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Diane Wei Liang: quatro décadas de uma China que o mundo ainda conhece pouco (Foto: Kim Manresa/La Vanguardia)

Enquanto a China ocupa mais e mais espaço nas notícias por seu aparentemente infinito potencial de expansão econômica, continuam também pipocando na imprensa relatos sórdidos a respeito da atualidade do país, bem como dos sinistros períodos que a antecederam e ajudam a compreendê-la, entre os quais a macabra década de Revolução Cultural Maoísta (1966-1976).

Em recente entrevista concedida ao jornal espanhol La Vanguardia, a escritora e professora de administração de empresas Diane Wei Liang, nascida em Pequim há 45 anos e há 13 radicada em Londres, recapitula os absurdos que sua família enfrentou durante a época do comunismo, relembra o Massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989 – que testemunhou como estudante -, e critica aspectos tenebrosos desta “nova” China do século XXI: rica, poderosa e influente, mas ditatorial, opressora de liberdades, violadora de direitos humanos e abissalmente desigual.

Vivências de uma “ex-chinesa”

A escritora, que emigrou para os EUA em 1989 – onde viveu e trabalhou até a transferência para o Reino Unido -, hoje tem apenas as nacionalidades norte-americana e britânica. A lei chinesa não permitiu a Liang, que se especializou em romances policiais ambientados em Pequim (o último, seu terceiro, proibido no país), ter os três passaportes. No processo, adotou o nome “Diane” e até desistiu de falar sua língua materna, o mandarim, com os dois filhos que teve com o marido alemão.

Não se trata aqui de resumir as complexidades de uma nação – sobretudo a mais populosa do mundo – às experiências de uma pessoa. Mas cada item abordado por Diane é um tapa na cara. Confiram.

Sobre a pobreza durante o regime comunista:

“Dois quilos de laranja por ano. Era toda a fruta que recebíamos”.

Sobre a barbárie da chamada “Revolução Cultural”, que, entre outras coisas, obrigou seus pais, professores, a trabalharem como pedreiros no campo e depois em Xangai:

“Em cada um dos doze anos em que meu pai esteve em Xangai pedimos permissão para nos reunirmos, sem sucesso. Ou seja, cresci sem pai.” (…)

“Uma boa menina revolucionária deveria denunciar seus vizinhos. Aprendemos a não confiar em ninguém. Muitas mulheres tiveram que denunciar seus maridos para salvar os filhos, e depois ficavam sabendo que os maridos haviam sido assassinados. Tinham que optar entre as pessoas que amavam.”

Sobre os colossais danos ambientais causados há décadas pela China, que desde 2008 passou os EUA como país mais poluidor do mundo:

“O rio onde a gente tomava banho era totalmente contaminado pela fábricas da região”.

Sobre o massacre de 1989:

“Houve muitas prisões e execuções. Os que fugiram para as províncias, como eu, tiveram a sorte de escapar” (…)

“Os líderes estudantis carregaram o sentimento de culpa por toda a vida”.

Sobre as desigualdades da China moderna:

“Do lado do hotel cinco estrelas onde vi os convidados para um casamento chegarem em oito Ferraris, se amontoam favelas com pessoas que trabalham o dia todo mas sem permissão. Alguns estão na cidade há quinze anos e seus filhos não podem ir à escola”.

Sobre o machismo em plena China moderna:

“As cidades estão cheias de mulheres bem-sucedidas, mas continua se esperando que elas se submetam às exigências dos homens”.

Sobre o nepotismo e os favoritismos na sociedade chinesa:

“O essencial é quem você conhece ou como está conectado. Tudo se faz por meio desta lei: os negócios, a escola onde estudam seus filhos, o bairro em que você vive…”

Sobre o capitalismo selvagem chinês:

“Não há tempo para pensar em valores. Só para ganhar a vida. O dinheiro é idolatrado.”

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Think tank em 05 de outubro de 2011

Os fragmentos ai apresentados não separam os relatos ocorridos na corrupta era do Mao com a atual iniciado por Deng, caso a China tivesse dado continuidade ao mecanismo do Mao, ela não estaria ai para contar a sua versão e nem a China teria se tornado o terceiro país que mais patenteia bens intelectuais, desbancando todos os países europeus. Mesmo na era Mao, se o sistema só conseguia fornecer dois quilos de frutas por ano, o que a impedia de plantar frutas no quintal? Ou será que a doutrinação do Mao obscureciam qualquer iniciativa como acontece hoje com esses assentados da gangue dos MST que transformam os seus lotes em campinho “meia boca” de futebol ou matagal? “Não há tempo para pensar em valores. Só para ganhar a vida. O dinheiro é idolatrado.” Se realmente disse ou escreveu isso, apenas repete as ladainhas de seus similares, pois quem sabe, sabe que dinheiro é apenas mais um instrumento de transação e só otários afirmam que alguém o idolatra. O que tornou a China uma potência econômica foi a capacidade dos dirigentes em saber direcionar a energia dos chineses para produção de bens de consumo e bens de capital. Quem sabe a história do Silk Road, sabe como estes estavam avançados e o que os “sacoleiros” europeus e do oriente médio faziam percorrendo mais de 6 mil Km atrás da seda, cerâmica, etc. Ou acham que naquela época não existia dinheiro? O fato é que hoje o mundo vive o Silk Road II e nem percebeu. Hah, naquela época eles inventaram ábacos que faziam operações aritméticas em hexadecimal, o mesmo empregado nos computadores atuais.

Cristiano Flyer em 05 de outubro de 2011

E DIZEM QUE NO COMUNISMO O CAPITALISMO NÃO EXISTE... DE FATO, O CAPITALISMO É A GERAÇÃO DE RIQUEZA COM ÉTICA CRISTÃ. . O COMUNISMO É A TOMADA DE RIQUEZAS, A RETIRADA DO CRISTIANISMO E DO CONCEITO VERDADEIRO DE FAMÍLIA E O CONTROLE DA SOCIEDADE COMO CONDENADOS.

JCB/RJ em 04 de outubro de 2011

Até 1971 a China estava indo "De Mao a Piao", isto é, o sucessor aclamado pelo IX Congresso do Partido Comunista Chinês seria o camarada Lin Piao (ou Biao, como o Big Brother). Mas a desavença entre Piao e o "grande timoneiro" fez com que Piao tentasse escapar com a família para a União Soviética num jato Trident, mal abastecido e voando baixo para escapar do radar. Resultado: grande consumo de combustível=pane seca=voo baixo=nariz no morro! E ainda tem gente nessepaisz que chama esse facínora do Mao de guia genial dos povos...eu hein?

patricia m. em 04 de outubro de 2011

Os americanos derrotaram os nazistas. Foi so a partir do momento que os americanos entraram na guerra que a sorte de Hitler mudou de rumo. Os sovieticos fizeram a sua parte pelo leste, mas de forma alguma foram *essenciais* para a derrota de Hitler. As pessoas tendem a se lembrar apenas da guerra na Europa, mas houve a guerra no Pacifico e tambem no norte da Africa. . Mudando de assunto: espanta-me nao ver aqui os comentarios dos tradicionais esquerdistas do blog defendendo o camarada Mao.

Marco em 04 de outubro de 2011

Amigo Setti: Não tenho mais dúvida, o Bandarra é o maior pugilista do Blogue, até parece o Paulo Francis contra a tirania Marxista. Mas uma piadinha para descontrair, já q foi falado em laranja no texto, tu conhece aquela piada q a mulher foi consultar um ginecologista para evitar filhos e ouviu a receita: um copo de suco de laranja. " Antes ou depois" perguntou, ansiosa. " Em vez de " Respondeu o médico. Abs.

Angelo Losguardi em 04 de outubro de 2011

É exatamente isso o que o pt quer pro Brasil !

JCB/RJ em 03 de outubro de 2011

Olá Ricardo,também li e recomendo como o Reynaldo, "MAO: A história desconhecida" .Mas vale a pena ler também de Jung Chang "Cisnes Selvagens" É encontrado na Estante Virtual com este comentário: Nosso desconhecimento da China é tão vasto quanto as dimensões desse país, onde vive nada menos que um quarto da humanidade. Neste livro, Jung Chang resgata a saga de sua família, que reflete as turbulências da história chinesa recente. O relato retrocede ao início do século XX, quando sua avó é oferecida como concubina a um poderoso militar. Depois acompanha a história da mãe da autora, que viveu a ocupação japonesa na Manchúria, o governo do Kuomintang, a queda de Chang Kai-chek, a guerra civil e a vitória de Mao.

Paulo Bento Bandarra em 03 de outubro de 2011

Ah! Também não foram os comunistas que lutaram, pois o povo não podia escolher entre alguém e Stalin ou o que o Politburo e o Soviete Supremo determinava. O povo da União Soviética não tinha direito de se manifestar. Uma mínima minoria era comunista, filiada ao partido. O resto era escravizado por ele. Até com um neurônio dá para saber disto. Filiados ao partido eram menos de dois milhões em 1939.

Paulo Bento Bandarra em 03 de outubro de 2011

Desculpe-me, mas quem tem dois neurônios? "os pracinhas da FEB que, aliados aos comunistas da União Soviética, derrotaram o Eixo nazifascista." Não, os Ingleses, os Americanos, os Franceses, Canadenses, etc., ou “os aliados”, que lutaram nos três continentes, que fizeram comboios para ajudar a URSS, foram que derrotaram os países do eixo. Stalin Lutou apenas contra a Alemanha, depois de alimentado o esforço de Guerra Alemão contra a Inglaterra e a França, foi traído e em defesa do seu território ou por conquista. Não esteve na Itália, no Norte da África, no Pacífico, no Japão, nas Aleutas, no Caribe! Os comunistas que receberam apoio dos aliados. A situação dos territórios tomados pela URSS ficou pior do que antes. Ou seja, não esteve nos quatro costados para derrotar o eixo. O Brasil não estava aliado aos comunistas, estava aliado aos americanos, que colocaram bases de vigilância no Atlântico, do qual receberam pedido para entrar em guerra, treinamento, equipamentos, apoio e comando. só um ignorante de quatro costados diria o contrário dos fatos conhecidos. Usávamos as jaquetas americanas para diferenciar a cor do uniforme alemão.

Reynaldo-BH em 03 de outubro de 2011

Setti, vale muito a leitura do livro "MAO: A história desconhecida" de Jung Chang (chinesa que também vive em Londres) e do marido, o inglês John Halliday. Um texto primoroso, denso e completo. Recomendo mesmo. Obrigado, caro Reynaldo. Dica anotada. Abração!

Paulo Bento Bandarra em 03 de outubro de 2011

Ora, chamar Golberi de só ser "contra os interesses do povo e da democracia", como fez Luiz Cláudio, e dizer que a FEB venceu o nazi-fascismo junto com os comunista, estes heróicos humanitários e que o golpe de 64 foi feito pela CIA, não fazem amantes da verdade. Você diz que concorda com tudo que ele escreveu neste e em outros textos. Quem era na verdade a "favor do povo e da democracia" era mesmo o camarada Mao que Jango foi render homenagens e aprender como se fazia reformas de base, que nesta época a China já tinha feito, na lei e na marra! Não foi uma pena mesmo, de se lamentar? Nós podendo ter um regime comandado por gente da estatura moral, que só pensam em democracia e o bem no povo, como Dilma, José Dirceu, José Genuíno, Diogenes de Oliveira, que vieram nos libertar e termos sido impedidos pelo Golberi! Pelo menos você lamenta isto! A ditabranda para impedir a "libertação" pelos comunistas. Como eu não acredito em Papai Noel para vir salvar a gente, dos males, prefiro os menores e os passageiros! Digam isto os colombianos sob o jugo das FARCs esperando o dia em que conquistarão a cidadania que lhes são negadas. E que nós temos. Não concordo com quase nada do que você escreve, mas, no caso do Luiz Cláudio, como no de outros jornalistas ou colabodores -- inclusive leitores -- cujos textos publico, eu não concordo com tudo, não. Apenas faz parte da proposta do blog, desde o começo, que as pessoas exponham pontos de vista distintos entre si e distintos dos meus. Isso é enriquecedor. É óbvio, para quem tem 2 neurônios e lê o blog, que não bato palmas para liberticidas como Mao ou criminosos como as Farc, como, aliás, não vi o Luiz Cláudio fazer. Mas só um ignorante de quatro costados negaria que a União Soviética, na época a maior potência comunista, foi essencial para derrotar o nazismo na II Guerra Mundial. Por mais abjeto que tenha sido Stalin, fatos são fatos.

Paulo Bento Bandarra em 03 de outubro de 2011

Bah! Como fui me esquecer de mencionar no artigo do Luiz Cláudio Cunha esta conquista comunista, a inesquecível Revolução Cultural Maoísta (1966-1976)? Quanto não inspirou nossos estudantes de 68 para realizar as mesmas conquistas humanitária que emanava de lá, resumidas no Livro Vermelho do Camarada Mao! Em 61 a situação do povo não era melhor, quando Jango foi lá, como Vice-Presidente do Brasil, dar apoio ao regime do povo! . Em 1967 Che tenta formar um grupo para derrubar a democracia na Bolívia, e em 1968 ocorre a Primavera de Praga com Alexander Dubcek, na Tchecoslováquia libertada pelos comunistas junto com a FEB, que é esmagada pelos tanques Russos. . Quanta coisa a CIA inventa que ocorria no mundo! Esta turma da CIA é do mal mesmo, como o Golberi, bem que o Luiz Cláudio Cunha e o Setti tem razão! Qualquer leitor do blog sabe que sou um perigoso comunista, não é mesmo, Paulo? Que sou antiamericano, não é mesmo? Isto não é nenhuma novidade. Um comunista que defende privatizações, inclusive da Petrobras, a independência do Banco Central e por aí vai...

elizabeth the best em 03 de outubro de 2011

É. Dois kilos de laranjas para o povo né? Os grandes mandatários e suas familias não deviam ter restrições. Não adianta. Seja na Russia ou em qualquer outro lugar o regime comunista sempre foi diferenciado. Lendo sobre Stalin se tem a idéia exata de como moravam os membros do politburo. E como morava o povo. Pai, afasta de mim este cálice. A menos que eu seja daz elitez comunistaz, é claro. De prefrencia com passaporte diplomático.

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