Artigo de 2005: maior mediocridade desde 1890

Artigo de 2005: maior mediocridade desde 1890 Severino Cavalcanti em 2005, quando ocupava a Presidência da Câmara (Foto: Eduardo Knapp - Folha Imagem)

E ainda: patrulha sobre o portunhol de Luxemburgo, Fidel dá rum valiosíssimo a petistas, os novos livros de Kotscho e Morais, a ridícula ditadura de Havelange, o líder haitiano baleado em Nova Iguaçu e o pepino da Previdência paulistana

………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Já se escreveu e disse praticamente tudo sobre o recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE) – sua militância em prol de direitos e vantagens dos deputados acima de tudo, seu moralismo intransigente em questões como o direito da mulher ao aborto e as reivindicações dos cidadãos homossexuais, suas investidas contra a liberdade de informação sob o pretexto de “proteger a sociedade” dos efeitos de determinados programas de televisão, seu limitado currículo parlamentar, suas desavenças com o vernáculo e por aí vai.

Talvez por pudor, porém, repórteres e comentaristas políticos deixaram de dizer, com todas as letras, que Cavalcanti é certamente o parlamentar mais medíocre e apagado a ocupar o posto em muito tempo – provavelmente desde a instalação, em 1890, do Congresso Constituinte que viria a elaborar a primeira Constituição da República, a de 1891.

Mediocridade consistente, sólida, marmórea: não há vestígio, nos 40 longos anos de vida política do novo presidente da Câmara, de qualquer realização ligada a políticas públicas minimamente relevantes.
 
Severino no Planalto

A acachapante, histórica derrota do governo e do PT na eleição para a Presidência da Câmara ainda não é tudo.

Se o presidente Lula for coerente com o que dizia durante a campanha eleitoral de 1998 – quando criticou o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) por não se licenciar do posto para concorrer à reeleição, como havia feito, em São Paulo, o governador tucano Mário Covas – e se, como se supõe, o vice-presidente José Alencar candidatar-se ao governo de Minas Gerais, Severino Cavalcanti, na condição de presidente da Câmara e terceiro homem na hierarquia do poder federal, será o presidente da República por alguns meses em 2006.

A cobertura e o tsunami

Comentando a eleição de Cavalcanti em “O Estado de S. Paulo”, o jornalista Marcos Sá Corrêa lembrou que a cobertura política no Brasil, instalada intencionalmente nas primeiras páginas como um ato de resistência à falta de notícias parlamentares durante o regime militar (1964-1985), entrou pela democracia afora e acabou sendo “uma patente mundial do jornalismo brasileiro”: ela “supera em tamanho os acontecimentos que a povoam”.

Tem toda razão. A avassaladora, quase delirante cobertura conferida pela mídia à eleição de Cavalcanti foi muito maior, em volume e estridência, do que o espaço dedicado ao maremoto que matou 300 mil pessoas na Ásia.

Patrulha

Por falar na imprensa, quando é que nós, jornalistas, vamos parar de patrulhar o castelhano que o técnico do Real Madrid, Vanderlei Luxemburgo, fala ou não fala?

Fidel presenteia Lula com rum especialíssimo

O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que recentemente passou alguns dias em Cuba, foi portador de um presente do presidente Lula para o ditador cubano Fidel Castro: duas caixas (48 latas) de guaraná Antarctica – metade normal, metade diet.

Fidel retribuiu em grande estilo, com um litro de um rum cubano envelhecido por mais de 50 anos e especialíssimo ainda por outro motivo. Segundo contou a Dirceu durante um jantar no Palácio da Revolução, em Havana, o rum é oriundo de uma barrica de 250 litros “expropriada” pelo grupo de guerrilheiros que Fidel reuniu em 1953 para tentar tomar um quartel do Exército do ditador Fulgencio Batista. O assalto ao Quartel Moncada fracassou, Fidel terminou na cadeia mas a ação marcou o primeiro movimento da revolução que triunfaria em janeiro de 1959.

Nas vésperas do ataque ao quartel, o grupo decidiu assaltar uma fábrica do rum Bacardi em busca de dinheiro para financiar suas ações. Acabou levando também a barrica, aparentemente da reserva especial da família então proprietária da marca. A barrica permaneceu escondida por anos. Depois da derrubada de Batista, passou a ser mantida em depósitos oficiais. Em 2003, ano em que o cinqüentenário do assalto ao Quartel Moncada seria comemorado na data nacional cubana, 26 de julho, Fidel decidiu dividir o conteúdo da barrica entre os 10 sobreviventes da operação.

A cada um coube 25 litros do rum, divididos em garrafas de 1 litro, luxuoso vidro grosso, com rótulo e lacre especiais, cada uma delas armazenada numa caixa de madeira, com tampo de vidro e chave.

Dirceu também ganhou uma de Fidel.

Fashion news

Volta e meia Fidel Castro abandona o uniforme militar quando recebe visitas que considera íntimas. No jantar com Dirceu, ele estava vestido de cima a baixo com produtos Adidas: agasalho esportivo – calças e casaco – e tênis pretos da marca.

Isso é que é prioridade

Já que se fala de Cuba, vale o comentário: bela prioridade, essa, de o Itamaraty mandar construir uma nova sede para a embaixada brasileira em Havana, não?

Kotscho desistiu do título de seu livro

O jornalista Ricardo Kotscho, ex-secretário de Imprensa do presidente Lula, acaba de desistir do excelente título “Antes que eu me esqueça” para suas memórias profissionais, que escreve para a editora Companhia das Letras.

Kotscho recebeu correspondência de um poeta que comprovou ter publicado nos anos 70 um livro com título idêntico, registrado na Biblioteca Nacional. Embora seja juridicamente defensável a existência de um título idêntico para livros de conteúdos diferentes, o jornalista decidiu pensar em outro.

Montanhas de material

O contrato de Kostcho com a Companhia das Letras previu um adiantamento em dinheiro sobre os direitos autorais e um pagamento mensal por 12 meses, prazo em que o livro deverá estar concluído para o lançamento coincidir com a comemoração de seus 40 anos de jornalismo.

A editora designou dois profissionais para trabalhar com o ex-secretário de Imprensa. Kostcho se diz aliviado com a colaboração, diante da enorme massa de material que armazenou e que inclui, além de suas reportagens publicadas, montanhas de cadernos de anotações.

Uma antologia

Simultaneamente ao lançamento das memórias de Ricardo Kotscho, a Companhia das Letras programa lançar uma antologia de suas melhores reportagens.

O Haiti é aqui

A notícia passou meio batida, mas é o cúmulo da ironia: enquanto seu país está esfacelado, sem serviços públicos, sem governo e sem Estado, com a ordem precariamente mantida por forças militares da ONU, o adido militar do Haiti no Brasil, Jean Sorel Wendel Claude, é baleado… em Nova Iguaçu (RJ).

A ironia adicional é que, ao ser ferido durante um assalto, Claude se dirigia, com o embaixador Madsen Pherubin, ao Centro de Direitos Humanos da Cidade. Eles estavam acompanhados de um padre, Pierre Roy, que atua na entidade.

Havelange e Kim Il-Sung

Essa história de João Havelange figurar nos novos estatutos da CBF como patrono da entidade “em caráter único e permanente” lembra o delírio da Coréia do Norte, onde o ditador comunista Kim Il-Sung, morto há onze anos, até hoje é formal e oficialmente o presidente da República, embora o país seja governado por seu filho, Kim Jong-Il – aquele doidivanas de cabelos espetados que acaba de anunciar que de fato tem a bomba atômica.

Dida e os puxões de orelha

A coluna agradece os puxões de orelhas recebidos dos leitores Marcos Costa Melo e Miguel Flaksman a respeito da nota “A marca de Dida”, publicada na edição anterior (3 de fevereiro). Na nota, afirmava-se que, se o goleiro Dida atuasse contra a equipe de futebol de Hong Kong no dia 9 passado, completaria 73 jogos pela seleção brasileira, ultrapassaria o número de vezes que Branco defendeu a camisa amarela e estaria somente a duas partidas de igualar a marca do grande Nilton Santos.

O problema é que, conforme lembraram os leitores, para a partida em que o Brasil viria a golear Hong Kong por 7 a 1 o técnico Parreira não convocou Dida, mas Júlio César e Gomes.

Ronaldinho x Leônidas

Com seu belo gol contra Hong Kong, Ronaldinho Gaúcho chegou a 21 marcados em partidas oficiais da seleção, superou as marcas de Roberto Dinamite e Didi e se igualou a ninguém menos do que Leônidas da Silva.

Embora Hong Kong não seja um país, mas parte integrante da China desde que deixou a condição de colônia britânica e passou à soberania de Pequim, em 1997, continua mantendo um status especial em relação às demais províncias chinesas. Esse status inclui ter, perante a FIFA, sua própria seleção de futebol. Dessa forma, o jogo Brasil x Hong Kong foi oficial.

E o Banestado?

Por falar em futebol, seria ótimo se a Polícia Federal, o Ministério do Trabalho e outras autoridades que investigam as atividades da nebulosa empresa parceira do Corinthians, a MSI, e seu chefe, o investidor iraniano-britânico Kia Joobrachian, tivessem a mesma sede inquisitória em casos notoriamente cabeludos como os revolvidos pela CPI do Banestado.

O caso Banestado importou na remessa, em grande parte ilegal, de 30 bilhões de dólares para o exterior, e até agora ficou por isso mesmo.

A inviável Previdência paulistana

É um absurdo colocar como uma questão de “economia de 200 milhões de reais por ano” a inglória batalha que o prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), enfrentará nas próximas semanas para realizar a reforma da Previdência municipal.

Trata-se de parte da herança amarga recebida por Serra da ex-prefeita Marta Suplicy (PT), que prometeu realizar a reforma mas não mexeu uma palha a respeito. O que o novo prefeito pretende não é “economizar” dinheiro, como fazem supor políticos de oposição e mesmo alguns órgãos de imprensa. Trata-se apenas de tornar minimamente viável, de acordo com critérios atuariais elementares, uma Previdência que, pelo ritmo atual, tornará impossível governar a cidade no futuro.

Mal cobre um terço do gasto

A Previdência devora 1,6 bilhão de reais por ano dos cofres municipais, para pagar cerca de 70 mil aposentadorias e pensões de funcionários. Os 5% do salário mensal recolhidos por servidores ativos e inativos mal cobrem um terço do gasto. Serra pretende elevar o percentual dos ativos para entre 11% e 14% mensais e, seguindo as linhas da Previdência federal, isentar aposentados e pensionistas que recebam até 10 salários mínimos.

Números relevantes

Enquanto metade dos 58 mil quilômetros das rodovias federais são apontados como intransitáveis pelo próprio governo e a maior parte dos restantes está em mau estado, a malha viária de São Paulo é a melhor do país, com 59,4% de seus 32.700 quilômetros de estradas classificadas como “ótimas”, conforme levantamento da Confederação Nacional dos Transportes (CNT).

Números irrelevantes

O Palácio da Alvorada, ora em obras de restauro, tem um total de 1,1 mil metros quadrados de cômodos acarpetados.

Inquérito e corporativismo

O corporativismo do Judiciário ressurge a pleno vapor para proteger o desembargador Mauro Campello, presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Roraima, objeto de um inquérito da Polícia Federal para apurar suposta roubalheira de dinheiro público.

Como parte das irregularidades investigadas, a esposa e a sogra do desembargador foram detidas por ordem judicial, após denúncias de funcionários e de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça Federal terem indicado que ambas se beneficiavam de uma maracutaia pela qual servidores nomeados para cargos de confiança no tribunal depositavam, como pagamento do favor, parte de seus salários nas contas de ambas.

Mesmo com as investigações em curso – e, portanto, sendo uma hipótese plausível a comprovação da prática de crime por parte do desembargador Campello –, o Colégio de Presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais já divulgou nota falando em tomar medidas “visando a restauração moral” do magistrado.

Acreditem

Sim, leitores, existe no Brasil um Colégio de Presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais.

O nacionalismo e a Varig

Vários argumentos técnicos estiveram entre os esgrimidos pelo vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, para convencer o presidente Lula a não vetar o artigo que permitiria a busca de uma solução para a Varig pelo esquema de recuperação judicial previsto na nova Lei de Falências.

Segundo uma autoridade do governo que esteve envolvida nas discussões, no entanto, acima das razões técnicas acabou prevalecendo o discurso nacionalista e emocional de Alencar sobre o significado simbólico da Varig para o país e sua imagem. Foram derrotados na discussão o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Perguntar não ofende

O que será que a China tem a oferecer ao secretário Nilmário Miranda, que começa neste sábado, 19, uma visita oficial a um dos países mais totalitários do mundo para “troca de experiências” na área dos direitos humanos?

Morais viaja com Paulo Coelho

O jornalista Fernando Morais começa em abril a trabalhar na biografia do escritor Paulo Coelho, que a editora Planeta vai publicar em 2006. A primeira etapa do trabalho consistirá em várias sessões de entrevista na casa de Coelho na cidadezinha francesa de Tarbes, nos Pirineus.

De lá, Morais acompanha o escritor num trajeto internacional que inclui Budapeste e Paris, onde Coelho lança seu próximo livro – “O Zahir” –, o Cairo, onde o escritor fará uma palestra, e Barcelona, palco de reuniões na agência literária que cuida de seus interesses. Dali, Coelho volta para Tarbes e Morais segue para o Rio, onde mergulhará nos arquivos que o escritor mantém em seu apartamento carioca.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 × 4 =