Artigo de 2005: A traição do vereador e a fidelidade partidária

Artigo de 2005: A traição do vereador e a fidelidade partidária Roberto Trípoli (esq.) e José Serra (Foto: domínio público)

E mais: festa malufista na Câmara dos Vereadores, vida fácil para um chefão do tráfico, aumento de transplantes de órgãos pelo SUS, o gêmeo do “Sucatão”, o “trabalhão” de Itamar, Lula e a “hereança maldita” e o toro bravo espanhol

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A facada nas costas que o vereador paulistano Roberto Trípoli assestou no prefeito José Serra (PSDB) menos de duas horas depois de sua investidura no comando da maior cidade do país, no dia 1º, escancarou com dramaticidade o tamanho do problema político que é a falta de exigência de fidelidade partidária para os detentores de mandato.

Como se sabe, de olho na caneta de presidente da Câmara Municipal, nos cargos, nas verbas de gabinete e no poder de negociação fisiológico da Casa, na hora H Trípoli não hesitou em se aliar aos adversários para ser eleito, derrotando o candidato escolhido por seu próprio partido e apoiado pelo prefeito, Ricardo Montoro.

Vereador em quinto mandato e militante tucano há dez anos, Trípoli obteve 57.405 votos nas eleições de outubro – o oitavo mais votado entre 55 eleitos – fazendo a campanha de Serra à Prefeitura e colando sua imagem à do prefeito. É irmão de um tucano de destaque no Estado, o deputado estadual Ricardo Trípoli – que integrou o secretariado do prefeito Mário Covas (1983-1985), do governador Mário Covas (1995-2001) e do governador Geraldo Alckmin e presidiu a Assembléia Legislativa entre 1995 e 1997 com apoio de Covas, hoje uma espécie de santo laico do tucanato. Costumava também alardear admiração pelo ex-presidente Fernando Henrique.

Para se aliar ao PT e ao bloco que apoiava a ex-prefeita Marta Suplicy e ganhar a presidência, ele se dispôs sem hesitação a sair do PSDB – como se os 57.405 paulistanos que votaram nele como candidato tucano não merecessem a menor satisfação e como se o mandato pertencesse a ele, e a ninguém mais.

Quem está mais furioso

É difícil saber quem está mais furioso com a competente manobra petista que envolveu Trípoli – se Serra, a quem o novo presidente da Câmara, conciliador, promete “ajudar”, ou se o presidente Lula, que apoiava a articulação pró-Ricardo Montoro em São Paulo por temor de os tucanos retaliarem contra o candidato do Palácio do Planalto à Presidência da Câmara dos Deputados, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP).

Articuladores desarticulados

Não há como não debitar boa parcela da derrota do prefeito José Serra a seus dois principais articuladores políticos: os deputados licenciados Aloysio Nunes Ferreira, secretário de Governo, e Walter Feldman, secretário das Subprefeituras.

Políticos experientes – sobretudo Aloysio, ex-deputado estadual, ex-vice-governador (1991-1995), ex-ministro da Justiça e ex-secretário-geral da Presidência da República durante o governo FHC –, os dois tucanos federais levaram uma rasteira de matreiros oposicionistas municipais.

Cabrito na horta

A oposição a Serra não apenas derrotou o candidato do prefeito, mas fez a festa: o novo corregedor da Câmara – encarregado de zelar pela ética da instituição – é o vereador Wadih Mutran (PP), velho malufista que se destacou por integrar a tropa de choque que impediu a decretação do “impeachment” do prefeito Celso Pitta (1997-2001) por corrupção.

Mutran ainda apareceu como firme combatente contra a CPI da Máfia da Propina, instituída na Câmara durante o mandato de Pitta para investigar atividades de extorsão contra comerciantes que envolviam autoridades do Executivo e vereadores.

Moleza para bandidos

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, precisa colocar urgentemente em sua agenda de mudanças destinadas a melhorar a segurança pública o fim da moleza que a legislação e certos juízes conferem a bandidos perigosos.

Veja-se o caso do criminoso Eduíno Eustáquio de Araújo Filho, o “Dudu”, chefe do tráfico de drogas no Morro do Vidigal, no Rio, cuja prisão ocupou as manchetes de jornais neste começo de ano.

Condenado a 30 anos de cadeia por tráfico de drogas e homicídio – crimes gravíssimos –, Dudu, por inacreditável que pareça, cumpria pena em regime semi-aberto. Não só isso: desfrutava de tais privilégios que, mesmo com essa folha corrida hedionda, conseguiu em janeiro do ano passado o benefício de deixar a prisão para visitar a família.

Não voltou para o xilindró e, já em abril, empreendeu uma guerra para controlar a droga na Rocinha que resultou em pelo menos 20 mortes. Cinco das pessoas mortas foram esquartejadas.

Quem avisa…

Gente que conhece o plenário, os corredores e os gabinetes da Câmara dos Deputados adverte: o Palácio do Planalto pode levar uma senhora lambada se não encarar com seriedade a possível candidatura “avulsa” à presidência da Câmara do deputado Virgílio Guimarães (PT-MG).

Números relevantes

Foram realizados 9.058 transplantes de órgãos no Brasil pelo SUS até o final de outubro passado, um aumento de 27% mais em relação ao mesmo período do ano passado, o que torna o país um dos campeões mundiais nesse terreno.

Há no Brasil, porém, 62,5 mil pessoas na fila à espera de algum órgão ou tecido.

Números irrelevantes

Comporta 56 passageiros, fora a tripulação, o novo avião comprado pelo governo para atender à Presidência – o Airbus Corporate Jetliner –, a ser entregue pelo fabricante europeu à Força Aérea Brasileira (FAB) ainda este mês.

O gêmeo do Sucatão e as vítimas do tsunami

O avião KC-137 de prefixo FAB-02 da Força Aérea Brasileira que levou para a Tailândia o primeiro carregamento de ajuda humanitária do país às nações da Ásia atingidas pelo fenômeno do tsunami no dia 26 de dezembro é irmão gêmeo do “Sucatão” que o presidente Lula está preterindo em favor de seu novo avião.

KC-137 é o nome da versão militar dos velhos Boeing 707. O FAB-02, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), costumava servir ao então vice-presidente Marco Maciel até FHC decidir que as viagens oficiais de ambos seriam feitas por aviões mais modernos da TAM, empresa vencedora de licitação feita pelo governo.

Grêmio rebaixado é o primeirão

O futebol é o terreno por excelência das ironias. Basta ver a situação do Grêmio: recém-rebaixado para a Segundona, o time gaúcho é, não obstante, o primeirão no ranking oficial de clubes da CBF, tendo em vista os resultados alcançados até hoje.

O 2º melhor é o Corinthians, seguido pelo Vasco.

Xarás no Planalto

Um se chama José Alencar, trabalha no Palácio do Planalto e não é o vice-presidente da República. O nome do outro é Ruy Mesquita, igualmente bate ponto no Planalto e nada tem a ver com o diretor do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Ambos são ajudantes-de-ordens do presidente Lula: o coronel José Alencar e o major Ruy Mesquita.

Cabeças-de-tomate

Os integrantes da Força Nacional de Segurança Pública, criada em agosto pelo Ministério da Justiça para ajudar os governos estaduais a combater crises na área, têm uma boina vermelha como parte do uniforme.

Os bem mais velhos podem ter feito alguma associação com a antiga e temida Polícia Especial da ditadura Vargas, que usavam quepes vermelhos e eram apelidados pelo povo de “cabeças-de-tomate”.

Mas a FNS, composta por policiais militares de elite de diferentes Estados com treinamento e equipamentos especiais, é do bem. Sua primeira intervenção, que ocorreu entre novembro e dezembro em Vitória (ES) após uma onda de atentados a ônibus, teve um saldo positivo segundo o governo do Espírito Santo.

Trabalhão

O ex-presidente Itamar Franco entregou ao chanceler Celso Amorim um relatório sobre suas atividades à frente da embaixada do Brasil em Roma, que ocupa desde maio do ano passado.

Como, de lá para cá, Itamar fez várias viagens ao Brasil para longas temporadas e, em Roma, especializou-se em receber autoridades brasileiras em viagem oficial à Itália, além de jogadores que atuam no futebol italiano, quantas páginas será que o relatório contém?

Saia justa

Um ex-presidente embaixador é, por definição, uma saia justa para qualquer governo. Imaginem para o chanceler Celso Amorim, no caso de Itamar: ele foi ministro das Relações Exteriores durante a Presidência Itamar (1992-1995). Hoje, portanto, chefia seu ex-chefe.

O check-up do Conselhão

O ministro Jacques Wagner, secretário do Conselho de Desenvolvimento Político e Social, pediu aos integrantes do órgão uma avaliação dos seus dois anos de atividade. Poderia aproveitar e também solicitar ao presidente Lula a mesma coisa.

O presidente teve a excelente idéia de criar o chamado “Conselhão”, composto por empresários, sindicalistas, profissionais liberais e outros integrantes da sociedade civil, para funcionar como um fórum de idéias e um centro de debates sobre políticas públicas. Mas nada que o Conselho sugere consegue emplacar no governo, e muitos de seus membros começaram a cabular as reuniões.

De volta à Câmara

A eleição do deputado Gilberto Cassab (PFL) para vice-prefeito de São Paulo e a convocação dos deputados Walter Feldman e Aloysio Nunes Ferreira (ambos do PSDB-SP) e José Aristodemo Pinotti (PFL-SP) para o secretariado do prefeito José Serra abriram vagas na Câmara para quatro importantes quadros tucanos castigados pelas regras em vigor sobre votação proporcional.

São eles o ex-deputado Paulo Kobayashi, o economista Walter Barelli, ex-ministro do Trabalho no governo Itamar Franco e ex-secretário da mesma pasta do falecido governador Mário Covas, o agrônomo Xico Graziano, ex-presidente do Incra, ex-chefe de gabinete do presidente no governo FHC e ex-deputado por dois mandatos, e o ex-deputado Silvio Torres, relator da CPI da CBF/Nike, em 2001 e inimigo jurado do presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

O PSDB e o PFL paulistas concorreram coligados à Câmara em 2002.

Quem tem mais voto, perde

Kobayashi, apesar de impressionantes 109.442 votos obtidos em 2002, ficou como primeiro suplente da coligação PSDB-PFL. A Barelli, com igualmente sonoros 105.995 votos, coube a segunda suplência. A Graziano, com seus 102.235, tocou a terceira, e a Torres, com 101.509, a quarta. Em compensação, as complicadas regras eleitorais permitiram que 16 candidatos de outros partidos com menos votos que os quatro fossem eleitos.

Perguntar não ofende

Diante dos incontáveis improvisos do presidente Lula, haverá no Palácio do Planalto funcionário mais ocioso – ou frustrado – do que o redator dos discursos presidenciais?

Língua queimada

Por falar nos improvisos, Lula mostrou memória curta quando, rejeitando qualquer renegociação da dívida das prefeituras para com a União – assunto levantado por alguns novos prefeitos diante do desastre de caixa que encontraram – disse a interlocutores:

– Não me queixei do caixa que recebi.

Ué? E de onde terá vindo a “herança maldita”?

A silhueta do toro bravo

Leitores generosos o suficiente para lerem esta coluna e também os artigos do signatário querem detalhes sobre a “silhueta negra de um toro bravo que é praticamente um símbolo nacional na Espanha”, mencionada no artigo “O touro, o burro e o nacionalismo catalão”, de 30 de dezembro. (Se quiser ler, clique no nome do autor à esquerda e, depois, à direita no título mencionado).

Os leitores são Wanda Poniatowski, de Florianópolis (SC), João Paulo Rossellini, de São Paulo (SP) e Mário Rosa Neves, de Uberlândia (MG).

A história começou em 1956, quando a casa Osborne, tradicional vinícola espanhola fundada no século XVIII por um emigrante britânico, encomendou uma campanha publicitária para promover um de seus produtos. O carro-chefe da campanha era uma silhueta negra de um toro bravo típico – cabeça levantada, ar altivo e desafiador – transformada em outdoor. Em pouco tempo, 500 painéis pontilhavam rodovias (carreteras) e o protagonista das touradas foi incorporado à paisagem espanhola.

Em 1988, uma Ley de Carreteras aprovada pelo Parlamento determinou a retirada de todo tipo de publicidade das rodovias, em nome, entre outros aspectos, da preservação da paisagem. A casa Osborne, porém, recorreu à Justiça, com grande apoio em vários setores da opinião pública. E argumentou que a silhueta simples, sem nome de marca – como já vinha sendo utilizada na ocasião – não constituía propaganda, mas uma expressão artística e “um elemento da cultura tradicional espanhola”.

O caso rolou por diversas instâncias e acabou chegando ao Tribunal Supremo que, em 1997, aceitou a tese da empresa. Pouco depois, o governo da Andaluzia decretou o toro como parte integrante do patrimônio histórico da região.

Atualmente, há cerca de uma centena de outdoors com a silhueta do toro bravo espalhados pelas estradas espanholas – exceto na Catalunha.

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