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Funcionários municipais de Barcelona utilizam o equipamento especial anti-chicletes: (Foto: elperiodico.com)

Barcelona está em guerra contra uma praga urbana que assola todas as cidades do mundo, não poupando praticamente nenhum espaço público: os chicletes arremessados por mastigadores sem cuidado.

É um inimigo poderoso: só na bela capital da Catalunha calcula-se que há espantosas 1,6 milhão de manchas de chicletes no solo — em calçadas, parques, praças, saguões de salas de espetáculos e onde mais se possa imaginar.

Os cálculos são do secretário municipal de Habitat Urbano, Antoni Vives, que, eufemisticamente, diz existir na cidade “um problema relacionado com os usos, costumes, civismo e responsabilidade dos barceloneses e turistas”.

Dentro do plano de limpeza regular de Barcelona, foi elaborado um projeto específico dedicado à praga dos chicletes esmagados — que se transformam, com a poeira e resíduos, em pontos negros típicos salpicados por toda parte — e a marcas mais duradoras, como manchas de óleo de veículos, deixadas no que se consideram “áreas mais emblemáticas” da cidade.

Com cuidados peculiares à tradição de sustentabilidade de Barcelona, as manchas são desfeitas com um equipamento novo, transportado por veículos especiais, que utiliza vapor de água expelido por alta pressão e detergentes biodegradáveis. O equipamento permite limpeza em profundidade, sem causar dano a superfícies de concreto ou pedra, e desfaz as manchas de chicletes, cujos resíduos são recolhidos.

Em sete meses, esse trabalho meticuloso e paciente já abrangeu 420 mil metros quadrados, o equivalente ao espaço ocupado por 50 campos de futebol com dimensões para partidas internacionais. Mais de 77 mil chicletes esmagados foram retirados. Cada mancha de chiclete custa à cidade 20 centavos de euro (62 centavos, no Brasil) para ser removida.

Esse cuidado todo é típico de Barcelona, que vem sendo bem administrada há décadas, independentemente do partido político do prefeito. Apesar da brutal crise que abate a economia da Espanha, Barcelona dispõe este ano, só para investimentos, de 300 milhões de euros em seus cofres (930 milhões de reais) — um belo orçamento para uma cidade de porte médio.

O bom andamento da gestão municipal prosseguiu mesmo diante do enorme movimento de turistas — um recorde previsto de mais de 7,2 milhões, até o final deste ano, o que a torna a 10ª cidade mais visitada do planeta, à frente da capital da Espanha, Madri, de destinos espanhóis fortíssimos como Palma de Mallorca, Ibiza ou Sevilha e de mecas de viajantes em outros países, como Roma e Viena.

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A nova praia de San Sebastiá, em Barcelona, com o hotel que é marco arquitetônico ao fundo (Foto: panoramio.com)

É uma cidade em que as ruas e avenidas são constantemente reformadas — não para aumentar o espaço dos automóveis, mas o dos pedestres. Em que o asfalto vai aos poucos sendo substituído por um revestimento de nova geração que diminui em 60% o ruído.

Que investe na inovação e na recuperação de áreas deterioradas — um exemplo é a Praia de San Sebastiá, uma área de lazer de 1 quilômetro de comprimento, com calçadão, palmeiras e esculturas onde antes existiam barracões apodrecidos e restos de construções portuárias e em cuja extremidade está plantado, agora, um dos marcos da arquitetura moderna na cidade, o hotel W. Criou-se a própria praia com areia trazida de outras áreas, pois ali existia antes uma estreita e suja faixa entre os prédios abandonados e o mar.

O respeito ao cidadão que paga impostos na capital da Catalunha chega a detalhes impensáveis mesmo em outras urbes do Primeiro Mundo.

Um exemplo que diz tudo: nos pequenos canteiros de onde foram removidas árvores, ou naqueles abertos para plantar novas, enquanto não chega a respectiva muda cola-se um aviso no chão, em pequenas placas metálicas, informando que o local está vazio porque a Prefeitura aguarda a época propícia (o mês tal ou qual) para o plantio.

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5 Comentários

Alexandre Rodrigues Barbosa em 05 de outubro de 2013

Tudo deve começar com a conscientização de crianças e adultos. Jogar chiclete ao chão atenta contra a cidadania e contra o patrimônio público.

Luiz C. em 02 de outubro de 2013

A maior praga no Brasil é o toco de cigarro atirado nas ruas; 99% dos fumantes acham que não é lixo.

JT em 02 de outubro de 2013

Pisar num chiclete recém lançado na rua é tão chato quanto esmagar estrume de cachorro. Dá vontade de jogar o sapato fora. Mais chato do que isso é ver um garboso sedan na sua frente, com janelas negras, despejando embalagens de biscoitos e latinhas de refrigerante na rua, sabendo que o elemento nasceu no mesmo país que você, teve dinheiro para comprar um carrão, mas não recebeu um pingo de educação. Para esse tipo de coisa não tem planejamento urbano e investimento que dê jeito.

Leonardo Saade em 02 de outubro de 2013

Um belo exemplo de cidade de Barcelona, que mesmo com os problemas econômicos da Espanha, o serviço público não deixa de fazer suas obrigações. A linda Barcelona não faz inveja nos brasileiros apenas pela beleza da cidade, mas também pela sua organização.

Ismael Pescarini em 01 de outubro de 2013

Cara, pode anotar aí, além das baratas, o fim do mundo terá como herança arqueológica para a espécie que nos sucederá, as bitucas de cigarro e as manchas de chiclete. Um mistério para o futuro.

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