A CIA, a principal agência de espionagem americana, com orçamento de 28 bilhões de dólares para este ano, quadros qualificadíssimos e gente espalhada em todo o planeta, há anos vem fracassando na sua missão mais elementar – informar com um mínimo de antecedência ao governo americano sobre temas de seu mais alto interesse.

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, a agência e serviços de inteligência de outras áreas receberam gigantescos reforços – gastarão mais de 80 bilhões de dólares em 2011 –, mas continuam dando vexame – não custa lembrar que setembro próximo marcará o 10º aniversário da busca, infrutífera, pelo terrorista Osama Bin Laden, que derrubou as torres gêmeas em plena Manhattan, fugiu no lombo de um burrico pelas montanhas do Afeganistão e nunca mais foi localizado.

A CIA e congêneres também frangaram ao informar ao governo americano sobre o reino do Barein, fundamental aliado de Washington ao ponto de abrigar, no porto da capital, Manama, a poderosíssima V Frota da Marinha de Guerra dos Estados Unidos.

O Barein tem estado em pé de guerra, com frequentes manifestações nas ruas e severa repressão por parte do governo do rei Hamad bin Isa Al Khalifa desde que as manifestações contra o ex-ditador egípcio Hosni Mubarak atiangiram o auge, no começo de fevereiro.

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Manifestantes carregam caixão de uma das vítimas do confronto com a polícia no Barein: Hillary, ao que parece, não estava informada sobre os descontentamentos da população 

“Um amplo compromisso pela democracia” que só Hillary viu

Pois bem, há pouquíssimo tempo, em dezembro passado, a secretária de norte-americana Estado Hillary Clinton visitou Manama e se disse “muito impressionada pelo progresso que Barein vem fazendo em todas as frentes – economicamente, politicamente, socialmente”. Hillary não parou aí: “Parece haver um amplo compromisso em favor da democracia”.

Ocorre que o “amplo compromisso” pela democracia imaginado por Hillary não inclui os 500 presos políticos mantidos nos cárceres do pequeno país, segundo estimativa de Nabeel Rajab, presidente do Centro pelos Direitos Humanos de Barein, uma percentagem espantosa para um país de 1,2 milhão de habitantes.

Hillary também, ao que parece, não estava informada sobre o que alimentaria os protestos que iriam às ruas semanas depois de sua visita: desemprego, discriminação da elite muçulmana sunita em relação à maioria (70%) da população, xiita – em matéria de empregos, acesso aos serviços públicos de saúde e outros benefícios –, emprego de sunitas estrangeiros nas Forças Armadas e na polícia e concessão em massa da cidadania do país a imigrantes sunitas de outros países árabes, numa tentativa do regime de alterar o atual status demográfico – e por aí vai.

Os manifestantes também se queixam de que a Shura – um conselho consultivo de 40 membros, todos nomeados pelo rei – dispõe de poderes para bloquear medidas aprovadas pelo Parlamento, de atribuições já de si limitadas desde que o soberano, há 10 anos, houve por bem começar um esboço de monarquia parlamentar no país.

Hillary, ao que tudo indica, falou sobre o que não sabia.

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1 comentário

chorei antes de nascer em 29 de março de 2011

Não importa se Hillary falou sobre o que não sabia, mesmo que soubesse, não não seria justa, muito menos sábia.

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