IMPEACHMENT? RENÚNCIA? Diante da brutal crise vivida por Dilma, é natural, em vista da História, que os olhos se voltem para o vice-presidente Michel Temer. Afinal, dos 39 presidentes brasileiros, nada menos do que sete foram vices que governaram

1-dilma-temer-Fabio-Rodrigues-Pozzebom-abr-440x291

Dilma com Temer: o vice tem sido leal com a presidente, mas, se ela se afastar ou for afastada, não seria, de forma alguma, o primeiro vice a assumir em definitivo (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

O negrume da crise que envolve a presidente Dilma Rousseff, com a explosão do escândalo do petrolão, o descontrole da economia e a falta de liderança para lidar com o Congresso e com os grandes problemas do país, levou, como se sabe, o índice de aprovação do governo a seu ponto mais baixo na história desses levantamentos, com miseráveis 7%.

Vários setores sociais falam em impeachment e personalidades de peso pedem sua renúncia.

Independentemente de considerar se são ou não válidas essas duas saídas, o fato é que muitas atenções se voltam, cada vez mais, para o vice-presidente Michel Temer, 74 anos, paulista de Tietê, ex-deputado federal, ex-presidente da Câmara dos Deputados e no posto desde 2011.

Temer, que foi mantido à margem de negociações políticas nas primeiras semanas do governo Dilma, está sendo reincorporado (muito mais lentamente do que o recomendável) às conversas por Dilma e vem se mantendo leal à presidente.

O fato, porém, é que seu cargo vem carregado de história — no Brasil e na pátria-mãe do presidencialismo, os Estados Unidos.

Em regimes presidencialistas, enquanto tudo corre bem com o titular, o vice-presidente da República não é ninguém — muitas vezes reduzido a uma situação de joão-ninguém tal que levou um ocupante do cargo nos Estados Unidos no começo do século XX a classificá-lo, com a franqueza rude daqueles tempos, como “tão importante quando um balde de cuspe”.

Ao mesmo tempo, porém, na poética (e terrível) expressão usada nos EUA, o vice está a apenas “uma batida de coração” da Presidência. Embora haja presidentes que atribua missões relevantes a seus vices, em geral o vice não é nada, politicamente — até que vira “o cara”. Pois nos EUA, por exemplo, desde que George Washington foi eleito, em 1788, nada menos que 12 dos 44 presidentes foram vices que acabaram assumindo de vez, só um deles pela renúncia do titular. Vejam bem, DOZE! Vários teriam um papel crucial na História.

Para só ficar com dois casos dramáticos: o obscuro ex-governador do Tennessee Andrew Johnson sucedeu a um gigante, Abraham Lincoln, com a imensa tarefa de juntar os pedaços de um país dilacerado pela Guerra Civil (1861-1865) e pelo assassinato do presidente num teatro de Washington.

Um ex-senador jeca e quase anônimo de uma remota cidade do Missouri chamado Harry S. Truman teve que substituir em 1944 outro colosso, Franklin D. Roosevelt, falecido em plena fase final da II Guerra Mundial no começo de seu quarto mandato consecutivo – e a Truman caberiam algumas decisões não apenas cruciais para os EUA, mas que acabaram moldando o século XX, como o lançamento de duas bombas atômicas contra o Japão, em 1945, e o estabelecimento do Plano Marshall, que reergueu a Europa das cinza após a catástrofe da II Guerra Mundial (1939-1945).

2-floriano-peixoto-196x300

Floriano Peixoto: primeiro vice a assumir, governou por muito mais tempo do que o titular (Foto: Presidência da República)

No Brasil, desde o nascer da República por meio de um golpe militar, em 1889, temos vivido o que eu costumo chamar de “o paradoxo do vice”: aquela mesma circunstância dos EUA segundo a qual ele não tem importância nenhuma, até o momento em que passa a ter total importância.

Na República Velha, pelo menos três vices governaram, começando, já de cara, pelo primeiro, Floriano Peixoto, que por meio de várias manobras, ao suceder Deodoro da Fonseca, em 1891, reinou virtualmente como ditador e teve presença muito mais marcante do que o velho marechal: Deodoro governou por um ano, Floriano exerceu o poder por três anos.

Até Getúlio Vargas assumir como presidente provisório após a Revolução de 1930 (e desconsiderando três militares que nominalmente governaram por alguns dias, em junta), outros dois vices governaram por morte do titular, ocorrida no posto ou antes de assumir: Nilo Peçanha (1909-1910) e Delfim Moreira (1918-1919).

3-galeria-vices-440x243

Nilo Peçanha governou por ano e meio, entre 1909 e 1910, após a morte, no cargo, do presidente Afonso Pena. Já Delfim Moreira assumiu provisoriamente em decorrência da morte, antes de assumir, do presidente eleito Rodrigues Alves (que exerceria seu segundo mandato). Governou por oito meses, até julho de 1919, pois a Constituição previa novas eleições quando o presidente falecesse na primeira metade do mandato. Epitácio Pessoa foi eleito para completar o período presidencial até novembro de 1922 (Fotos: Presidência da República)

Na República surgida da Constituição de 1946, dois dos seis presidentes até o golpe de 1964 — UM TERÇO dos chefes de governo — foram vices que assumiram: Café Filho (1954-1955), que governou o país nas difíceis circunstâncias do pós-suicídio de Getúlio Vargas, e João Goulart (1961-1964), entronizado — depois de grave crise política após a renúncia de Jânio Quadros.

Depois da redemocratização, em 1985, já tivemos cinco presidentes eleitos (Tancredo, pelo Colégio Eleitoral, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma), mas – nem é preciso lembrar – DOIS vices governaram, José Sarney (1985-1990), e Itamar Franco (1992-1995).

Então, dos 40 presidentes efetivos — excluídas também a junta militar que substituiu o presidente Costa e Silva em 1969 e presidentes efêmeros, que estiveram no cargo quase decorativamente por alguns dias, como o deputado Carlos Luz, em 1955, e o deputado Ranieri Mazzilli, em 1964 –, nada menos do que sete foram vices efetivados no cargo.

Com a frequência com que vices, aqui e alhures, assumem e governo, não é estranhável que Temer chame a atenção. Nem que seja pelo que relata a História.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *