O que vou contar neste post considero um erro jornalístico em que estive envolvido. Ajudei a projetar para o cenário nacional um político, Fernando Collor, sem a devida contrapartida de uma detalhada menção a sua trajetória antes de assumir o governo de Alagoas, em 1987, adotando uma política supostamente moralizadora que, em última instância, seria seu grande trunfo para alcançar a Presidência, em 1989.

Numa sexta-feira, no meio da tarde, na sucursal paulista do Jornal do Brasil, Augusto Nunes, diretor regional do JB, dirige-se a mim, que era seu segundo, como editor regional:

— Setti, marquei para amanhã uma entrevista com esse rapaz, o Fernando Collor, governador de Alagoas, e queria que você fosse comigo.

Augusto fizera várias reportagens em Alagoas durante seus 13 anos na revista Veja, mantinha muitas fontes entre políticos do Estado e obtivera sem dificuldades a entrevista com o então jovem governador de 37 anos.

Collor, ex-prefeito biônico de Maceió e ex-deputado federal pelo partido do regime militar, o PDS — ele votou em Paulo Maluf contra Tancredo Neves no Colégio Eleitoral –, se transferira para o PMDB e vencera as eleições de 1986 para o Palácio dos Martírios (muitos anos depois aposentado como Museu Floriano Peixoto).

Assumira o cargo havia menos de três semanas e começara atirando para todos os lados — tomando medidas para acabar com os supersalários no funcionalismo, ameaçando usineiros de açúcar devedores da Fazenda estadual, querendo cercar o até então imbatível “sindicato do crime” que infernizava a vida dos cidadãos…

A despeito disso, ainda não aparecera praticamente nada na mídia sobre seus primeiros movimentos. Augusto, corretamente, achou que se tratava de um bom assunto uma conversa com Collor e seus planos. A entrevista ficou acertada para a ampla casa no exclusivo bairro de Cidade Jardim do mais velho dos cinco irmãos do governador, Leopoldo, que vivia em São Paulo e dirigia a TV Globo paulista.

Para lá rumamos no sábado, 4 de abril de 1987. Conversamos com Collor por duas horas.

Terminada a entrevista — ele nos acompanhou até o portão da casa, onde Leopoldo não se encontrava — achamos, Augusto e eu, que o jovem governador parecia, efetivamente, cheio de boas intenções.

Uma coisa, porém, me impressionou mal: Collor passou a me chamar seguidamente de “meu amigo” meia hora depois de iniciada a conversa, e eu não era seu amigo. Aquilo me soou com um tom desagradável de adulação.

Por coincidência, três de meus irmãos tinham, efetivamente, tido contato com ele em Brasília. Eduardo, meu irmão número 3, futuro médico e portador do apelido de “Jacaré”, chegara de fato a ser amigo de Collor quando ambos estudavam no colégio experimental Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem), ligado à Universidade de Brasília — na verdade, o primeiro colega com que o rapaz transferido do Rio de Janeiro estabeleceu relações de amizade na nova escola.

E dois outros irmãos, Arnaldo Augusto, o número 2, futuro engenheiro, e Carlos, o número 4, que se tornaria sociólogo e jornalista, haviam praticado karatê com o já faixa-preta Collor durante um período. Eu, porém, jamais o encontrara anteriormente uma única vez, e só me lembro de haver mencionado meus irmãos no final da entrevista. Ele, por sinal, só se lembrava mesmo de “Jacaré”.

A reportagem, escrita a quatro mãos, mereceu chamada na primeira página do Jornal do Brasil do domingo, 5 de abril, como você pode verificar aqui, e tomou toda uma página daquela edição.

Pronto. Estava solto o rastilho. Menos de três semanas depois, no dia 22 de abril, a revista Veja, na página 5 da edição número 972, publicava uma entrevista com Collor em suas “Páginas Amarelas”, sob o título: “Vou acabar com os marajás”. O subtítulo dizia: “O governador de Alagoas fala de sua vitória contra os funcionários milionários e promete manter sua cruzada moralizadora”.

O entrevistador era o futuro autor de best-sellers sobre história do Brasil Laurentino Gomes.

A partir daí a mídia começou a dar cobertura positiva a Collor e, menos de um ano depois, em 23 de março de 1988, Veja publicaria a famosa capa que lhe conferia o título de “O Caçador de Marajás”.

A imprensa brasileira, com uma ou outra exceção, não escrutinou como deveria o passado e a atuação do político que se elegeria presidente da República em novembro do ano seguinte.

Quanto a esta primeira matéria positiva sobre Collor, considero que houve um erro nosso, de Augusto e meu, e do jornal: não checamos, com fontes independentes, se os fatos ali narrados correspondiam à verdade e, sobretudo, nem nós nem a reportagem do jornal — como ocorreria com a maior parte da imprensa –, não fizemos, mais adiante, uma investigação sobre como Collor realmente atuava como governador.

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