Durante décadas ele foi uma voz contra a escuridão.

Quatro vezes deputado estadual (pelo velho PTB, depois pelo MDB), governador do Rio Grande do Sul entre 1987 e 1990, quatro vezes senador da República, um dos coordenadores do movimento Diretas Já, em 1983-1984, íntimo colaborador do Doutor Ulysses Guimarães, membro das cruciais CPIs do PC – que levaria à renúncia do presidente Fernando Collor para não sofrer o impeachment, em 1992 – e dos Anões do Orçamento, no ano seguinte, que levou a seis cassações de mandatos e quatro renúncias de deputados corruptos.

Pouca gente tem a folha de serviços do senador Pedro Simon (PMDB-RS). Arriscou quotidianamente o pescoço se opondo, como jovem e indefeso deputado estadual no Rio Grande, à ditadura militar.

Participou das articulações que levaram Tancredo Neves à vitória no Colégio Eleitoral, em 1984, e foi escolhido seu ministro da Agricultura, depois mantido pelo vice José Sarney.

“PRECISO OUVIR O DISCURSO DELE PARA SABER O QUE ESTOU PENSANDO”

Num período difícil da vida do país, com a Presidência desmoralizada e enfraquecida pela passagem de Collor, foi um dos esteios do presidente Itamar Franco na recuperação da dignidade da instituição. Nas CPIs do PC e dos Anões, sua voz indignada, trovejando no Senado, parecia exprimir a consciência da nação.

Talvez Nelson Rodrigues, se fosse vivo, descobrisse muitos brasileiros que diriam, sobre distintos assuntos:

— Preciso ouvir o discurso do Pedro Simon hoje para saber o que estou pensando.

Embora apagado nos últimos meses, um tanto abatido fisicamente – talvez por força de seus 80 anos de idade –, o senador Pedro Simon continuava sendo uma das poucas referências morais do país.

“DIFICULDADES FINANCEIRAS”?

Arrisca-se a jogar tudo para o alto porque, um tanto sorrateiramente, no final do ano passado, pediu para embolsar pensão (vitalícia) como ex-governador gaúcho, 20 anos depois de deixar o cargo que exerceu por menos de 4 anos.

O argumento de “dificuldades financeiras” por receber na época 11 mil reais líquidos não pode prevalecer diante de pelo menos três pontos: 1) da realidade do povo brasileiro; 2) do fato de que o próprio Senado disponibilizava para os senadores 18 mil reais de verba de representação, da qual o senador abriu mão porque quis, para fazer bonito; 3) e de que Simon, como professor universitário de Direito, com pós-graduação em Economia e especialização em Direito Penal, pode perfeitamente complementar a renda lecionando ou fazendo palestras, como centenas de outros homens e mulheres que deixaram a vida pública.

O senador alega que solicitou a pensão quando os parlamentares ganhavam, brutos, 16,5 mil reais por mês.

Agora, um de seus problemas, digamos assim, será o que fazer com tanto dinheiro: desde novembro, passou a receber 24,1 mil reais por mês de pensão, embolsou mais 52 mil reais em dezembro, referentes a 4 mil do 13º proporcional mais um “atrasado” sobre novembro, e agora, a partir deste mês de fevereiro, além dos 24,1 mil reais como ex-governador, verá aterrissarem mensalmente em sua conta bancária mais 26,7 mil reais – o novo salário de um senador.

Belos e sonoros 50,8 mil reais.

Valerão uma reputação longa e duramente conquistada ao longo de meio século como político íntegro e corajoso?

Que decepção!

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Natale em 20 de fevereiro de 2011

Sr. Setti! O Senador em questão é Franciscano, o qual alardeia vulgarmente na tribuna do Senado Federal. Pobr RS, agora elege a ex-namoradinha do Tancredo Neves. Neves fora RS, esta pendurado no mapa do Brasil, ou seria do BRAZIL, desta vez, Ah! e o outro é um ex-sindicalista, ex-proletário, um ex-tudo, e o outro que ninguém sabe que é. Sabreia me dizer que é o outro Senador do RS?

Roberto 7467 em 12 de fevereiro de 2011

Se eu não estou enganado, Pedro Simon fez um voto de pobreza há alguns anos. Parece que ele se arrependeu...

marli em 11 de fevereiro de 2011

depois que uma "companheira" de Brizola de alguns anos embolsa esta mesma pensão e até mesmo uma tataraneta de Tiradentes, nada me admira, pelo menos "ele" exerceu o mandato.È uma grande decepção, era o último que eu respeitava mas ele está pensando é na pensão da viuva.

vera beiro em 09 de fevereiro de 2011

Lamentável.

Marinho em 04 de fevereiro de 2011

Apagou-se a última chama de decência no Senado.Feche o senado e jogue a chave fora,daqui prá frente é só enganação!Brasileiros,vamos mudar esta situação,a partir das próximas eleições, não votem em fdp nenhum!Assim talvez eles criem vergonha na cara.

costamcs em 03 de fevereiro de 2011

Em que pese o seu importante papel na luta pela redemocratização do país, há muito que venho notando o seu papel de carroça vazia, como disse com muita perspicácia um comentário abaixo. Nos últimos anos pude perceber que seus discursos no plenário (sim, assisto a TV Senado durante a semana) traziam uma certa superficialidade e um flagrante oportunismo. Pena que uma biografia assim tenha se diluído nos últimos anos. De fato, é um grande concorrente no páreo de homem sem visão do ano.

Dexter em 01 de fevereiro de 2011

OK! Você tem razão, como sempre. Me precipitei. abç

Luiz Antonio em 01 de fevereiro de 2011

Até tu, Pedro?

Dexter em 01 de fevereiro de 2011

Calma, Ricardo Muito cedo para achar que essa seria a maior decepção do ano, em se tratando dos nossos honrados parlamentares. Quanto à eleição do HSV - Homem sem Visão do mês, criada pelo Augusto Nunes, sempre participo mas confesso que é mmuuuito difícil escolher só um candidato. É fera que não acaba mais. E quando você pensa que decidiu, outra denúncia põe tudo a perder. Estou até pensando em sugerir que ele faça uma eleição só com 1°s lugares. Abç Hahahaha, boa ideia, Telma. Mas, prezada Telma, pode ser cedo para "achar" que o senador seria a maior decepção do ano, mas não que ele, pela dignidade como sempre se desempenhou na vida pública, seja CANDIDATO à maior decepção do ano, como escrevi. Abração e volte sempre.

Malur em 01 de fevereiro de 2011

Provavelmente a sra. Simon bateu o pé e quer também botox, lifting, silicone...

Diocleciano em 01 de fevereiro de 2011

Ricardo Setti, O problema é que há uma lei no estado(RS) que lhe garante o benefício. Além de que, ele está pedindo o benefício depois de 20 anos(o que já é prova de caráter); se o quizesse já poderia ter feito a mais tempo. Sua idade também já é avançada. Então é injusto querer macular o senador(que ousou fazer um discurso na posse de Dilma pedindo ética, o que deixou Sarney constrangido) por ter solicitado algo que lhe é de direito. Além de que outros ex-governadores de caráter bem duvidoso, e exemplo da senhora Yeda Crusius(PSDB), já recebem o benefício. Dona Yeda nem disfarçou e já solicitou a pensão imediatamente à saída do cargo. Enfim... O senador Simon continua merecedor de meu respeito. A lei é que tem de ser extinta ou melhorada.

Ex Assinante em 01 de fevereiro de 2011

Assim como o diogo mainardi mostrou-se a decepção da revista VEJA, uma revista que tem em geral bons quadros, Pedro Simon mostrou-se a decepção do ano. E o ano só está começando ! PS : Ricardo. Gostaria de ser avisado por e-mail quando o Diogo Mainardi for demitido de vez. Quero voltar a assinar a revista VEJA, não aguento mais de saudade ! Dirija-se ao diretor de Redação, veja@abril.com.br Pelo que sei, não há qualquer plano de demitir Diogo Mainardi. Ele passou a escrever com menos frequência porque quis, inclusive por estar escrevendo um livro sobre paralisia cerebral, mal que afeta um de seus filhos.

Rosa Maria Pacini em 01 de fevereiro de 2011

Setti, estou começando a crer que a safadeza, que grassa na política brasileira, é contagiosa. Mais dia, menos dia todo político a manifestará. Lamentável e desalentador.

Mineiro em 01 de fevereiro de 2011

Esse arauto da moral é aquele que acoitou Yeda Marcutaia Cruzius? Ah, tá lembrei.

Marco em 01 de fevereiro de 2011

Caro R. Setti: Resolveu mergulhar nas mesmas correntes, com o velho truque d falar sobre as dificuldades e depois iludir com as facildades. É isso aí meu amigo... Abs.

Natal Santana em 01 de fevereiro de 2011

Paulinho da Viola já cantava "dinheiro na mão é vendaval"... eu diria: "dinheiro público é tentação"... Homens como Simon, Álvaro Dias... jogam fora biografias que os destoavam da mediocridade política reinante em Brasília, tudo por causa de dinheiro! Caramba: se o trabalhador médio sobrevive com 2 mil reais ou muito menos, 11 paus eram insuficientes para ele sobreviver?! Penso que esse gesto não apaga seu passado de homem público, mas suja muito, sim. E nos deixa ainda mais órfãos!

Kitty em 01 de fevereiro de 2011

Bom día Ricardo!!! O prezado amigo,juro que não sou pessimista,ao contrario me considero uma pessoa optimista,por que sempre trato de ver o lado bom das coisas. Mas têm dias que me sinto cansada de ler tantos absurdos destes nossos políticos,até daqueles que a gente admira,que já não sei o que dizer.É uma decepção atrás da outra!! A maioria das vezes aparece o culpado de tantos descalabros: o Dinheiro!! Desculpe a repetição, mas sempre me lembro deste refrão espanhol: PODEROSO CABALLERO ES DON DINERO!! Quanto á o Sr. Pedro Simon,em consideração a sua trajetória de político honesto,vou só dizer,que não julgo as razões pela quais cometeu este desnecessário desliz,mas tirou brilho a sua ilibada biografía. Abraços da Kitty

Marco em 01 de fevereiro de 2011

Texto primoroso, e bem por isso merece uma correção: dos deputados cassados em 92, na CPI dos anões, um não o foi por corrupção, o Ibsen, de quem pessoalmente não gosto, mas, por certo, sofreu injustiça. Obrigado pelo "texto primoroso". Na verdade, o deputado Ibsen entrou no bolo, e a injustiça foi reparada bem mais tarde. Vou tentar mexer no texto do post, mesmo não tendo citado o deputado. Abração

Joe em 01 de fevereiro de 2011

Que reputação? O Simon é uma carroça vazia. Faz barulho e não tem nada dentro.

roberto stone em 01 de fevereiro de 2011

Ricardo, Ninguém é de ferro. Quem é o homem honesto que resiste a um cofre aberto ou uma bela dona nua à disposição? ou em outras palavras, todo homem tem seu preço, especialmente os que fazem carreira política.

Humberto Vieira da Silva em 01 de fevereiro de 2011

Parem de tentar denegrir a imagem do grande senador. A aposentadoria é legal..pode ser imoral...mas se ela existe ele tem o direito de recebe-la....

Livia em 01 de fevereiro de 2011

Já valeram meu caro Setti! Uma pessoa verdadeiramente íntegra e honesta é capaz de relevar as dificuldades financeiras em prol da moral. Ex. de boa parte da população que se fod...o ano inteiro, vive no vermelho mas são incapazes de roubar um pão na padaria!

Jota em 01 de fevereiro de 2011

Parece escolheu a opção: Homem SEM Visão, mas COM pensão. Decepção.

Carlos Costa em 01 de fevereiro de 2011

Para mim também, uma grande decepção,....Ai chegamos na encruzilhada,em quem acreditar.

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