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O rei Abdullah, 89 anos, após os funerais do príncipe herdeiro Nayef, seu irmão, de 79 anos: em 9 meses, morreram dois herdeiros da gerontocracia saudita

Desde os funerais do príncipe herdeiro Nayef, em Meca, na Arábia Saudita, domingo, o novo príncipe herdeiro da monarquia absolutista do país – na verdade, uma ditadura sanguinária, violadora dos direitos humanos e corrupta – é, por designação do rei Abdullah, o príncipe Salman.

Essa história de “príncipe herdeiro” nada tem de conto de fadas de Walt Disney: na Arábia Saudita, onde há nada menos do que 25 mil príncipes – você leu certo, são 25 MIL –, os príncipes herdeiros são, todos, anciãos. Tanto é que Salman já é o terceiro que o velho rei, no trono desde 2005 e a caminho dos 90 anos, designa, sendo que os dois príncipes anteriores morreram nos últimos 9 meses: Sultan em outubro passado, aos 81 anos, e Nayef, 79, no sábado, 16.

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O príncipes Nayef, 79 anos, morreu no sábado passado; seu antecessor como herdeiro, Sultan, em outubro de 2011, aos 81 anos (Fotos: Al Jazira)

Para não fugir à escrita, o novo príncipe herdeiro fará 77 anos em dezembro.

Todos eles são irmãos, filhos do mesmo pai – o rei Abdul-Aziz bin Abdul Rahman bin Faisal bin Turki bin Abdullah bin Muhammad bin Saud, ou, simplificadamente, Ibn Saud – e de 22 mães diferentes, que deram à luz, segundo se estima, entre 37 e 40 herdeiros do fundador da dinastia. Todos, independentemente da idade, exibem sempre bigodes, sobrancelhas e/ou cavaques negros como as asas da graúna.

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O novo herdeiro, príncipe Salman: 77 anos em dezembro (Foto: guardian.co.uk)

Ibn Saud, mediante longos anos de guerras de conquista contra pequenos emirados da península saudita, acabou unificando o reino num país a que deu seu próprio nome, em 1932 — o que dá medida dos direitos que têm os cidadãos sauditas –, e governou até morrer, em 1953. Pelas regras que estabeleceu, seus filhos o foram sucedendo por ordem de idade. As rivalidades entre filhos de diferentes mães já fazem parte da história da Arábia Saudita, e este foi um dos fatores que levaram a que o rei Saud (1953-1964) fosse derrubado por um de seus próprios irmãos, Faisal.

Esse rei governou por 11 anos e foi um importante líder do mundo árabe, destacando-se, entre outras coisas, por sua atuação na Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP). Era considerado um “modernizador” para os padrões sauditas – como primeiro-ministro, acabou com a escravidão, ainda vigente na Arábia Saudida em pleno 1962, e sob protestos gerais, no mesmo ano introduziu a televisão no país — e morreu assassinado por um sobrinho, num confuso episódio de vingança que o reino nunca fez questão de esclarecer fora dos estritos limites da corte.

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Espetacular e moderníssimo conjunto hoteleiro a poucos metros da Grande Mesquita de Meca, o local mais sagrado do islamismo (Foto: Reuters)

Desde a morte do fundador da dinastia, cinco de seus filhos assumiram o trono, e a designação de mais um sucessor próximo dos 80 anos mostra a incapacidade do rei ou da família de praticar a inevitável mudança de geração, o que torna fictício o lugar-comum em que muitos crêem no Ocidente sobre a “estabilidade” da Arábia Saudita.

O país não tem instituições seculares, 60% de seus 27 milhões de habitantes são jovens de menos de 20 anos, não existem liberdades públicas, o radicalismo islâmico se alastra, apesar da repressão policial – não é mero acaso, como se sabe, que a Al Qaeda tenha raízes sauditas – e, cedo ou tarde, uma “primavera árabe” atravessará suas fronteiras.

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Mulheres sauditas em Riad, a capital: cobertas de joias, mas sem poder mostrar o rosto em público ou dirigir automóveis (Foto: Reuters)

Nele, coexistem modernidades extraordinárias, como cidades repletas de superedifícios inteligentes dotados da tecnologia mais cara e avançada que existe, com a privação de direitos elementares, como a liberdade de pensamento e expressão, o direito de voto ou o direito à sindicalização. As mulheres têm menos direitos do que os homens, e mesmo as pertencentes à elite miliardária do país devem andar cobertas em público, acompanhadas de alguém da família, não podem exercer a maioria das profissões e sequer dirigir automóveis sozinhas.

“Se a Arábia Saudita fosse uma amável monarquia de opereta ou instalada em um parque temático”, publicou em um editorial o jornal madrilenho El País, “seria irrelevante seu caráter geriátrico ou a possibilidade de um vazio de poder”. Mas lembrou: “Sucede, porém, que o reino saudita, aliado privilegiado dos Estados Unidos e assentado sobre um mar de petróleo, é o epicentro político e confessional de uma região vulcânica e em constante mutação, para cuja configuração contribui com seus ilimitados recursos econômicos e seu gasto massivo em armas”.

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Tico Tico em 23 de junho de 2012

A tecnologia, a ciência nos seu diversos ramos, e as mulheres, mais dia menos dia, gradualmente darão uma nova visão de valores a estes malucos, e a outros também do ramo (no deseto há três). Cada ramo, é à sua maneira, uma impostura de fantasias as mais absurdas. Estimo poucos séculos para isso ocorrer. Abs. Setti.

ANTHONY KUDSI RODRIGUES em 23 de junho de 2012

O que me "soa estranho", é os EUA nunca se incomodarem com esta ditadura monarquista absoluta, além de sanguinária e corrupta, que não faz parte do "programa de democracia para o oriente médio" dos EUA, e assim até hoje "PROTEGIDA" pelos EUA e Europa; lá a primavera democrática árabe só vai acontecer quando o "Sargento Garcia prender o Zorro", e porque? , por um motivo muito simples: ELES SÃO ALIADOS INCONDICIONAIS DOS "CÍNICOS" EUA E EUROPA, cujos ditadores para eles são só Saddam Hussein e Ahmadinejad.

Tuco em 21 de junho de 2012

. Constrangedor o regime por lá, não é mesmo? Que coisa, hein? Questão de cultura - diriam os pouco preocupados em "abrir o pacote"... Aqui, um País modernoso, é bem diferente. Mas não muito... Eu, por exemplo, não posso utilizar-me do MEU telefone celular dentro de uma agência bancária - sequer na que eu mantenho uma conta. Essa agência sabe mais da minha vida do que eu mesmo, porém paira sobre mim (e todos os demais "frequentadores") a dúvida: será ele um ladrão? Estará à espreita de algum cidadão desavisado, que retire um bolinho de dinheiro, para rapiná-lo? Sabe como é, na dúvida, somos todos ladrões! Você também, Grande RSetti, ao voltar da Espanha tome cuidado: na capital de SP você é um ladrão em potencial - em todas as agências bancárias! De fato, aqui é bem diferente desse País que ilustra o tópico. .

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