A ESPIONAGEM A DILMA: ela não gosta, o governo não gosta, os cidadãos não gostam, eu também não. Mas é infantil achar que a presidente de um país como o Brasil não seja alvo de xeretagem por parte dos EUA

A ESPIONAGEM A DILMA: ela não gosta, o governo não gosta, os cidadãos não gostam, eu também não. Mas é infantil achar que a presidente de um país como o Brasil não seja alvo de xeretagem por parte dos EUA
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A sede da NSA em Fort Meade, Maryland, a 48 quilômetros de Washington: todo o complexo de prédios contém vários subsolos, e é revestido por uma camada de cobre para impedir escuta eletrônica (Foto: forbes.com)

Depois de ficar de cabelos em pé pé com as informações divulgadas no começo de julho pelo jornal O Globo segundo as quais a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) andou espionando o Brasil, agora chegou a vez do compreensível estardalhaço diante da reportagem do Fantástico de ontem segundo a qual a coisa chegou até o ponto de monitorarem o esquema de comunicações da presidente Dilma Rousseff.

Como cidadão brasileiro, é evidente que não gosto nem um pouco que o Brasil, seu governo, seus partidos políticos, suas empresas e/ou seus cidadãos sejam espionados por quem quer que seja. E é compreensível que o governo brasileiro esteja irritado, que o ministro da Justiça fale de algo “inadmissível”, que Brasília peça explicações a Washington ou reclame na ONU.

Para quem não sabe direito a diferença entre essa agência que espionou o Brasil e Dilma e outros órgãos de bislhotagem dos EUA, principalmente o mais famoso deles, a CIA, a NSA, diferentemente da CIA, é um órgão das Forças Armadas e é ligada diretamente ao Pentágono, o Departamento de Defesa. Dispondo de um gigantesco e sofisticado volume de equipamentos que vão de satélites em órbita até os mais avançados sistemas computadorizados de decifrar criptografia, seu objetivo é monitorar comunicações em todo o planeta,

Agora, pergunto aos amigos do blog, como já fiz anteriormente: vocês acham que só a NSA espiona o Brasil?

Vocês acham que, sendo o Brasil um grande país emergente — apesar da nossa tradicional bagunça e do desgoverno que nos aflige –, desfrutando da enorme importância estratégica que tem, não é espionado, por diferentes formas (eventualmente por espiões propriamente ditos), por governos como os da Rússia ou da China, ou mesmo de governos párias como o Irã dos aiatolás atômicos ou a ditadura dos irmãos Castro em Cuba? Ou, de alguma forma (não necessariamente espionagem militar, mas industrial, de patentes e outras), por países da União Europeia, como o Reino Unido, a França ou a Alemanha?

Como sabemos há séculos, países não têm amigos, têm interesses. Vejamos então por que o Brasil é um alvo “natural” — no mundo darealpolitik, não no mundo dos sonhos — de espionagem de quem quer que seja.

O país possui imensas riquezas naturais, conhecidas e também as ainda não totalmente mapeada por nós.

O país possui uma indústria de primeira linha, que perde em competitividade no mercado mundial não por falta de avanço tecnológico ou deficiência de gestão ou de mão de obra, mas pelo alto “custo Brasil”— o monstrengo da estrutura de impostos, a falta de infraestrutura (ferrovias, hidrovias, mais rodovias, portos, aeroportos), governo pesadão e burocrático que só atrapalha.

O Brasil exibe uma agroindústria de ponta em diferentes culturas — como a soja, ou a agroindústria sucro-alcooleira –, superando mesmo a de países como os Estados Unidos.

Como já lembrei anteriormente, temos, apesar de tudo, admiráveis centros de excelência em diferentes áreas — empresas, públicas ou privadas, como a Embraer, a Embrapa (alta e diversificada tecnologia agrícola), uma rede bancária superinformatizada, com eficiência superior à dos EUA e da maior parte dos países da Europa, entidades como o CPqD (ex-Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás, hoje uma fundação que desenvolve alta tecnologia no campo das comunicações), hospitais de renome internacional e institutos de pesquisas médicas avançadas, entidades como os Instituto Butantã e Biológico (de São Paulo) ou a Fundação Oswaldo Cruz (do Rio), o know-how da Petrobras em extrair petróleo em águas profundas, os conhecimentos na área de produtividade de soja, de aprimoramento genético do gado e de tecnologia de alimentos, sem excluir a área militar, com, por exemplo, o Centro de Instrução de Guerra na Selva (Sigs) do Exército, considerado o melhor do mundo em seu gênero etc etc.

O Brasil abriga uma sociedade inquieta, desigual e pulsante, cujos rumos políticos e sociais ninguém pode dizer que sabe quais serão.

O Brasil, entre outras regiões potencialmente explosivas — como lembrou meu amigo Caio Blinder, com a pertinência de sempre –, integra a Tríplice Fronteira, onde os Estados Unidos há tempos desconfiam de que há gente trabalhando para a rede terrorista Al Qaeda e para outros grupos terroristas que atuam no Oriente Médio, como o Hamas, na Faixa de Gaza, e o Hezbollah, no Líbano.

O Brasil, além de sua incompreensível ligação “especial” com Cuba desde que o lulopetismo chegou ao poder, já afagou o regime de trevas do Irã, e mantém relações extremamente amistosas — amistosas até demais, diria — com regimes “bolivarianos” hostis, de forma frontal, aos Estados Unidos, como os da Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e mesmo a Argentina kirchneriana.

Obter informações sobre tudo isso vale ouro puro para uma superpotência como os EUA. Tudo isso pode ser (e provavelmente, é) alvo de algum tipo de espionagem por parte de vários outros países — seja espionagem científica, tecnológica, comercial, industrial, econômica ou sócio-política. É produto de ingenuidade quase infantil imaginar que não, num mundo em que todos espionam todos — basta ver a chiadeira recente sobre a espionagem de Washington sobre seus sólidos aliados da União Europeia, no contexto das negociações para criar uma área de livre comércio entre as duas partes.

Tudo isso assentado, quem seria, no Brasil, a pessoa alvo principal de espionagem, dos EUA ou de quem sejam?

O governador do Amapá? O prefeito de Rio das Ostras (RJ) ou de Cambará (PR)?

O deputado Tiririca? Um vereador do PSOL? Algum dirigente sem-voto de partidecos como o PCO?

Claro que não. É irritante, pode até ser encarado como um ato hostil, mas é perfeitamente natural — do ponto de vista da superpotência americana — que o alvo seja a presidente Dilma.

Ela não gosta, o governo não gosta, muitos cidadãos não gostam, eu, como brasileiro, também não gosto.

Mas só uma mentalidade de jardim de infância se surpreenderia com a notícia.

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