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De vinícolas Bordeaux a fábricas na Alemanha, do porto de Pireu, na Grécia, a empresas energéticas em Portugal, a China expande sua influência e seu poder na Europa

A China não está mesmo para brincadeiras em matéria de ambição econômica – e, em decorrência, política.

Montada em seus quase 3,5 trilhões de dólares em reservas, com meio trilhão de dólares em investimentos geridos por seu fundo soberano, o China Investment Corporation – do qual 60% dos recursos estão aplicados em empresas e produtos financeiros dos Estados Unidos –, com acordos comerciais bilaterais se espalhando pela Ásia e a América Latina, com milhões de hectares de terras cultiváveis adquiridos na África (tema de futuro post), tendo aportado recentemente 43 bilhões de dólares ao FMI e emprestando ao continente mais dinheiro do que o Banco Mundial, o gigante chinês agora parece querer devorar a Europa.

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Instalações da gigante espanhola Enagás em Huelva: a China quer controlar (Foto: EFE)

A mostra mais recente do interesse chinês está ocorrendo na Epanha. Dois ativos tidos como “inegociáveis” até antes de o país mergulhar na crise econômica em que se encontra são, agora, cobiçados pela China: o controle da Rede Eléctrica de España (REE) e da Enegás, as duas empresas controladas pelo governo responsáveis pelo transporte de energia na quinta maior economia da Europa.

O ministro da Indústria espanhol, José Manuel Soria, resiste, mas não se sabe até quando. Sua posição é por ora compartilhada por Ramón Aguirre, o presidente da Sociedad Estatal de Participaciones Industriales (Sepi), espécie de holding encarregada de manter o controle acionário do governo sobre uma série de empresas públicas.

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A hidrelétrica de Alto Lindoso, em Portugal: capital chinês controla a ex-estatal de energia do combalido país (Foto: engenium.net)

O Estado espanhol, com 20% do capital mas maioria das ações com direito a voto, detém o controle da REE, e sua participação tem valor em bolsa de 1 bilhão de euros (2,5 bilhões de reais).

O grupo estatal chinês State Grid, porém, por tratar-se de adquirir o controle, teria disposição de colocar muito mais dinheiro sobre a mesa, sobretudo depois de haver comprado ao igualmente combalido Portugal, por 600 milhões de euros (1,5 bilhão de reais), o direito de mandar na ex-estatal Redes Energéticas Nacionais (REN).

Os chineses consideram que dispor dessa infraestrutura em toda a Península Ibérica é mais rentável e estrategicamente mais favorável, e já possuem, também, parte do capital da Energias de Portugal (empresa geradora).

Até 2020, até 1 trilhão de dólares de investimentos chineses

A mesma State Grid chinesa deseja controlar a Enagás, um colosso empresarial que conta com 10 mil quilômetros de gasodutos ligando centenas de diferentes cidades da Espanha, três fábricas de regasificação (que transformam o gás liquefeito), dois grandes depósitos subterrâneos e, entre outros interesses, detém até um terminal de embarque e desembarque de gás no México.

Por peculiaridades da legislação espanhola, o governo detém o mando acionário tendo apenas 5% do capital, que vale algo como 200 milhões de euros (500 milhões de reais).

A investida chinesa na Europa une a vastidão de seus recursos com a desesperada necessidade de liquidez dos países europeus. Para os chineses, à diversificação de seus investimentos no exterior se soma, também, o acesso a tecnologias de que precisam.

Segundo cálculos dos jornalistas espanhois Heriberto Araújo e Juan Pablo Cardenal, autores do livro La Silenciosa Conquista China (“A silenciosa conquista chinesa”, Editora Crítica, Barcelona, 2011, 400 páginas), os investimentos da China na Europa chegaram a 36,7 bilhões de dólares (algo como 77 bilhões de reais) em 2010 e subiram no ano passado para 52,1 bilhões (109,4 bilhões de reais). “Estas cifras poderiam ser rapidamente superadas se se contam os mais de 30 bilhões de dólares que Pequim injetou em seu fundo soberano exclusivamente para aquisições no Velho Continente”, escreveram eles em recente artigo. E devem alcançar, pasmem!, 1 trilhão de dólares em 2020.

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O porto de Pireu, anexo a Atenas, o mais importante da Grécia: chineses já têm a concessão (Foto: picturepush.com)

A diversificação é grande – seus interesses vão do setor vinícola francês (vinho Bordeaux, para ser mais exato) à gestão do porto de Pireu, o mais importante da Grécia, cuja concessão obtiveram por 35 anos, passando por empresas alemãs que dispõem de tecnologia avançada.

Foi o caso da compra, pela chinesa Sany (como todas as grandes companhias, controlada de alguma forma pelo Estado), da sua concorrente alemã Putzmeister, o que a transformará em líder mundial na fabricação de máquinas de mistura e bombeamento de concreto.

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Comprando a Putzsmeister alemã (na foto, uma das fábricas), os chineses levaram sua principal concorrente mundial na fabricação de máquinas de mistura e bombeamento de concreto (Foto: pmsolid.com)

O avanço chinês não se dá, porém, sem preocupação. Vastos setores europeus, embora bendigam a vinda de investimentos, preocupam-se com a influência que a China pretende obviamente obter sobre a Europa com seu poderio econômico – sendo, como é, uma ditadura que não respeita os direitos humanos, adota práticas comerciais predatórias e, por meio de empresas que recebem financiamentos e subsídios estatais de todo tipo, tendem a concorrer deslealmente com empresas europeias no futuro.

Nesse sentido, dirigentes políticos, analistas e outros meios já lamentam que a Europa venha se calando em relação ao aumento da repressão chinesa aos dissidentes, diferentemente do que ocorre com os Estados Unidos, que dependem cada vez mais da China no comércio e na colocação de seus títulos públicos, mas não deixaram, por exemplo, de conceder asilo ao advogado e militante dos direitos humanos Chen Guangcheng.

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Nenhum comentário

Hattori Hanzo em 27 de julho de 2012

Beleza, a Europa será totalmete falsificada. Com a miniaturizaram com qualidade os Japão se tornou uma grande potencia econômica, já os chineses estão se tornando grandes falsificadores. Sinal dos tempos de calhordice?

Luiz Pereira em 26 de julho de 2012

Setti, Há algun s anos, a investidores árabes tentaram comprar um porto no Texas. Os EUA brecaram. Administrar um porto significa deixar entrar em um país o que quiser, ou não - fechar os olhos para qq coisa, ou não. Esses gregos são doidos! abs

J.R.Monteiro em 26 de julho de 2012

Curioso que um pais, dito comunista, esteja participando da privatização das joias do socialismo europeu. Se vivo fosse, Marx estaria muito confuso. Estaria a China usando o capitalismo para capitalizar o socialismo?

Marco em 26 de julho de 2012

Dom Setti: Minha dúvida sobre o crescimento da China, se é espontâneo ou deliberado. Se for a 1 alternativa, aí não tem problema, agora se for a 2, acho q aí pode gerar muita complexidade confusão politica e moderação. Abs.

nei Brasil cada vez melhor... em 26 de julho de 2012

Bom artigo. Eu não compro mais nada da China!

tonio cunha em 26 de julho de 2012

Infelizmente o mundo aceita o regime chines sem questionar o abuso que comete com seus trabalhadores, que na verdade sao escravos. Os sindicatos do mundo todo criticam oas empresas e governos dos seus paises, porem nao fazem nenhum movimento para barrar esta invasao chinesa aos meios de produçao do resto do mundo. Todos sabem que na China nao existe democracia e que a repressao é grande, mas continuam a ver o comunismo como um processo da redençao da classe trabalhadora. é um grande equivoco, sabemos que hoje ja existem uma classe dirigente muito rica na China, sao donos de fabricas, empresas, etc. Certamente apos usarem todos os recursos do povo Chines, humano e financeiro, vao acabar com o regime comunista e se transformar em grandes capitalistas no resto do mundo. Se nao creem, vejam o que se deu na URSS, hoje os meios de produçao pertencem nao ao povo soviético, mas sim aos seus ex dirigentes. Em breve vamos ver estes simpatizantes do comunismo se lamentando dos seus amigos neo-capitalistas e ex dirigentes comunistas.

Douglas em 25 de julho de 2012

O que veremos em breve será a ditadura chinesa imposta ao mundo já que como é o dinheiro quem manda e os países ricos precisando se livrar da crise,a China ganhará mais força política sobre o mundo e impor seus modos sobre as nações.Logo o Brasil se vende a eles também daí estaremos escravizados.Eu, particularmente não gosto dessa ascensão econômica da China,pra mim não traz benefício nenhum para o Ocidente e agrava ainda mais a crise porque cada vez mais estaremos dependentes deles.O capitalismo chinês é o comunismo disfarçado de ovelha.

Angelo Losguardi em 25 de julho de 2012

Pois é... Os trouxas que reclamam do "imperialismo" americano vão ver o que é bom com o imperialismo chinês.

Creso em 25 de julho de 2012

Todos tem o apogeu e o declinio. Foi assim com arabes,romanos,japoneses.

bereta em 25 de julho de 2012

Ao ler o artigo, muito bem escrito, por sinal, veio-me a mente uma comparação entre chineses e árabes. Quanto tempo faz que os árabes se beneficiam da exploração e exportação do petróleo? Décadas! Onde se diz que investem maciçamente em educação? Sabemos pela imprensa ocidental que muitos deles estudam no ocidente ou, quem sabe, até mesmo tenham universidades evoluídas. Em compensação, faz poucos anos que a China saiu das mãos de Mão Tse Tung e deu um salto vertiginoso rumo ao desenvolvimento. Ambas as culturas são milenares, tanto a cultura ábabe quando a cultura chinesa. Se somarmos a população árabe, pouco difere da população chinesa. Segundo a imprensa, um bilhão para um bilhão e trezentos milhões de seres. Porém os árabes enriqueceram primeiro. Os chineses se tornam ricos agora. Ideologias de lado, os árabes também mantem ideologia teísta, tendo Alá e o Corão como pedra fundamental. Daí o termo fundamentalista. Os chineses, que para muitos são ateístas, cuidam mais das coisas práticas, mas cultuam deuses pouco divulgados no ocidente. Outro dia li que mais de cem mil chineses fazem doutorado em escolas ocidentais. É assustador. Agora, vendo suas aquisições junto ao continente europeu, lembrei-me da frase atribuida a Napoleão Bonaparte:- Não despertem a China. A China é um gigante que dorme! Era um gigante a dormir. Hoje é um gigante que trabalha, mesmo sob o tacão de dirigentes ditos comunistas. Como manter uma população confinada em grandes centros sem um regime severo? Já fui boiadeiro e sei que o estalo do chicote amedronta o a boiada a ponto de acovardá-la. E o toque dolente do berrante a acalma. Então, chicote e promessas de bem estar, mas com a contrapartida de aceitação do regime e muito trabalho mal remunerado. É o que diz a imprensa ocidenta. Não conheço nenhum país árabe como não conheço a China. O que leio é o que todos lêem. Se houver alguém que se disponha discorrer sobre o assunto com o conhecimento que não possuo, creio que seja um tema bastante interessante. Comportamento árabe e comportamento chinês.

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