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Manifestantes bloqueiam um carro de polícia em Madri durante greve geral

Os números ainda não são claros nem definitivos, mas as duas principais centrais sindicais da Espanha anunciam uma adesão de 70% dos trabalhadores à greve geral que decretaram contra a reforma das leis trabalhistas proposta pelo governo do primeiro-ministro socialista José Luis Rodriguez Zapatero.

A reforma chega até a Previdência, propondo a elevação da idade de aposentadoria de 65 para 67 anos, e é parte dos remédios amargos que a Espanha precisa tragar para sair do buraco em que se meteu em decorrência da grande crise mundial de 2008.

Foi a Grécia que esteve no núcleo do olho do furacão que recentemente quase arrastou a Europa inteira para a catástrofe. Resgatada pelos parceiros europeus em troca de exigências draconianas, é uma incógnita se conseguirá reerguer-se, em meio a um mar de protestos sociais. Mas o peão que não podia cair nesse tabuleiro era, mesmo, a Espanha, cujo Produto Nacional Bruto (PIB), de 1,2 trilhão de dólares, é o triplo do da Grécia.

E relatório recente da Comissão Européia – espécie de Poder Executivo da União Européia — permite entender o que aconteceu, afinal, com a economia até então muito próspera do ex-“tigre espanhol”.

MENOS IMPOSTOS E MAIS GASTOS — É simples: durante um largo período – de 1995 até 2007, pelo menos – a Espanha surfou no delírio, baixando drasticamente impostos e aumentando generosamente os gastos públicos.

Isso levou ao estado atual – a ingente necessidade de baixar o buraco dos abismais 11% do PIB no ano passado a menos de 3% em 2013, aumentos de impostos, que já começaram pelo IVA (espécie de ICMS), cortes de despesas sociais, mexidas na Previdência Social e outras maldades que arremessaram os índices de aprovação de Zapatero ao chão.

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José Luis Rodriguez Zapatero e José Maria Aznar

O quadro começou a se esboçar em 1995, ainda no governo do socialista Felipe González, atravessou o período do conservador José Maria Aznar, do Partido Popular (1998- 2006) e continuou dois anos pela administração Zapatero adentro. “Os 75% de aumento na arrecadação de impostos registrada na Espanha entre 1995 e 2006 era de natureza transitória”, diz o documento, e vinculado a um boom insustentável a longo prazo do mercado imobiliário .

ESPCULAÇÃO IMOBILIÁRIA, A VILÃ — O vilão da história acabou sendo, mesmo, o vórtice especulativo do mercado imobiliário. Se hoje, no pós-crise, constróem-se apenas 80 mil unidades residenciais por ano no país, no auge da especulação, em 2006, o número se aproximou de 700 mil. Gente da Europa inteira, sobretudo da Europa do norte, passou a investir em imóveis na Espanha, sobretudo em seu esplêndido litoral.

Assim, a grande arrecadação de impostos indiretos propiciada pelo crescimento desenfreado do setor imobiliário – e a vertiginosa escalada dos preços da habitação – conduziram diferentes governos a promover baixas de impostos, inclusive o imposto de renda, a “superestimar” a capacidade de arrecadação eo Estado e a uma “incorreta avaliação da situação tributária”, aponta o informe.

Aumentos em alguns impostos indiretos, como sobre combustíveis e cigarros, “não foram amplos o suficiente para compensar a redução de ingressos decorrente da baixa dos impostos diretos”.

De fato. Para estimular o crescimento do mercado de imóveis, o governo instituiu uma dedução fiscal para quem comprasse casas ou apartamentos novos. O estímulo, por sua vez, aumentou a demanda por novos imóveis – e os preços subiram. Simultaneamente, aumentou o endividamente das famílias, em detrimento de investimentos em áreas mais produtivas.

EXPORTAÇÕES MAIS CARAS — Para completar o quadro de desgraças, a fragilidade econômica e orçamentária da Espanha se viu agravada por uma perda de competividade devida a vários fatores: 1) aumento da inflação; 2) aumentos salariais superiores aos ocorridos nos demais países da zona do euro; 3) produtividade cada vez pior, acentuada pela especialização do país em setores de baixa ou média tecnologia, como turismo e construção.

O aumento do custo da mão-de-obra e o menor crescimento da produtividade equivaleram a um encarecimento das exportações espanholas em cerca de 10%, calcula a Comissão Européia.

UM “CHEQUE-BEBÊ” DE 2.500 EUROS — A volta dos socialistas ao governo, no começo de 2004, significou – sem que se percebesse então – um agravamento do quadro, pois de lá para cá aumentaram em 52% os gastos sociais, com o aumento das pensões, do salário mínimo, a aprovação da Lei da Dependência – que prevê gastos de 12 bilhões de euros até 2015 no auxílio a pessoas com dependência física pequena, média ou grande para suas atividades diárias –, o permiso paternidad (15 dias de licença no emprego para o trabalhador que tiver um filho) e, enfim, o chamado “cheque-bebê”, um auxílio direto, em dinheiro, de 2.500 euros para cada mãe que tivesse filho.

Este benefício já foi cortado em julho passado.

PRAZO PARA SERMOS ALEMÃES E FRANCESES” — “Deram-nos três anos de prazo”, ironizou recentemente o colunista Josep Oliver Alonso, catedrático de economia da Universidade Autônoma de Barcelona, no prestigioso jornal El Periódico, “para por a casa em ordem e mostrar a alemães e franceses que estamos dispostos a mudar. Que deixaremos de ser algo menos latinos e que nos comportaremos, cada vez mais, como centro-europeus. Que abandonaremos um tanto nosso catolicismo castiço para nos tornar algo mais calvinistas”.

Ele próprio concluiu, porém, que para repor a Espanha nos trilhos seria necessário um improvável pacto nacional e “uma liderança clara, que seja capaz ded dizer ao país que nos aguarda sangue, suor e lágrimas, mas que, mais além desse doloroso futuro imediato, se fizermos bem as coisas, o sol voltará a nos sorrir”.

Resta saber como, e com quem.

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7 Comentários

Sueli em 04 de outubro de 2010

Faço das palavras do Ismael as minhas. Bem se o caminho foi esse o Brasil esta em marcha acelerada para a mesma chegada, sem poupança,custo brasil alto e aumentando, benesses paliativas como bolsa familia, redução de jornada, ampliação de licenças como maternidade e outras a fundo perdido, com juros,impostos e serviços no limte, tenho receio que estamos a caminho.

Ismael em 03 de outubro de 2010

Bem se o caminho foi esse o B4rasil esta em marcha acelerada para a mesma chegada, sem poupança,custo brasil alto e aumentando, benesses paliativas como bolsa familia, redução de jornada, ampliação de licenças como maternidade e outras a fundo perdido, com juros,impostos e serviços no limte, tenho receio que estamos a caminho.

Marcos Aarão Reis em 01 de outubro de 2010

A "moral calvinista" exige que gregos e espanhóis se ajoelhem e em penitência paguem aquilo que compraram sem ter como. Certo, mas compraram de quem? Da Alemanha. E se não tinham, nem têm, pra pagar, o FMI empresta. A troco daquela política que foi aplicada com tanto êxito na América Latina. [E ainda tem gente acreditando que a crise botou tudo isso abaixo. Pois sim!]

Marco em 29 de setembro de 2010

Caro R. Setti: O velho problema Keynesiano do " Credito ", hipotéca e Demanda Efetiva. Não se sustenta por muito Tempo. E aí não tem jeito só atacando o Consumo Improdutivo e os tais " Engenheiros Econômicos Desenvolvimentista " Abs.

celsoJ em 29 de setembro de 2010

Eis o que nos espera...

Camada von Ozonio em 29 de setembro de 2010

ESSES PRODUTORES DE AZEITE NÃO SE EMENDAM....

marcos moraes em 29 de setembro de 2010

A mesma bolha que aqui foi implantada, dizem, para segurar a tsunami, mas que eu desconfio que foi mesmo para eleger o "poste". MAM

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