Apetite do PMDB e saúde de Dilma fazem combinação preocupante

Apetite do PMDB e saúde de Dilma fazem combinação preocupante

Até pelo escândalo das violações de sigilo da filha do candidato José Serra e de vários tucanos, diminuiu o noticiário sobre o quinhão pretendido pelo PMDB num futuro governo Dilma Roussef. Diminuiu o noticiário, mas não a gula do PMDB, nem a sucessão de conversas entre as duas partes. Diante do ranger de dentes de cardeais petistas, a turma do PMDB já está exibindo a fatura do apoio.

Querem metade de tudo, repartido entre ministérios, cargos gordos em estatais e bancos oficiais, diretorias de agências reguladoras, indicação de ministros dos tribunais superiores – e por aí vai.

JIBÓIA FAMINTA E INSACIÁVEL — Mas não é para estranhar, amigos. A 13 de junho, quando Dilma, na  convenção nacional do PMDB, saudou o presidente do partido, deputado Michel Temer (SP), como seu vice, o PT, ela própria e seu mentor Lula abraçaram uma jibóia faminta e insaciável, acostumada, há décadas, a triturar e digerir aliados – e a querer mais, sempre mais.

Assim, pode não ser agradável, mas é importantíssimo lembrar que Dilma sofreu de uma doença grave, por ora debelada mas que pode voltar. Nenhuma pessoa de bem, nem os mais ferrenhos adversários ou críticos de Dilma, querem, é claro, que haja recidiva em seu câncer.

Mas pode acontecer, como acaba de ocorrer com o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, que por isso decidiu desistir de sua candidatura ao Senado pelo PMDB. E também pode acontecer um dia – toc, toc, toc, tomara que não –, o pior. Em política, o pior nunca deve ser desconsiderado. E, se acontecer, o PMDB estaria instalado na Presidência. Sim, o velho PMDB, o partido “deste país” que mais ama a coisa pública.

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Dilma Rousseff em 2009, depois do tratamento de quimioterapia ainda usando peruca e, em maio de 2010, durante uma entrevista

SAÚDE DE CANDIDATO É DE INTERESSE PÚBLICO — Dilma, no recente debate entre candidatos à Presidência promovido pelo UOL, considerou “um pouco deselegante” a pergunta sobre sua saúde feita pelo jornalista Rodrigo Flores, gerente de notícias do portal. Deselegante coisa nenhuma. A pergunta era obrigatória: saúde de um candidato à Presidência é assunto de estado, é de alto, fundamental interesse público. Em democracias maduras, como os Estados Unidos, divulgam-se periodicamente relatos completos sobre o estado físico dos presidentes. E os candidatos, inclusive ao Congresso e aos governos estaduais, revelam sua ficha médica completa para o público.

Lembremos um caso relativamente recente em que a saúde jogou papel importante na cena política: o então popularíssimo ex-prefeito republicano de Nova York, Rudolph Giuliani, afastou-se da disputa pela candidatura do partido em 2002, em que teria boa chance, quando um exame de rotina diagnosticou-lhe um câncer de próstata.

O CASO DA DOENÇA DE ALENCAR — Muito diferente do que se passa entre nós. O presidente Juscelino Kubitschek escondeu um enfarte sofrido durante seu mandato (1956-1961). O “resfriado” que acometeu em agosto de 1969 o marechal-presidente Costa e Silva consistia, na verdade, numa trombose cerebral que resultou na tomada do poder por uma junta militar e em sua morte, três meses depois. Há outros exemplos, antigos ou recentes. Ainda agora temos o caso do bravo, do valente vice-presidente José Alencar, submetido desde 2006 a várias cirurgias e sucessivos e desgastantes tratamentos como parte de sua ferrenha luta contra um câncer no abdômen.

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José Alencar após receber alta no Hospital Sírio-Libanês, onde foi submetido a mais uma operação contra o cancêr, em 2009

Na antevéspera mesma da posse como vice no segundo mandato de Lula, que se deu a 1º de janeiro de 2007, Alencar, que sofrera 60 dias antes uma segunda cirurgia em quatro meses para combater o mal, se submetera a uma sessão de quimioterapia em Nova York. Quer dizer, como o primeiro turno da eleição presidencial ocorreu a 2 de outubro de 2006, quase três meses antes se sabia que o vice concorrendo na chapa do presidente era portador de uma doença grave, de incerta perspectiva de cura. Tanto que Alencar necessitou de várias outras cirurgias e volta e meia retorna à quimioterapia. Por sinal, o vice-presidente precisou ser internado novamente na sexta-feira, devido a um edema pulmonar.

Mas naquela eleição ninguém – nem Lula, nem o próprio Alencar, nem o PT, nem qualquer ministro, assessor ou auxiliar do presidente ou de seu comitê eleitoral – parece ter dedicado um único segundo de atenção a essa circunstância como relevante a ponto de pesar na manutenção ou não de Alencar na chapa presidencial. Apesar dos méritos e qualidades que Alencar possa ostentar e do respeito notório que merece de Lula, é como se o cargo de vice, e o aspirante a ele, não tivessem a menor importância.

“A UMA BATIDA DE CORAÇÃO” DA PRESIDêNCIA — E, no entanto, os americanos, inventores do presidencialismo, costumam dizer, em expressão a um só tempo poética e terrível, que o vice, esquecido a mofar no dia-a-dia da política, está permanentemente a apenas “uma batida de coração” da Presidência. De fato. Dos 43 presidentes americanos desde o primeiro, George Washington, nada menos que doze foram vices que acabaram assumindo o cargo em definitivo (e só um deles, Gerald Ford, por renúncia do titular, Richard Nixon, em 1974).

No Brasil, desde os primórdios da nossa tremelicante República temos vivido o que chamei em textos anteriores de “o paradoxo do vice”: o camarada não tem importância nenhuma, até que os insondáveis sortilégios da política ou da vida o fazem ter a suprema importância. Na República Velha (1889-1930), três vices se efetivaram no cargo. Na efêmera democracia de 1946 a 1964, dois dos seis presidentes – um terço deles, portanto – foram vices que assumiram, Café Filho (1954-1955) e João Goulart (1961-1964). E, como todos nós nos lembramos, dos cinco presidentes posteriores à redemocratização de 1985, dois se elegeram como vices, José Sarney (1985-1990) e Itamar Franco (1992-1995).

A conclusão é que precisamos ter mais cuidado na escolha dos vices – e tal cuidado, além de itens como competência técnica, aptidão política e uma série de qualidades adicionais, deve obrigatoriamente incluir a preocupação com o estado de saúde dos candidatos. Agir de outra maneira, como fizeram Lula e Alencar, configura uma demonstração de falta de transparência e de irresponsabilidade que o país e os cidadãos não deveriam tolerar. Imaginem então quando se trata da escolha do candidato a presidente.

DILMA CONTINUA DEVENDO INFORMAÇÕES – Nessas eleições, nenhum dos três candidatos principais cumpriu a obrigação elementar de esclarecer o público a respeito de tema tão crucial. José Serra (PSDB) aparentemente não sofre de maiores males, o que não o exime desse dever moral. Marina Silva (PV) tem notoriamente saúde frágil, e pouco se sabe a respeito.

A Dilma, entretanto, como candidata diagnosticada com doença muito grave há pouco mais de um ano, com a responsabilidade adicional de ser a candidata favorita segundo pesquisas de intenção de voto, incumbe, mais que ninguém, prestar esclarecimentos. Ela respondeu à pergunta supostamente “deselegante” dizendo estar em ótima forma, tanto é que suporta com galhardia a massacrante maratona de candidata. Sua aparência, de fato, transparece vitalidade. Mas ela continua devendo a “este país” uma exposição clara, o mais completa possível, sobre seu real estado de saúde.

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