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A juíza de Direito María de Lourdes Afiuni: por ousar libertar, com base na lei, um réu preso há 3 anos sem julgamento —  mas inimigo de Chávez –, caiu em desgraça: foi presa, algemada, e jogada numa penitenciária repleta de mulheres que havia condenado e “prontas a beber seu sangue” (Foto: AFP)

Amigas e amigos do blog, a história que vem a seguir sobre como o “comandante” Hugo Chávez e o chavismo tratam as instituições que eles próprios criaram na Venezuela é muito ilustrativa — e, infelizmente, é uma de muitas.

Está narrada pelo jornalista irlandês Rory Carroll, ex-correspondente do jornal britânico The Guardian para a América do Sul, sediado por seis anos em Caracas, no recém-lançado livro Comandante — A Venezuela de Hugo Chávez (Editora Intrínseca, 2013, 304 páginas), uma obra essencial para entender o falecido caudilho e a herança que ele deixou.

Se alguém acredita na lisura das eleições mal e mal vencidas pelo sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, cujos resultados foram apurados e divulgados pela dócil Conselho Ncional Eleitoral, é interessante constatar como o regime agia em relação a um dos Poderes do Estado, a Justiça. O caso narrado abaixo é exemplar.

* * * * * * * * * * * * *

Era 10 de dezembro de 2009.

[A juíza] María de Lourdes Afiuni, chefe da 31ª Corte de Controle de Caracas, examinou o réu. Era mais claro e mais velho do que faziam parecer as acetinadas e posadas fotos publicadas nos jornais, menos altivo e arrogante, mas também dois anos e dez meses numa cela no porão do Diretório do Serviço de Inteligência e Prevenção deixavam suas marcas em um homem.

Antes da prisão ele era Eligio Cedeño, superastro.

O menino prodígio das favelas que vira todos os ângulos dos negócios financeiros e possuía seu próprio banco, e uma fortuna estimada em 200 milhões de dólares, ao completar quarenta anos de idade.

De repente tornado inimigo de Chávez, o réu estava preso há 3 anos sem julgamento

Então, em 2007, o cometa se chocou. Ele foi acusado de evasão de divisas e virou Eligio Cedeño, história exemplar de advertência. O que fez exatamente para enfurecer o comandante nunca ficou claro — alguns diziam que financiara políticos da oposição, outros, que houve um escândalo envolvendo um parente de Chávez —, mas de um jeito ou de outro seu caso era perverso e admitia-se que Cedeño passaria décadas encarcerado.

Os promotores arrastaram o rocesso, de modo que quase três anos depois ele ainda aguardava julgamento.

Pela lei venezuelana [lei aprovada sob o chavismo, recorde-se], qualquer prisioneiro detido por tanto tempo tinha o direito de ser solto. Agora Cedeño estava sentado no tribunal de Afiuni para mais uma audiência, retribuindo seu olhar, carregando todo um mundo de encrencas.

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Suprema Corte da Venezuela (com Maduro à direita, na foto): desde que entrou em vigor a Constituição de 1999, nem uma única decisão contrária ao governo (Foto: Reuters)

Como o comandante, a juíza criava sozinha a filha, adorava seu emprego, tomava café demais, comia qualquer coisa que lhe pusessem na frente e fumava feito uma chaminé.

Nunca aprendeu a cozinhar, não dava a mínima para isso, preferindo chafurdar em livros de Direito, e, quando não estava trabalhando, passava o tempo com a filha adolescente.

O pai fora embora havia muito tempo. Afiuni estava acima do peso e descuidava-se da maquiagem, mas dobrava-se parcialmente ao ideal feminino da Venezuela com luzes loiras nos cabelos.

Jurista discreta, de médio escalão, mantinha-se longe da política e se irritava com casos de assaltos, sequestros e agressões a mulheres, dispensando-lhes sentenças vigorosas e duras.

A juíza enfrenta uma batata quente que outros colegas não queriam

E aí vem Eligio Cedeño, a batata quente que três outros juízes já haviam passado adiante.

O motivo da audiência era pavimentar o caminho para um julgamento, mas os promotores, como de costume, não compareceram.

Presumiram que Afiuni marcaria a data para uma nova sessão e mandaria o banqueiro de volta para a cela. Em vez disso, nervos à flor da pele, ela o soltou sob fiança.

— O que eu faço com ele? — perguntou um intrigado meirinho.

— Ele não vai voltar — ela replicou.

O magnata estava livre. Saiu andando, passando nos corredores por promotores pendurados aos seus celulares, saltou em um mototáxi e sumiu no meio do tráfego.

Enquanto isso, no tribunal, pandemônio. Promotores, despertando para o que acontecera, guincharam com a polícia para algemar Afiuni, presumindo que ela recebera suborno. Outros policiais começaram a varrer a cidade em busca de Cedeño.

Ele foi para um esconderijo e surgiu duas semanas depois nos Estados Unidos pedindo asilo político.

Havia duas possibilidades.

O banqueiro havia comprado a juíza num acordo pré-arranjado.

E Chávez vai para a TV chamar a juíza de “bandida” e decidir seu destino

Ou ela levara o Código Penal a sério e concluíra que era injusto mantê-lo preso sem julgamento.

Qualquer que fosse a verdade, ela rapidamente desapareceu sob a lava de fúria da erupção palaciana.

Em vez de convocar o procurador-geral e a Suprema Corte para uma instrução privada, Chávez foi para a televisão para contar a todo mundo o que deveria acontecer.

Sentado no palácio diante de um retrato de Bolívar e trajando uma jaqueta azul estilo militar sobre a camiseta vermelha, código implícito que enfatizava o comandante acima do presidente, ele deixou claro que a Venezuela estava olhando para sua única fonte de autoridade.

— María Lourdes Afiuni fez um acordo — afirmou ele, o dedo investindo contra a câmera. — Essa juíza bandida, uma bandida, não disse nada a nenhum promotor. Ela mandou buscar o prisioneiro, colocou-o no tribunal e o tirou pela porta dos fundos. Ele escapou… Isso é pior que assassinato! Essa juíza precisa pagar pelo que fez.

Mais:

— Em outros tempos, ela teria sido colocada diante de um pelotão de fuzilamento. —Temos que dar a essa juíza e às pessoas que fizeram isso a pena máxima, trinta anos de prisão,em nome da dignidade deste país!

Exigiu que a Suprema Corte processasse imediatamente Afi uni e orientou a Assembleia Nacional a aprovar uma lei impedindo que juízes cometessem tais ultrajes no futuro.

Nas distopias de Kafka, burocracias sem rosto eram instrumentos da promotoria. Em nome das aparências, Chávez geralmente se escondia atrás de lacaios judiciais quando queria alguém preso, arruinado ou exilado, mas não dessa vez.

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A juíza foi encarcerada na superlotada e horrenda penitenciária de Los Teques — repleta de mulheres que ela havia condenado (Foto: elnacional.com.ve)

Jogada numa prisão superlotada, repleta de mulheres que ela havia condenado

E María Lourdes Afiuni foi para a cadeia. Tecnicamente, é claro, foi para [o que o regime chavista passou a chamar, em extraordinário eufemismo,] um centro de atenção holística para pessoas privadas de sua liberdade, mas todo mundo chamava aquilo de presídio feminino de Los Teques.

Empoleirado no alto de um morro com florestas a oeste de Caracas, ficava do outro lado do vale em relação à prisão militar que desde abril daquele ano abrigava [o general] Raúl Baduel, outro prisioneiro que subestimara o espírito vingativo do presidente.

A penitenciária feminina estava estourando — sua população havia triplicado em quatro anos —, e Afi uni condenara dezenas de suas companheiras de prisão, algumas das quais juraram beber seu sangue.

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25 Comentários

Ronaldo em 24 de abril de 2013

Seu comentário cretino e ofensivo não será publicado. Suma daqui. O blog não precisa de leitores do seu baixo nível de educação.

Roberto Perez em 20 de abril de 2013

Os petistas abominam os nossos militares, mas amam a farda do Fidel, do Chavez, do Jiraia Coreia do Norte, a ponto do nosso apedeuta-mor Exudenovededos dizer que o Brasil deveria se espelhar nesses homens que amam seu país e seu povo, com desejo profundo de ver aqui (a Republica das Bananas) implantados os ideais 'democráticos' (?) que esses corajosos homens (na Coréia, um menino) plantaram no mundo. Na AL só falta cobrir com uma lona e colocar a carrocinha de pipocas na entrada.

Mauricio Zaniollo em 18 de abril de 2013

Muito obrigado, Ricardo Setti, por trazer informações como essa desse livro, que já me interessou comprar. Nunca imaginei que as coisas na Venezuela fossem tão negras! Isso que está no post mostra uma coisa só: aquilo lá é uma DITADURA mesmo. Só que o palhaço que animava o circo não está mais.

Felippe em 18 de abril de 2013

Fala, Setti. Cometi, entre outros, alguns erros de gramática, mas "ingnorância" foi demais! Pelo menos não me esqueci do acento circunflexo... :) abraços,

Jeremias-no-deserto em 18 de abril de 2013

Observe, caro Setti, a ironia dessa foto: os bandidos conduzem uma digna representante da lei para a cadeia, algemada.Eles têm o cúmulo do cinismo de vesti-la com um colete a prova de balas como que a querer demonstrar a preocupação em protegê-la contra ataques eventuais.De quem???Possivelmente, dos bandidos que estão no poder em Caracas! Meu Deus, é a total inversão de valores, essa corja bolivariana! Pois é...

Felippe em 18 de abril de 2013

Fala, Setti. Diante desta postagem, me refestelei arrepiado. A dentadura não pendeu, porque natural e completa. Infelizmente está tudo dominado por aqui, não há antagonismos. Por exemplo, um partido de direita. Quando muito, surgem caricaturas de liberais e/ou conservadores que logo, logo as esquerdas, como numa aulinha do Morin, cooptam e ridicularizam. Muitos sentem medo ou apatia de pagar mico, de vociferar (este verbo mesmo, pois ao ponto que chegamos, delicadeza inócua com esta galera naõ vinga)contra esta platitude de 'um partido só'- conchavos, coligações, fusões, mas sob o mesmo pedestal. A palavra direita, por ingnorância, por conveniência, por um comportamento esquizofrênico, é recahaçada tanto quanto um circo de pulgas sob um travesseiro. Que tristeza. Quando há concordância demais, algo vai mal. abraços,

leo em 18 de abril de 2013

Desculpe, caro Leo, mas tenho reiteradamente chamado a atenção dos amigos do blog para as regras para publicação de comentários, e elas, atendendo a convenções internacionais não escritas da web, não admitem comentários redigidos apenas em maiúsculas. As regras estão na home page, mas você pode acessá-las no link http://goo.gl/u3JHm Obrigado

Godoy em 17 de abril de 2013

A venezuela de hoje... é o Brasil de amanhã!

toninho malvadeza em 17 de abril de 2013

Se depender do judiciário corrupto e bandido,a pobre juíza vai acabar morrendo de velhice na cadeia.Ou até será "suicidada".É isso que o PT quer ao Brasil.

Naná em 17 de abril de 2013

A coragem desta mulher tem que ser mostrada ao mundo. http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=-cXcV6DIa7A Obrigado pela ótima dica, Naná. Vou postar este vídeo, do qual, por coincidência, o Augusto Nunes já me havia falado. Um grande abraço

Rafael em 17 de abril de 2013

Setti, O que aconteceu com essa juíza? está presa até hoje? E os demais magistrados venezuelanos e latino- americanos? Calaram-se? Ela continua presa até hoje SEM JULGAMENTO. O 17º Tribunal de Juicio da Venezuela inclusive negou petição de seu advogado, José Amalio Graterol, para que ela pudesse votar nas eleições de domingo passado. Quem negou esse direito à juíza foi uma colega sua chamada Marilda Ríos. Há protestos há anos em favor da juíza presa, que vão da ONU à Anistia Internacional. Seus colegas, apavorados diante do poder chavista, fogem dela como o diabo da cruz. Quem a defende são os partidos de oposição na Venezuela. Esta é a "democracia bolivariana" que o lulopetismo tanto admira.

Dilermano em 17 de abril de 2013

O Guilherme, eu também sou "socialista materialista e comunista utópico", eu não aceito os regimes cubanos e venezuelanos nem mesmo como arremedos de socialismos, vejo-os sim, como populismo barato. E já vivemos isto aqui com Getúlio vargas, ou algo semelhante.

Sergio Costa em 17 de abril de 2013

E esse aí é o regime dos sonhos dos petralhas. Espero que os brasileiros acordem a tempo.

Ismael Pescarini em 17 de abril de 2013

E o que aconteceu depois? a juíza continua presa sem julgamento nem provas? Caro Ismael, repito a resposta que já dei a outros amigos do blog: Ela continua presa até hoje SEM JULGAMENTO. O 17º Tribunal de Juicio da Venezuela inclusive negou petição de seu advogado, José Amalio Graterol, para que ela pudesse votar nas eleições de domingo passado. Quem negou esse direito à juíza foi uma colega sua chamada Marilda Ríos. Há protestos há anos em favor da juíza presa, que vão da ONU à Anistia Internacional. Seus colegas, apavorados diante do poder chavista, fogem dela como o diabo da cruz. Quem a defende são os partidos de oposição na Venezuela. Esta é a "democracia bolivariana" que o lulopetismo tanto admira.

Vera Scheidemann em 17 de abril de 2013

Que vergonha ! Tudo lá tem a marca da fraude ! Vera

Fernando Costa em 17 de abril de 2013

Venezuela, capital Havana!

Ildon Maximiano Peres Neto em 16 de abril de 2013

Não prova que a eleição foi uma fraude, Guilherme. Mas levante uma grande sombra de dúvida sobre qualquer ideia mínima de isenção das instituições públicas na Venezuela.

Bruno Sampaio em 16 de abril de 2013

Se você não sabe, Guilherme, - 16/04/2013 às 21:40, não vou nem me dar ao trabalho de explicar. Perda de tempo...

zangiskan em 16 de abril de 2013

O pior é ver que nos poucos comentários logo abaixo, ainda existem aqueles que querem defender a ``democracia bolivariana´´. Fico me perguntando o que esssas pessoas estão esperando para se mudar (ou voltar) para aquele ``paraiso democrático´´...

Guilherme em 16 de abril de 2013

Em que isso prova que a eleição foi uma fraude?

ricardo em 16 de abril de 2013

estamos no mesmo caminho.....Alias por os petista não se mudam para lá ou para Cuba uma vez que são paises exemplo de democracia segundo eles.

CANDIDO HAROLDO DA COSTA MONTEIRO em 16 de abril de 2013

quem mandar querer aparecer

Edson Joel em 16 de abril de 2013

Na ditadura do Fidel isso ocorre todos os dias. A Venezuela aprendeu com Cuba. Pior é ver um indigente mental como o Lula defendendo esse puteiro chavista. A sociedade está perdendo a paciência. Acho que o passado da guerrilheira Dilma deve ser aconselhado para todos nós.

PT = PICARETAS & TRAMBIQUEIROS em 16 de abril de 2013

... Na Venezuela de hugo chavez tem DEMOCRACIA até demais........quem disse isso ? O ditador lula. Esse é o modelo que o lula e o petê sonham implantar no Brasil.

Tcheves em 16 de abril de 2013

Setti, Enquanto não investigarem as denúncias de irregularidades que teriam ocorrido no dia da eleição, não podemos concluir nada, seria simplesmente torcida. Sou a favor da recontagem e das investigações. Aliás, os estrangeiros convidados para fiscalizar as eleições já começaram a se pronunciar. Veja: “No se le puede entregar la credencial a Maduro cundo la legitimidad del proceso está en dudas…El CNE tiene que acudir a la presencia de organizaciones internacional que puedan dar fe, que esta auditoría no será solamente un ejercicio …El reconocimiento de este gobierno está sujeto a condición” A fonte é o el impulso ponto com.

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