ARGENTINA: Ao mexer novamente na ferida da guerra perdida para os britânicos, Cristina Kirchner faz demagogia rasteira para afastar a opinião pública dos reais problemas do país

Acompanhada do vice-presidente, Amado Boudou (à esq.), e do porta-voz do governo Jorge Capitanich, a presidente Cristina Kirchner lança a nova cédula com a imagem das Malvinas/Falklands: de novo, a demagogia (Foto: Carlos Brigo / Agência EFE)

Acompanhada do vice-presidente, Amado Boudou (à esq.), e do porta-voz do governo Jorge Capitanich, a presidente Cristina Kirchner lança a nova cédula com a imagem das Malvinas/Falklands: de novo, a demagogia (Foto: Carlos Brigo / Agência EFE)

O lançamento de uma cédula de dinheiro de 50 pesos tendo no verso um mapa das ilhas Malvinas/Falklands não passa de mais um lance de demagogia rasteira da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, para desviar a atenção da opinião pública para o desastre que é seu governo.

Num país com fuga de capitais estrangeiros, com inflação em alta e escondida por medidas artificiais antimercado, com institutos oficiais cujos dados econômicos e financeiros não são aceitos por organismos internacionais por serem notoriamente maquiados ou simplesmente falsos, a presidente não desiste de explorar o sentimento de frustração e orgulho ferido dos argentinos pela derrota para os britânicos — que controlam as ilhas desde 1833 — na guerra de 1982.

Esta, como se sabe, foi decorrência da irresponsabilidade de uma ditadura militar assassina que invadiu as ilhas sabendo que uma potência nuclear como o Reino Unido, um dos cinco integrantes com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, não poderia deixar passar o episódio em branco.

A ditadura expôs os argentinos a uma humilhação militar e submeteu jovens soldados a horrores de uma guerra travada sem recursos suficientes sequer para enfrentar o frio e a fome. A tragédia durou 73 dias e deixou um rastro de 649 mortos e 1.082 feridos, muitos deles inutilizados para sempre — e ainda há quem conteste os dados oficiais e diga que o número de baixas é superior.

Como resultado da derrota militar, a ditadura foi enxotada do poder com o rabo entre as pernas, mas as feridas da guerra não se pode dizer que tenham cicatrizado. Sempre que pode, Cristina as remexe, como ocorre neste caso: a cédula está sendo lançada para “homenagear” os mortos no conflito.

Ao insistir na tese da soberania da Argentina sobre as ilhas, a presidente ignora por completo o referendo supervisionado internacionalmente que mostrou, em 2012, que 99,8% dos habitantes das Malvinas/Falklands que votaram desejam continuar sendo cidadãos britânicos. No total, 92% dos 1.672 habitantes aptos a votar participaram do referendo. Apenas três pessoas votaram contra. E não se conhece forma melhor de decidir a soberania de um território do que consultando as pessoas que vivem nele.

As Malvinas/Falkland eram inicialmente desabitadas e já foram reivindicadas por cinco diferentes países, incluindo, além de Argentina e Reino Unido, a França, a Espanha e a Holanda, até o estabelecimento dos britânicos no território, há 181 anos. A Argentina só teve soberania sobre as ilhas durante três anos.

Em Buenos Aires, na solenidade de lançamento das cédulas, a presidente recorreu a delírios sem o menor fundo de verdade para reivindicar a anexação do arquipélago. “A verdade sobre as Malvinas é que elas constituem a base militar da OTAN [a aliança militar ocidental] no Atlântico Sul”, jurou. (A guarnição da ilha — a “base militar” da OTAN — consiste em algumas centenas de soldados, em uma lancha de patrulha, eventualmente substituída por uma corveta (pequeno barco de guerra), e um único caça-bombardeiro.

Mas Cristina delira. “Mísseis (no arquipélago) podem alcançar grande parte do Cone Sul e chegar até ao Equador”, disse, referindo-se a armamentos que jamais foram instalados nas ilhas e fazendo supor uma loucura — como se o Reino Unido ou os países da OTAN desejassem lançar um ataque militar à América Latina, com os quais mantêm excelentes relações diplomáticas e comerciais. A única exceção é o atual governo argentino.

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22 Comentários

  • Luiz C.

    É a Desvairada Portenha em mais uma sessão de delírios!

  • cristina

    É o Samba da Argentina Doida….

  • Anônimo Paulistano

    A situação da Argentina não é diferente da brasileira, cá, a comissão da verdade equivale à guerra perdida para os britânicos lá, em ambos os casos usam-se esses distraidores para afastar os eleitores dos reais problemas que assolam Argentina e Brasil, os métodos empregados por esses governantes, de tendências bolivarianas, são óbvios demais.

  • Sérpico

    Caro Setti,
    Ela se espelha nos Comunistas-Tupiniquins , são os mesmos métodos. e ainda TORRA dinheiro público na sua contenda de interesses COMUNISTAS.
    Será que ela pretende ATACAR as FALKLAND ???

  • Bruno Sampaio

    Por aqui já se usou a espionagem americana (nem me lembro mais qual foi o escândalo em que isso foi usado para abafar, é um por dia!) e agora os 50 anos do “golpe”, para abafar a sangria da Petrobrás.
    Cada país usa as Malvinas que pode…

  • Cau Marques

    A ferramenta de desvio de atenção que será usada em 2014 pela Dilma e o PT, será a Copa do Mundo. Por isso, temos que PERDER esta Copa.

  • Cau Marques

    Presidienta, vamos bailar um tango?

  • Kitty

    Meu caro Ricardo,
    Todo ano nesta data, 2 de abril, se arma o circo da guerra das Malvinas para distrair o povo dos verdadeiros problemas que o aflige.O discurso não muda, sempre se apela a emotividade que as mortes inúteis de jovens que foram levados a uma guerra sem preparação e os muitos NN que ainda não foram identificados. Nos governos dos Kirchners este tema foi sempre usado como bode expiatório para exaltar o nacionalismo que boa parte do povo argentino cultua e, esta data é propicia para isso. Como eu sempre digo, é um tapa buraco para distrair os atribulados argentinos dos verdadeiros problemas que enfrentam há tempo. A economia está a caminho do abismo e não se vislumbra uma melhoria. O povo que pode, continua comprando dólares como uma maneira de driblar a insistente inflação e, sobretudo, a falta de confiança na direção do país. Mas, Ricardo, não pense que todos os argentinos apoiam e festejam esta exaltação ao patriotismo. A maioria faz tempo que caiu na real a respeito da cantilena de que as “Malvinas são nossas” e estão pouco se importando se vão recuperá-las ou não. Mas, Cristina com a popularidade em baixa, uma inflação pra lá de resistente, industria estancada e o empobrecimento da classe media que, como sempre acontece, paga o pato dos devaneios e medidas esdruxulas na economia, usa este artificio demagógico para atrair a simpatia das pessoas e melhorar a sua imagem bastante prejudicada pelos sacrifícios econômicos que impuseram ao povo. Ela, com a popularidade em baixa,dificilmente conseguirá emplacar algum candidato. Nem o vice Boudou terá esta oportunidade, já que está envolvido em corrupção até o gogó. Não obstante este quadro negativo, ela não perde a pose e continua cutucar a Inglaterra sobre uma quase impossível devolução das ilhas. Mas, as Malvinas serão sempre um curinga útil para tirar o foco do desastre econômico do país!!
    Brilhante texto, Ricardo!. Comparto a sua indignação porque penso que tanto Argentina como o Brasil, estes dois grandes países, não merecem os governantes que temos..///Um forte abraço-Kitty

    Obrigado pelo “brilhante”, produto da bondade sua. No geral, concordo com tudo o que você diz sobre o governo argentino — e, no finzinho, sobre nossos governantes também.

  • Liane Sanchez

    As duas, Cristina e Dilma, as presidntas, desviam a atenção para o passado porque,com elas, os dois países não terão futuro!!!!

  • guilherme

    Sr Setti gostaria de recomentar o documentário “Acorde e Sinta o Cheiro das Flores” para quem quer saber um pouco sobre como vive e quem são as pessoas que residem as Falklands. http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/acorde-e-sinta-o-cheiro-das-flores/

  • Luiz

    Sugestão Cristina para recuperar as ilhas.
    l-Invadir a Ilha.
    2-Vencer uma guerra contra a Inglaterra.
    3-Vencer uma guerra contra os Estados Unidos.
    Como vê as coisas não são tão difíceis assim.

  • Razumikhin

    Lula falô qui num gósta duz “biutro”, prefere sertanejo e cachaça. Êeee nóiz…

  • Jairo Freire Fernandes

    Os problemas que passam os argentinos não são novidade não é de hoje ,na minha opinião independentemente se eles estão na merda por despreparo dos Kirchner , não dá pra não deixar passar em branco a questão das ilhas citadas e outros países invadidos há muito tempo atrás por essa maldita realeza britânica que não devolve de jeito nenhum e a ONU não dá nenhuma solução .

  • Paul

    Olhem que a Louca vai desfechar um novo ataque as ilhas ….

  • Antonio R. Melo Jr.

    Ilhas Malvinas?
    O Brasil produz várias por mês, para tentar abafar os vários escândalos que brotam aos montes no nosso governo e na nossa política.

  • João de Oliveira

    Quando é referendo nas colônias ocidentais, “…não se conhece forma melhor de decidir a soberania de um território do que consultando as pessoas que vivem nele.” Quando é na Crimeia, não vale. O ocidente é muito divertido.

  • geroldo zanon

    CRISTINA esta louquinha para levar outra surra

  • Luiz Ernesto Wanke

    A respeito da Guerra das Malvinas, acabo de lançar o livro ‘O Dia que Vimos Começar uma Guerra’ onde seu Ricardo é personagem… Gostaria de lhe enviar um exemplar gratuito. Como faze-lo?

    Caro professor, já lhe respondi antes. Peço a gentileza de enviar em meu nome para a Redação de VEJA — Editora Abril — Avenida Nações Unidas, 7221, 19º andar, CEP 05425-070.
    São Paulo, SP
    Muito obrigado!

  • danir

    Boa Noite Setti. Aproveitando a deixa de um leitor que confrontou a vontade popular no caso das Falkland e comparou com a Ucrânia, gostaria de deixar minha opinião. Acredito sim que as populações locais devam opinar e ter alguma influência nas decisões que envolvam soberania. Acontece que no caso das Falklands temos um território colonizado pelos ingleses, que não precisam exercer a força ou criar polêmicas para manter a soberania. Praticamente 100% do povo se considera inglês. Não querem deixar de ser ingleses. Já a Crimeia, apesar de ter uma maioria russa em seu território, politica e geograficamente faz parte da Ucrânia. Não é um território isolado. Num caso estamos falando de entregar um arquipélago para os reclamantes que como direito de posse só têm o argumento da proximidade geográfica sem nunca ter efetivamente gerido ou exercido soberania sobre a região por mais de 3 anos. A população não é etnicamente ou culturalmente relacionada à Argentina. O caso da Ucrânia me parece um pouco diferente, mesmo se considerarmos a opinião dos seus cidadãos. A Rússia só cogitou tomar conta do território da Criméia e usar da influencia étnica e do poder militar para tal, quando a Ucrânia como um todo, onde a maioria não é pro Rússia, manifestou o interesse de se ligar à comunidade Europeia. Creio que este detalhe por si só já diferencia os dois casos, e mostram a truculência russa na questão. Num caso uma potencia querelante contesta a posse quase bicentenária de um pequeno território, onde não tem influencia cultural ou étnica. No outro uma potencia agressiva reclama um território que é parte de um outro pais, aproveitando-se da existência de uma maioria simpatizante, e usando este pretexto para aplicar uma revanche punitiva contra sua determinação de passar para a esfera de influencia Europeia. Questão estratégica de projeção de poder. Definitivamente as duas situações são muito diversas e meu raciocínio simplificado não mostra todas as facetas da questão. Entretanto, acredito que o comentário do Sr. João de Oliveira (03/04 – 13:26) é de um primarismo atroz. De um lado temos a Argentina fazendo uma cortina de fumaça, para desviar a atenção dos inúmeros problemas que vive provocados por um governo incompetente. Do outro temos uma Rússia se valendo de uma maioria local para levar adiante um projeto hegemônico, que vem desde os tempos da União Soviética, que apesar de ter sido dissolvida, manteve toda a cúpula da KGB controlando as instituições. Nada a ver com a argentina combalida governada por uma criatura caquética. Realmente o ocidente é muito divertido; seguramente mais divertido do que qualquer pais Asiático com pretensões hegemônicas. Saudações.

  • Razumikhin

    Nào há dúvida que as Falklands sào inglesas.

  • IMMER TRUFF

    Na Argentina quando o governo começa falar em ILHAS
    MALVINAS, é porque a vaca esta indo aceleradamente para o brejo.

  • Camilo Castro

    Boa tarde Ricardo, com muito respeito vou discordar de parte da materia,(o desastre), e vou lhe fornecer alguns motivos.
    O salario minimo argentino é hoje em reais de R$ 1.300,00. a taxa de desemprego e de 7%. Uma passagem de onibus custa R$ 0,80, um kilo de pão R$ 2,30, uma pizza grande de boa qualidade R$ 16,00, um carro 0KM 40% menos que no Brasil, mensalidade de universidade R$ 0,00 pois na argentina estudamos de graça e sem vestibular, plano de saude similar ao mais completo do brasil R$ 210,00 ou pode frequentar o SUS argentino que é de um nível aceitável. Carne vacuna e laticinios 30 % menos que no Brasil, gasolina por litro R$ 2,20, etc.
    Semana passada sai jantar com amigos de SP em BS. AS. e acharam muito barato, pagamos R$ 120,00 inclusa a bebida num otimo local de comida peruana.
    Sabado cheguei ao Brasil e fui no mercado com minha esposa e depois jantar fora, se comparar tudo é muuuito mais caro que na Argentina (Buenos Aires). Não é dificil comprovar os dados que estou lhe informando.
    Grande Abraço.