Amigos do blog, este “Dicas de Leitura” é atemporal. Coisas boas ou importantes, publicadas em qualquer época, poderão frequentar este espaço.

É o caso desta matéria. Publicado originalmente por VEJA, na edição 1450, em 26 de junho de 1996, na seção Esporte, este perfil de Michael Jordan, o maior jogador de basquete da história, é uma pérola do jornalismo. E, apesar de não estar assinado, o estilo da então editora especial Dorrit Harazim é inconfundível. Separei este texto para o deleite dos amigos do blog. Seu título original é “A marca da pantera”.

Boa leitura.

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Língua de fora, Jordan avança sobre o adversário: fome de pontos e de dólares

Uma pantera de 1,98 metro de altura e 95 quilos avança para cima do adversário. A língua à mostra revela seu apetite voraz. Com a bola que quica como se fosse um obediente ioiô, ele vai deixando para trás um, dois, três adversários. E então chega o momento de dar o bote. O corpo lustroso alonga-se, esticando os músculos ao limite, e em apenas dois passos das pernas enormes cobre uma distância de 7 metros para chegar próximo à cesta. A essa altura, os pivôs já sabem que a batalha está perdida. São mais 2 pontos na carreira de Michael Jordan.

Essa foi a rotina no campeonato americano de basquete que terminou no último dia 16 [de junho de 1996], em que o superastro levou seu time, o Chicago Bulls, a conquistar o quarto título de sua história. Além de campeão, Jordan foi eleito, aos 33 anos, pela quarta vez o melhor jogador da liga profissional de basquete americana, a NBA. Um lourozinho a mais na coroa do maior jogador de basquete de todos os tempos e provavelmente o mais excepcional atleta em atividade no planeta.

A festa no vestiário do Bulls, depois da vitória sobre o Seattle Supersonics, foi um final previsível para o maior torneio já realizado pela NBA. Pela primeira vez, a rinha incluiu a participação de dois times canadenses, abrindo caminho para a internacionalização do campeonato que é acompanhado por 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo. Ao todo, foram 1.189 jogos, em que pelejaram 422 jogadores. Ginásios lotados, direitos de transmissão vendidos a preço de ouro, o faturamento da NBA também foi um xuá: superou a casa dos 3 bilhões de dólares. Para esse sucesso, foi fundamental a volta de Jordan às quadras. Numa decisão inesperada, ele abandonou o basquete em 1993 para dedicar-se ao beisebol. Sem Jordan, o campeonato não teria a mesma emoção — nem tantas verdinhas contabilizadas.

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MIchael Jordan: campeoníssimo e inigualável na arte de fazer cestas

Além de ser uma máquina de fazer cestas, o jogador é uma caixa registradora fora das quadras. Para atuar pelo Bulls na última temporada, ele recebeu 3,9 milhões de dólares de salário anual. Entre propaganda e patrocínios, Jordan faturou mais 40 milhões de dólares. Hoje, ele é o atleta mais rico do mundo, com uma fortuna de 170 milhões de dólares — 100 milhões maior do que a de Pelé, que conseguiu amealhar um patrimônio calculado em 70 milhões de dólares.

Dá para entender por que o mundo perdeu um medíocre jogador de beisebol. Quando anunciou que retornaria ao basquete, o jogador provocou rebuliço até mesmo no mercado financeiro americano. Em quinze dias, as ações das empresas que usam a sua imagem viram-se valorizadas em 3,8 bilhões de dólares. Na volta, atendendo a um desejo do pai, trocou a camiseta 23 pela 45. Nas primeiras partidas da temporada, as lojas dos ginásios vendiam uma camiseta com o novo número a cada três minutos. No meio do campeonato, porém, Jordan tornou a usar a 23. A decisão foi tomada por causa de uma provocação: um adversário afirmou que Jordan não usava o antigo número porque já não era mais o mesmo.

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Fera incomparável

Essa foi uma ladainha repetida por muitos comentaristas ao longo do campeonato — que ele havia perdido seu instinto matador, que sucumbiria diante de novos talentos, como Shaquille O’Neal, do Orlando Magics, que teria perdido o fôlego e a impulsão. Bobagem. As estatísticas da NBA mostram que Jordan continua uma fera incomparável (veja quadro). Apesar de tanta grana e de tantos atributos, ele tem conseguido manter a cabeça relativamente no lugar. Evita o exibicionismo alucinado e já recusou cachês de 250 000 dólares para participar de uma singela tarde de autógrafos.

Há quatro anos, manchetes estampadas nas páginas policiais revelaram seu único vício até agora conhecido. Um homem assassinado trazia no bolso um cheque de 108 000 dólares assinado pelo astro em pagamento a dívidas de jogo. Jordan nega, mas dizem alguns comentaristas esportivos que a fera do Bulls chega a apostar 10 000 dólares por buraco durante suas partidas de golfe, seu principal passatempo.

Pai assassinado e choro inconsolável

Casado há sete anos com Juanita Vanoy, com quem teve um filho e de quem assumiu outro, Jordan parece até um chefe de família normal, um milagre em se tratando dos grandes esportistas americanos. Seu encontro com o lado cruel do destino aconteceu em 1993: o pai de Jordan foi assassinado por dois adolescentes que lhe roubaram o carro.

Depois da derradeira partida contra o Seattle, o jogador chorou copiosamente no vestiário, agarrado à bola. Era o Dia dos Pais nos Estados Unidos e Jordan perdera o seu, a quem dedicou a vitória.

“Tenho o melhor emprego da América. Boto tênis, jogo durante duas horas e ganho uma fortuna”, costuma dizer o jogador. Sem contrato desde o final da temporada, ele já disse que não volta às quadras por menos de 18 milhões de dólares anuais, apenas em salário direto. Jordantambém não esconde que já recebeu propostas milionárias de outras equipes. “Se ele quiser jogar com a gente eu lhe dou um cheque em branco e o cargo de técnico”, chegou a dizer Jon Spoelstra, presidente do New Jersey Nets.

Cada vez mais espectadores

A escalada de cifrões de Jordan é a ponta do iceberg em que o basquete se transformou na última década. Há quinze anos, os jogadores da NBA eram vistos como uma turma de viciados em drogas que se divertiam espancando as próprias mulheres. Em 1982, a liga faturou minguados 10 milhões de dólares, metade do dinheiro movimentado pelo basquete brasileiro no ano passado. Em meados da década passada, a virada começou a se desenhar fora das quadras. Os cartolas correram atrás de patrocinadores, elevaram os patamares dos salários e transformaram desconhecidos em ídolos nacionais.

O negócio prosperou, atraindo mais e mais espectadores a cada ano. Hoje, gente famosa como o bilionário da informática Bill Gates e a supermodelo Cindy Crawford pagam até 3 000 dólares por um ingresso para assistir às finais ao vivo. Recentemente, três filmes inspirados no basquete foram lançados nos Estados Unidos, o mais popular trazendo Whoopi Goldberg no papel de treinadora do New York Knicks.

Doses cavalares de adrenalina

O que hipnotiza no campeonato da NBA são as doses cavalares de adrenalina que cada jogo produz tanto nos atletas como nos torcedores. As partidas da liga dão mais liberdade de contato físico aos jogadores, sem que incorram em faltas, e por isso os atletas têm de ser ainda mais habilidosos para se desvencilhar dos adversários. Além disso, cada equipe tem seis segundos a menos de posse de bola do que num jogo normal, o que força uma rapidez maior na finalização das jogadas, e a linha de 3 pontos fica 1 metro mais distante da cesta, exigindo pontaria extra dos jogadores.

Tudo isso protagonizado por astros selecionados entre 300 equipes de universidades que se engalfinham em campeonatos amadores disputadíssimos. “O basquete da NBA é um dos esportes mais plásticos e dinâmicos do mundo. Por isso tem tanta repercussão”, gaba-se David Stern, o dirigente da liga.

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Streetball: a modalidade que surgiu nas ruas americanas já reúne 7000 trios no Brasil

A transmissão das partidas da NBA criou uma legião de espectadores fiéis no Brasil e ajudou a aumentar o número de praticantes do esporte. Nos últimos cinco anos, o número de jogadores inscritos na Confederação Brasileira de Basquete cresceu 20%. “Estamos dando a volta por cima”, diz o jogador Oscar Schmidt. O basquete americano impulsionou também a prática do streetball, uma modalidade inspirada nos jogos que os meninos americanos disputam nos becos das grandes cidades.

Sem normas rígidas, o streetball é uma disputa entre dois trios de jogadores, em torno de uma única tabela. Atualmente, 7 000 trios, em sete capitais, disputam um animado campeonato em busca da classificação para um torneio internacional que acontecerá, em setembro, em Budapeste.

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8 Comentários

carlos nascimento em 01 de setembro de 2011

Temos no planeta dois mitos do esporte, ainda vivos, Pelé e Jordan, gênios, um do futebol e outro do basquete, o rei do futebol ainda consegui assistir ao vivo, era digamos assim, quase irreal, a força fisica e mental impressionava, os adversários pareciam nanicos, diante da superioridade majestosa. Michael Jordan, apenas pelo tubo de imagem, uma grande frustação, quantos play offs assistidos no sofá, ficava completamente extasiado, diante daquele ser que as vezes dava a sensação de levitar, pura adrenalina. Pelé tornou-se cidadão do mundo, viajando por vários Países, buscando contribuir com ações humanitárias, incentivando jovens e crianças a praticarem o futebol, aliviando um pouco a probeza dos Países Africanos e outros menos desenvolvidos, lamento que Jordan tenha se fechado e ficado restrito ao território americano, êle deveria seguir o mesmo caminho do Rei do futebol, viajar pelo mundo incentivando os menos favorecidos e divulgando o basquete como vida e ação, acredito que êle ainda possa realizar isso de alguma forma. Como ninguém é perfeito, uma pequena ressalva, que diacho fez com que Michael se aventurasse no beisebol ? ainda bem que êle parou à tempo. Pelé e Jordan, MITOS ETERNOS.

Melo cavalcante em 29 de agosto de 2011

"Depois da derradeira partida contra o Seattle, o jogador chorou copiosamente no vestiário, agarrado à bola. Era o Dia dos Pais nos Estados Unidos e Jordan perdera o seu, a quem dedicou a vitória." Assiti ao jogo, foi como fosse a noite do Super Bowl Que legal, Melo! Eu não tive a felicidade de ver esse colosso ao vivo. Parabéns. Deve ser inesquecível, mesmo. Um abração

Butchmo em 22 de agosto de 2011

Caro Butchmo, obrigado por suas boas palavras a meu respeito. Mas talvez você não conheça as regras do blog, e o fato é que não publico críticas a VEJA por dois motivos: 1) por razões éticas, acredito que as críticas à revista devam ser dirigidas a seu diretor de Redação, pelo email veja@abri.com.br; 2) não sou "a revista VEJA". Sou um colunista independente que escreve no site da revista VEJA. Se você não conhece as regras do blog, por favor vá ao link link http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tema-livre/amigos-depois-de-mais-de-8-meses-de-blog-e-40-mil-comentarios-nao-havera-mais-asteriscos-comentarios-com-linguagem-inconveniente-serao-deletados-vejam-minhas-razoes-e-as-regras-para-comentarios/ Obrigado e um abração

Marco em 21 de agosto de 2011

Amigo Setti: Só um serviço de utilidade pública para com seus leitores, quando for a uma borracharia, verifiquem se na troca do pneu furado, realmente apertaram bem os parafusos. Mesmo q o serviço seja feita por máquinas.E se quando estiverem ouvindo um barulho na roda, parem o carro e apertem os parafusos da roda. O q aconteceu com minha esposa, pensei q fosse um acaso. Mas acabei me informando q isso acontece bastante, pelo próprio serviço de guincho e pelos vizinhos. Abs.

Marco em 21 de agosto de 2011

Amigo Setti: Pelo q observei da seleção sub 20, tem dois jogadores prontos para seleção, q agora a CBF vai aliviar, para consangrar, deitar e rolar o Ganso e Neymar, com amistosos fracos contra Gana e etc... São o Oscar e o Casemiro. O resto vão ter q esperar. Abs.

Marco em 21 de agosto de 2011

Amigo Setti: Desculpe o adiantado da hora, mas não posso deixar de anunciar: " ANNUNTIO VOBIS GRAUDIUM MAGNUM ; """"" HABEMUS PAPAM """""""""""" ! É O GAROTO OSCAR. Se não me engano só Zagallo em 58, fez três gols numa decisão de mundial. Peço desculpas a Daniel Setti, quando disse q ele era do mesmo nível do Riquelme, errei feio, ELE É MUITO MELHOR !!!!!!!!!!!!!!!!!!! PS: Estou sob forte emoção. Minha esposa foi levar a prima dela do Canadá, para conhecer Gramado, E tu não vai acreditar q na volta na BR 116, o pneu solta e graças a Deus. só tivemos prejuízo material. Agora tenho certeza, como dizia João Paulo II; O papa tbm é gaúcho !!!!!!!!! Abração.

maria em 20 de agosto de 2011

Maravilhoso texto, parabéns por tê-lo publicado!

Marco em 20 de agosto de 2011

Amigo Setti: Vou te confessar uma coisa, Voley e basquete, eu só gosto de assistir os últimos minutos, não o jogo inteiro. Mas se não me engano é dele a famosa frase usada pelos treinadores, quando o Jogo se torna decisivo ou desafiante : " É melhor tirar as crianças da sala " ! Abs. Ps; Meu amigo te prepara aí, o frio daqui deve já estar subindo para aí. Agora 9 graus.

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