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O ministro do Exterior da Alemanha, Guido Westewelle (à direita) no dia de seu casamento com o empresário Michael Moronz

Muitas vezes vista como conservadora implacável, inclusive em temas sociais, a chanceler alemã, Angela Merkel, figura-chave no noticiário mundial das últimas semanas por seus esforços em prol da estabilidade do euro e da economia da União Europeia, tem facetas que pouco aparecem na mídia, mas que mostram um outro lado da que alguns chamam de “A Dama de Ferro” da Alemanha.

Merkel já fez, em passado recente, declarações polêmicas, vistas como intolerantes, como ocorreu há um ano, quando falava a estudantes em Potsdam sobre a necessidade de os imigrantes se integraram aos valores do país: “As tentativas de construir uma sociedade multicultural na Alemanha falharam”, opinou.

“Nós [alemães] nos sentimos ligados ao conceito cristão de Humanidade, que é o que nos define. Quem quer que não aceite isso está no lugar errado neste país”. É por acreditar nisso que Merkel convive tão bem com seu vice-chanceler, o líder do Partido Liberal alemão desde maio passado, um médico vietnamita adotado por um casal da Baixa Saxônia inteiramente afinado com os valores germânicos, a começar pelo nome, Phillipp Rösler, e pelo fato de ser protestante.

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Merkel e o famoso decote usado durante a inauguração da ópera de Oslo, em 2008: conservadora?

O famoso decote

Talvez por afirmações desse tipo, e também por ser filha de um austero pastor luterano, ter sido criada na ex-Alemanha Oriental comunista, para onde o pai foi enviado nos anos 50 por sua igreja, e ser física pela Universidade de Leipzig, com doutorado em Berlim e dezenas de trabalhos científicos publicados — todo um perfil de aparente conservadorismo e rigidez pessoais –, há quem não imaginasse Merkel portando o ousado decote do traje que vestiu para a inauguração da nova ópera de Oslo, em 2008.

Morar com o namorado antes de casar

Ou, eventualmente, que ela não fosse capaz de viver muitos anos com seu segundo marido, o também físico Joachim Sauer, antes de casar-se com ele em 1998.

Igualmente, a rigidez conservadora que se atribui à chanceler não encontra eco no fato de ela ter como ministro de Relações Exteriores, um dos homens-fortes do gabinete, Guido Westerwelle, que é homossexual e, depois de larga convivência, se casou com o namorado, o empresário Michael Moronz, há um ano, com festa a que ela, alegre, compareceu.

A casa de veraneio de 2 milhões de euros do ministro gay

Tampouco a chanceler, empenhada até a raiz dos cabelos na solução da crise financeira que ameaça derreter o euro e derrubar os pilares da União Europeia, escandalizou-se ou censurou Westerwelle por ter comprado, junto com o marido, e no meio do pipocar do furacão econômico, uma casa de veraneio por 2 milhões de euros (4,9 milhões de reais) na exclusivíssima área de Son Vida, em Palma, capital da ilha espanhola de Mallorca.

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Vista da exclusiva área de Son Vida, em Palma de Mallorca, onde o ministro Westerwelle e o marido compraram uma mansão de 2 milhões de euros

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10 Comentários

Carlão em 08 de novembro de 2011

Ricardo, meu caro Entendo a razão do texto. Aparentemente, pensamos em pacotes fechados, associamos ideias e posicionamentos pertencentes a esferas distintas como um todo homogêneo. Por isso, a estranheza em se ver uma governante ao mesmo tempo austera na política e liberal quanto a costumes da vida privada. Me identifico em alguns pontos com a poderosa Angela. Politicamente, hoje pendo mais para a direita economicamente liberal. Concordo com a noção de nação que o texto diz que a chanceler tem. Uma nação pode comportar origens étnicas, línguas e costumes diferentes mas nunca divergir em valores humanos básicos. Sou ateu e reconheço o valor da herança cristã na construção desses valores humanos a que me refiro. Entendo também que dentro desse sistema de valores pouco importa o que a pessoa faz na sua vida privada, desde que não afronte estes valores: que me importa com quem fulano dorme, como beltrano gasta seu dinheiro ou qual a origem de sicrano? O pequeno perfil que você traçou ajuda a entender melhor essas aparentes (e só aparentes) contradições: a origem familiar com códigos rígidos de conduta e os anos acadêmicos num ambiente notoriamente mais arejado em termos de costumes. Em ambas as situações, a busca pela excelência, o reconhecimento do mérito, a indiferença por qualquer vantagem que não seja advinda do próprio esforço. Abração do Carlão

Reynaldo-BH em 07 de novembro de 2011

Caro Reynaldo, a seu pedido não publico o comentário, mas digo "sim" a sua pergunta. E aguardo sua mensagem. Abraço

J.B.CRUZ em 07 de novembro de 2011

O título "DAMA DE FERRO" só coube em uma pessoa: MARGARETH TATCHER; ANGÊLA MERKEL segue o mesmo caminho, primeiro em defesa de sua querida ALEMANHA, depois aos seus aliados...DILMA, não deixa a desejar, pois mesmo que lentamente vai desvencilhando dos consêlhos de seus deslumbrado PADRINHO!

Reynaldo-BH em 07 de novembro de 2011

Caro Reynaldo, a seu pedido não publico seu comentário. A resposta a sua pergunta é "não". Abração

Caio Frascino Cassaro em 07 de novembro de 2011

Prezado Ricardo: Aqui só valem as láureas de mentirinha, aquelas que o fulano não precisa ficar sentado em um banco de escola e mergulhado nos livros no mínimo sete anos, entre graduação e pós-graduação, e ainda ser submetido a uma avaliação por uma banca de notáveis para obter o título. Na Bobolândia o bacana é o "Honoris Causa" e não o "Suma Cum Laude". Ai, Brasil... Um abraço.

Reynaldo-BH em 07 de novembro de 2011

Setti, em meu post anterior, um horror! rsrsr Troque o homogênico (donde saiu isto? deve ser este whiskye paraguaio fantasiado de Jonnhie Walker!) por HEGEMÔNICO! Em nome de meus dois leitores! Eu e minha filha! Abraços!! OBRIGADO!

Reynaldo-BH em 07 de novembro de 2011

Setti, não acho que fraulein Merkel (que merece TODO o meu respeito pela inteligência, cultura e autonomia de vida, que fique claro) seja conservadora. Embora eu admire, cada dia mais, este termo. Se para mim já foi ofensa, hoje não mais. Basta que se saiba o que se quer conservar. No meu caso, a vida já me deu os valores que devem ser incluídos nesta lista. Como dizia Nélson Rodrigues, a juventude é um mal que o tempo cura. Mas, mesmo aceitando o termo no sentido pejorativo, não creio no conservadorismo de Merkel - se existe - como algo maléfico. O problema da primeira-ministra é.. ser alemã! hehehe.... Aquela velha história: quem paga a conta, pede o cardápio! Minha crítica não é a ela. Embora ache que esteja ainda abaixo de Willy Brandt e Helmut Schmidt. Merkel usa do poder quase homogênico em uma união que deveria ser plural. E do modo germânico de ser, sem meias palavras ou cuidados. Não há comparação entre Merkel e ... Seja intelectualmente, no trato (uma é dura e direta, a outra mal-educada e prepotente) ou na formação humana e acadêmica. Nunca li uma única crítica à Merkel pelo que defende ou faz. E sim ao modelo europeu que transformou a Alemanha de um parceiro em um tutor dos outros. Mesmo os mais ferozes opositores europeus consideram a dama de ferro germânica uma das poucas lideranças efetivas do continente. E não precisa usar da "esporrocracia" para impor autoridade. Só a presença dela aliada ao discurso coerente e concatenado bastam para dar credibilidade e respeitabilidade. Quem, por outro lado, não consegue fazer com que o pobre par de neurônios atuem em conjunto para expor algo com alguma lógica e que não seja falso como uma nota de três reais, precisa de acólitos e de dóceis capachos. Merkel pode ser (tomara que sim) conservadora. Melhor que ser sem rumo. Reynaldo. PS: Já desisti de revoluções. Elas pretendem destruir algo (até com legitimidade) sem saber o que por no lugar. Continuo a apostar na evolução. Mesmo que para isto, valores tenham que ser conservados. Isso é ser conservador? Eis aqui um.

Caio Frascino Cassaro em 06 de novembro de 2011

Prezado Ricardo: Como é que é? Doutora em física pela Universidade de Berlim? Dezenas de trabalhos publicados? Pois é. Enquanto isso, na Bobolândia... Um abraço. Pois é... Aqui, ter títulos como esse, como sabemos, conta pontos negativos junto a certos setores, não é mesmo? Abração

Vera Scheidemann em 06 de novembro de 2011

Acho que a Merkel é rígida nos assuntos que se referem à Alemanha, cujo governo ela exerce com seriedade, na minha opinião. Quanto aos demais assuntos, ela é uma pessoa igual a nós, sem grandes exigências. Sabia que ela reside no mesmo apartamento onde morava antes de assumir o poder ? Ela desistiu de usar a residência ofical por considerá-la uma despesa desnecessária. O único custo que o governo tem restringe-se à manutenção de carros de polícia em frente ao prédio para dar-lhe segurança. Frize-se que o prédio é habitado por outros moradores, como qualquer outro edifício de apartamentos. Imagino, também, que ela não apresente contas de despesas altíssimas com jantares e recepções na sua residência, como ocorre aqui no nosso Brasil. E é uma das pessoas mais poderosas do mundo. Quanta diferença, né ? Vera

ARAUJO em 06 de novembro de 2011

O Ministro estava com o empresário, ou se casou com o empresário????? Fiquei em dúvida ao ler a matéria; Na matéria está claro, caro Araújo. Depois de seu comentário, procurei mais claro ainda. Eles estavam juntos e, há um ano, casaram-se de acordo com a lei da Alemanha, que admite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Abraço

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