos Estados Unidos, apoiará a reeleição do presidente Barack Obama ou seu rival republicano, ainda em processo de escolha, seria uma gafe diplomática e um escândalo internacional. O vice-versa, então — os EUA dando palpites na eleição do México — seria um Deus nos acuda.

Efeito não muito diferente causaria o suporte público do primeiro-ministro conservador do Canadá, Stephen Harper, ao candidato escolhido pelos republicanos para tentar chegar à Casa Branca, ou a defesa, pelos democratas americanos, dos candidatos liberais ao Parlamento canadense, em detrimento dos conservadores.

Na Europa, no entanto, com a União Europeia — que tem suas origens remotas na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, constituída em 1958 por seis países — e o Parlamento Europeu, esse tipo de atitude é vista com mais naturalidade.

Tanto é que não causou surpresa, trauma nem críticas o recente apoio público da chanceler alemã Angela Merkel — a mais influente governante da Europa — à reeleição do presidente francês Nicolas Sarkozy, na disputa cujo primeiro turno ocorrerá no próximo 22 de abril.

Alemanha e França, inimigos ancestrais, protagonistas de várias guerras e que estiveram em campos opostos nos dois maiores conflitos da história — a I Guerra Mundial (1914-1918) e a II Guerra Mundial (1939-1945) — passaram, no pós-guerra, a ser aliados cada vez mais próximos e constituíram o grande eixo sobre o qual se ergueu a União Europeia. Mesmo quando governadas por políticos de partidos ideologicamente distintos — socialistas ou conservadores na França, social-democratas ou democratas-cristãos na Alemanha –, os dois países costumam marchar juntos, são o “motor da Europa”.

Uma das mais sólidas parcerias se deu entre o presidente socialista da França François Miterrand (1981-1995) e o chanceler conservador democrata-cristão da então Alemanha Ocidental, e posteriormente da Alemanha reunificada, Helmut Kohl (1982-1998).

Aos vários gestos públicos de reconciliação empreendidos por governantes dos dois países desde o final da guerra, ambos acrescentaram uma atitude que comoveu a Europa, ao comparecerem, juntos e de mãos dadas, a uma cerimônia que homenageou em Verdun, na França, aos 260 mil soldados dos dois países mortos na batalha do mesmo nome que, tendo durado 11 meses, foi a mais longa da I Guerra Mundial.

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A cena história entre o socialista Miterrand (esq.) e o conservador Kohl, homenageando os mortos na Batalha de Verdun, na I Guerra Mundial (Foto: Bundeskanzlerin.de)

No caso de Merkel e Sarkozy, coincidiu de os comandantes das duas maiores economias da Europa pertencerem, no Parlamento Europeu de 736 deputados, sediado em Estrasburgo (França), a partidos nacionais integrantes do mesmo Partido Popular Europeu que, com 265 membros, é o maior do legislativo comunitário. Além do mais, mantêm excelentes e cordialíssimas relações pessoais, e mesmo em público se comportam como se tivessem ensaiado.

Ainda está na memória dos jornalistas o episódio ocorrido no final do desastroso governo de Silvio Berlusconi na Itália, que deixou o poder em novembro passado depois de descumpri sucessivos compromissos de austeridade econômica acertados com os aliados europeus. Em uma entrevista conjunta em Bruxelas, quando perguntados sobre se acreditavam que o primeiro-ministro italiano iria cumprir determinados acertos de cortes de gastos e aumento de arrecadação, Merkel e Sarkozy, ambos em pódios separados, olharam um para o outro e riram.

A plateia de jornalistas caiu na gargalhada.

Merkel tem razões adicionais para apoiar Sarkozy na França: o oponente do presidente, o socialista François Hollande, já anunciou que renegociará vários dos acordos firmados pela França dias atrás para tentar estabilizar a zona do euro.

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Reynaldo-BH em 03 de fevereiro de 2012

Setti, sei que temos visões quase que opostas sobre Merkel e o papel da mesma na crise européia. Me arrisco a não concordar, embora sabendo que é quase uma atitude arrogante e presunçosa. Você conhece melhor a Europa que eu e idem de política internacional. Só me arrisco a expor a discordância por que sei que você sabe que não sou presunçoso e que sei da liberdade deste espaço. Não nego a importância de Merkel no atual cenário europeu. Mais derivada da força que a Alemanha apresenta - economicamente - e por estar "pagando a conta" dos desvarios de diversos países da Zona Euro. Fraulein Merkel tem uma eleição à frente. E no caso dela, é importante passar a mensagem aos alemães que está desconfortável em assumir este encargo. Como o povo alemão está. Merkel não explicita que o que está fazendo não é em nome da Europa, mas sim dos bancos alemães. E da economia alemã. Seria mais justo assumir esta posição publicamente, até por que é uma posição inatacável. Porém, ela vai além. Usando da força econômica (em parte mantida pela hegemonia nas trocas comerciais internas à Europa), Merkel avança todos os sinais, como uma divisão panzer, querendo transformar uma "guerra" de longa e penosa duração em uma blitzkrieg. Os dirigentes europeus já não se reúnem somente em Bruxelas. Antes de cada cimeira, vão a Berlim. Portugal, Espanha e Itália antes de apresentarem os planos de estabilização/recuperação ao Conselho da UE, precisam do nihil obstat de Merkel. A proposta de taxação do capital especulativo - é excelente - não foi apresentada para negociação. Foi uma tentativa de imposição aliada ao controle orçamentária de cada país, com suma supervisão externa que envolve além do Banco Europeu, o FMI. No mínimo uma estratégia desastrada. No máximo, mais um exemplo de arrogância. David Cameron foi o único a se opor. E não sem razão: a Inglaterra não depende tanto da Alemanha quanto os outros países. A Comunidade Européia, hoje, é um clube presidencialista com mando e comando da Alemanha. A última proposição de Merkel que queria condicionar a liberação de novo empréstimo à Grécia à concordância de Atenas de ter uma equipe de fiscalização e execução orçamentária EXTERNA, da UE, provocou o repúdio de toda a comunidade. Merkel foi longe demais. E nem assim recuou ou repensou esta demonstração de força que poderá, no futuro, trazer consequências de isolamento da Alemanha por parte de nações europeias que se sentem (e estão) minorizadas neste momento. Sarkozy, na minha visão, é somente o marido de Carla Bruni. Pelo que o invejo. De resto é um fantoche que se alia a Merkel em busca de uma importância e credibilidade essenciais para a eleição. Que já perdeu. A foto de Miterrand e Kohl é exemplar. Quando posta ao lado das fotos e Sarkozy e Merkel, dá razão a Confúncio. As motivações são diversas. E diria, quase que antagônicas. Não se viu, do mesmo modo, nenhuma declaração de apoio da nova direita européia (na Irlanda, Grécia ou Portugal) de apoio à eleição de Rajoy. Merkel declara apoio a Sarkozy, a meu ver, mais pela falta que fará com o apoio sempre declarado e sem questionamentos do que por receio da esquerda francesa. Sarkozy costuma fazer o "trabalho sujo", cordatamente ameaçando países e ditando regras que sequer são próprias: são de Merkel. Sei que você discordará de quase tudo que me leva a crer que Merkel, neste momento, faz mais mal a Europa do que os benefícios que uma nova ordem econômica responsável poderia trará. Existem formas e formas de atingir metas. Não creio que enfraquecendo o projeto de Europa única e atropelando a autonomia dos estados-membros, este objetivo seja 100% correto. Fazem falta Miterrand, Kohl, Gonzáles, Tatcher, Mário Soares, entre outros. Os atuais governantes europeus não estão à altura do momento histórico que se vive. Criaram a crise ou deixaram que ela acontecesse. E agora querem jogar a água da banheira com o bebê dentro. Funcionará? Abraços. Meu amigo Reynaldo, não exagere. Não discordo de "quase tudo" que você escreveu, não. A questão europeia é extremamente complexa, e não pretendo entender dela mais do que ninguém, muito menos de você, cultíssimo e bem informado. Não temos espaço aqui para discutir um assunto tão amplo, mas tenho uma visão um pouco diferente do papel da Alemanha do que você tem. Mas concordo mil por cento em relação à falta que fazem grandes estadistas do passado recente, sejam do centro, da direita ou da esquerda. Um grande abraço

Brasileiro de luto em 03 de fevereiro de 2012

ESE ME ENGANOU. LI O DISCURSO DE POSSE, QUERIA TE-LO ESCRITO, depois, so decepcao.... ate se aliou e virou fa do LUla, quer mais???????

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