“Um país que tem um salário mínimo de 50 dólares por mês realmente é um negócio muito sério”.

Não é qualquer multimilionário que diria essas palavras, mas foi o caso de Abilio Diniz, então no comando da maior rede brasileira de supermercados, o Grupo Pãode Açúcar, empresário poderoso e influente na política e na vida do país.

Isso ocorreu ao longo do programa Roda Viva da TV Cultura de 21 de setembro de 1987, quando ainda se fumava nos estúdios de televisão (reparem no cigarro aceso de um dos jornalistas). Então no comando da sucursal paulista do Jornal do Brasil, participei da bancada em companhia de Guilherme Velloso (Exame), Rick Turner (correspondente da revista britânica The Economist), Gustavo Correia de Camargo (Relatório Reservado), Jorge Escosteguy (IstoÉ), Tonico Ferreira (TV Cultura), Adriano Campos (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e o finado Alberto Tamer (então em O Estado de S. Paulo e na Jovem Pan). A apresentação foi de meu amigo Augusto Nunes.

Abilio respondeu a pergunta minha sobre a falta de apoio do PMDB ao então ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-diretor do Pão de Açúcar e um de seus melhores amigos, que então parecia isolado politicamente no governo. “Não acho que haja uma solidão tão grande”, disse. “O apoio vai depender do sucesso ou do insucesso na parte externa, na parte interna, fundamentalmente na parte de inflação. Ele não pode terminar de sair deste congelamento [havia congelamento de preços em vigor] com uma inflação muito alta, e neste ponto ele está conseguindo”.

Ainda como parte da resposta, Abilio disse que “nós, no Brasil, não temos condições de suportar o pagamento de juros que está sendo programado. Mesmo no plano macroeconômico do Bresser”.

Em outro trecho do programa, o entrevistado elogiou a política econômica do amigo. “Sempre achei que um país como o nosso tinha que ter um plano de médio, longo prazo”, afirmou. “Acho que o Bresser seguiu esta linha, coerentemente com os seus pensamentos. Paralelamente a um plano emergencial, ele tocou um plano macroeconômico”.

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