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Mario Vargas Llosa com sua mulher Patrícia, em 1982 (foto: Carlos Namba)

O interesse dos leitores pelo recém-agraciado Prêmio Nobel de Literatura, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, me leva a publicar aqui um texto que escrevi em meados de 1986 como prefácio ao livro de minha autoria Conversas com Vargas Llosa, lançado em setembro daquele ano pela Editora Brasiliense.

Garanto que é interessante, apesar de muita água ter corrido de lá para cá na vida do grande escritor. Deixo o texto como está no livro, inclusive tratando a mim mesmo na terceira pessoa, já que não era assinado por ninguém.

Acho que vale a pena. Confiram:

UMA RELAÇÃO CHEIA DE SUSPEITA, PAIXÃO E FÚRIA COM O PERU — “Ele tem com seu país, o Peru, uma relação especialíssima – ‘mais adúltera do que conjugal, cheia de suspeita, paixão e fúria’, como ele próprio define.

Talvez por isso mesmo Mario Vargas Llosa, um dos mais aplaudidos e bem-sucedidos escritores contemporâneos, tenha construído quase toda a sua obra de ficcionista escrevendo, justamente, sobre o Peru – mas com tal universalidade que seus livros já foram traduzidos em mais de 30 idiomas, e são sucesso em países tão diferentes como a França, a Finlândia, o Brasil ou a China.

No Brasil, as onze de suas quinze obras aqui traduzidas já venderam perto de 600 mil exemplares – números respeitabilíssimos, que poucos autores brasileiros conseguem igualar.

SÓ CONHECEU O PAI AOS DEZ ANOS — Nascido em 1936 em Arequipa, no sul do Peru, Vargas Llosa viveu na Bolívia até os oito anos de idade e virtualmente só conheceu o próprio pai aos dez anos de idade, quando seus pais, separados, se reconciliaram.

Filho único de uma família de classe média com ramificações pela elite peruana — seu avô materno era primo-irmão de um presidente da República –, ele estudou num colégio militar (experiência marcante a ponto de lhe inspirar o primeiro romance, Batismo de Fogo) antes de seguir o caminho tradicional da Faculdade de Direito na antiquíssima Universidade de San Marcos, onde se formou numa profissão que nunca exerceria.

FLERTE COM O MARXISMO E BOLSA DE ESTUDOS NA ESPANHA — A faculdade, porém, serviu para iniciá-lo na militância política — foi ali que flertou com o marxismo, que depois abandonaria e hoje combate – e lhe abriu as portas para uma bolsa de estudos na Espanha.

No exterior, longe do que ele considera a ‘vertigem da realidade’ de seu país, Vargas Llosa pôde finalmente dedicar-se de fato à vocação que sentiu desde criança: a literatura.

Antes de obter a bolsa, casado precocemente aos vinte anos com uma tia por afinidade doze anos mais velha, ele chegara a ter sete diferentes empregos ao mesmo tempo para poder sobreviver. No exterior, viveria de 1958 a 1974 – basicamente em Barcelona, Paris e Londres, com temporadas em outros países, como os Estados Unidos e Porto Rico, para cursos e conferências.

CUBA: DO ENTUSIASMO À CRÍTICA — O regresso ao Peru se deu em 1974 — e Vargas Llosa mergulhou de cabeça em uma realidade explosiva. Tendo dado apoio a algumas das propostas de mudança feitas pelos militares promotores da “revolução peruana” (1968-1980), ele logo passou a crítico virulento da falta de liberdades públicas, da corrupção e da incompetência da ditadura.

Um entusiasta da revolução cubana desde seus primórdios, ele se decepcionou com o alinhamento da Havana à União Soviética, afastou-se do marxismo e passou a polemizar de tal forma com a esquerda radical peruana que hoje, segundo sua avaliação, seria linchado se entrasse na universidade onde se formou.

Esse clima de exasperação não tem impedido que Vargas Llosa desfrute dos resultados de seu trabalho. Ele vive com a segunda mulher, Patrícia, com quem está casado há vinte anos, e os três filhos numa enorme casa branca de dois andares, repleta de bons quadros e bons livros, decorada com esmero e dotada de piscina no elegante bairro de Barranco, em Lima, de onde se descortina o azul do Oceano Pacífico e em cuja garagem reluzem um automóvel BMW e um Toyota.

A MAIS LONGA ENTREVISTA — É ali o quartel-general onde Vargas Llosa escreve e de onde decola para todo tipo de expedições profissionais – atividades tão diversas como presidir o Pen Clube Internacional (1976-1979), a maior organização mundial de escritores, pronunciar conferências na Holanda ou na Inglaterra ou ser jurado do Festival de Cinema de Berlim.

Foi ali, também, durante três dias, e depois do regresso do escritor de mais umas de suas frequentes temporadas em Londres, onde mantém um apartamento, que transcorreu a conversa com o jornalista Ricardo A. Setti que deu origem a este livro.

Setti fora enviado a Lima para uma entrevista com Vargas Llosa para a edição de maio de 1986 da revista Playboy que, por intermédio de seu editor de redação, Mario Escobar de Andrade, gentilmente cedeu os direitos sobre a íntegra do trabalho. Ao final, Vargas Llosa disse que se tratou da entrevista mais longa que já concedera.

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6 Comentários

Frederico Hochreiter/BH em 12 de outubro de 2010

Ricardo, não sei se você costuma ler a Piauí. O número 49, nas bancas, traz um artigo sobre "O Louco de Palestra", aquele tipo que interrompe debates, palestras, conferências, com palpites meio fora de propósito. Permito-me reproduzir um trecho, se não leu: "Conta-se que, durante uma reunião da esquerda latino-americana em Paris, na época das ditaduras militares, um louco de palestra investiu contra o escritor Mario Vargas Llosa. Da platéia, um barbudão levantou e vociferou: "Mientras Obregón se moria en la selva por el pueblo peruano, tu,que hacias? O público silenciou. Sem se abalar, Vargas Llosa respondeu que dava aulas de literatura espanhola numa universidade. E devolveu a pergunta: Y tu, que hacias? Yo tenia la hepatitis, disse o barbudão. A propósito, encontrei seu livro num sebo de BH. E a preço muito convidativo: R$15,00. Ainda não li mas, pelo que folheei, não é absolutamente datado. Olá, Frederico. Sim, costumo ler a "piauí". Sou assinante desde o lançamçento, tenho grandes amigos trabalhando lá. Mas ainda não li esse texto pelo jeito muito interessante que você menciona. Vou dar uma olhada, até porque amanhã, na Editora Abril, serei o apresentador de uma palestra que o Vargas Llosa vai proferir lá. Um abraço.

sinisorsa em 12 de outubro de 2010

Ele foi casado com uma tia 12 anos mais velha?? Peraí, isso me lembra o personagem central de La Tía Julia... a novela é uma autobiografia?? Minha frase favorita escrita pelo escritor boliviano ensandecido: "soy argentino. Soy un hdp!" :P Caro amigo, uma parte considerável da obra de Vargas Llosa lança mão de dados de sua própria vida, mesclados com criação literária. Na vida real, ele foi casado não com uma tia propriamente, mas com a irmã da mulher de seu tio, este sim, tio mesmo, irmão da mãe, da família Llosa. Você reparou que o personagem prinicipal de "Tia Júlia" se chama Varguitas? Pois era como os amigos o chamavam. Como você sabe, nos países de tradição hispânica, excetuada a Argentina (e, talvez, o Uruguai, não estou certo), o sobrenome paterno vem no meio, e o materno, no final do nome. Assim, Vargas era o nome de família do pai dele, e Llosa o da mãe. Abraços, volte sempre.

Isabel em 11 de outubro de 2010

Deus, na sua infinita sabedoria, nos fez humanamente imperfeitos. Pelos Cem Anos de Solidão García Marquez está perdoado. Pena que ele não tenha tido a percepção de Vargas Llosa e tantos outros que saltaram do bonde que os levariam ao Arquipélago Gulag. Não entendo como intelectuais possam apoiar regimes que 'forçaram' (e continuarão 'forçando')escritores a isto: "DEDICO este livro a todos quantos a vida não chegou para o relatar. Que eles me perdoem não ter visto tudo, não ter recordado tudo, não me ter apercebido de tudo." Aleksandr Solzhenitsyn

Gregorio em 11 de outubro de 2010

Um intelectual que venceu a IDIOTICE marxista, socialista, comunista. Um exemplo a ser seguido. Esquerdista leiam e aprendam , vençam sua idiotice, ninguém é obrigado a permanecer idiota, sempre existe uma oportunidade de vence-la.

amauri em 11 de outubro de 2010

Boa tarde Ricardo! Entrei em alguns sites de esquerda e na busca coloquei Mario Vargas Llosa e não achei nada. Porque? Afinal de contas é um premio Nobel de Literatura. Acho que você sabe a resposta, Amauri. A esquerda radical hoje age como o general fascista diante do filósofo Unamuno, na Guerra Civil Espanhola (1936-1939): "Viva a força, morte à inteligência!"

Marco em 11 de outubro de 2010

Caro R. Setti: Não li sobre o escritor,mas tive uma excelente impressão dele, numa entrevista para o Canal futura. Ele salientou muito Euclides da Cunha, q é uma boa referência. O escritor assim como o Jornalista não pode só ter fé na inspiração mas também no trabalho q dá de ordenar,examinar,modificar,aprovar e reprovar. Abs.

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