Image
Mercenários franceses e sérvios em ação na África: elemento comum na paisagem de países conturbados (Foto: Corbis/Sygma)

Por razões de família, estou em Barcelona. Aqui, recebi um telefonema de um conhecido, empresário brasileiro há muitos anos atuando no exterior, especialmente — mas não apenas — na África. Queria se encontrar comigo para saber notícias do país.

Fui encontrá-lo no Hotel Rey Juan Carlos I, não novinho em folha, mas ainda muito luxuoso. Estava em conferência com funcionários e assessores e interrompeu para tomarmos um café demorado.

Vejam só a tarefa que ele tem diante de si.

Uma multinacional de petróleo precisa levar um equipamento de alta tecnologia para Cabinda, a região de Angola riquíssima em petróleo, que fica encravada no Congo e separada do restante do país por uma estreita faixa de território congolês.

Ocorre, porém, que o porto de Cabinda não tem calado suficiente para navios de porte.  É, pois, necessário que o material, que sairá do porto de Barcelona, seja descarregado em um determinado porto do Congo — país imenso, riquíssimo em recursos minerais mas com um nível miserável de vida, que se encontra há anos à deriva, com um governo que não controla nada e à mercê de senhores da guerra, bandoleiros e a sanha de variados interesses estrangeiros.

O primeiro problema a resolver, diante disso, foi alugar, na Alemanha, containers especiais para o transporte do material — são containers anti-bomba, capazes de resistir a impactos muito poderosos. Feito isso, a carga deixou o porto de Hamburgo e chegou a Barcelona. Da cidade, irá para esse porto no litoral do Congo.

Até aí tudo bem, mas vai chegar a hora do grande problema do empresário: a viagem a ser feita, por terra, desse porto até o território de Cabinda, atravessando terreno muito perigoso no Congo. Além da desordem que vigora no país e dos bandos de criminosos armados, há por ali guerrilheiros — apesar de que oficialmente depuseram as armas, militantes da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) ainda dão trabalho.

O empresário brasileiro, então, vai precisar de proteção para o transporte da encomenda — e, numa terra de ninguém como aquela, a última coisa em que se pensa é pedir algum tipo de proteção ao caótico governo do presidente Laurent Kabila. Ali, proteção chama-se mercenários. Sim, ex-soldados experientes, muitos de passado nebuloso, dotados de armamento poderoso e dispostos, se necessário, a arriscar a vida e a matar. No caso, mercenários australianos, a cujos serviços ele já precisou recorrer anteriormente, para outra empreitada.

Mercenários são algo inteiramente natural e frequente na paisagem dos países africanos mais convulsionados. A maioria vem da ex-Iugoslávia — sérvios, croatas, bósnios, kosovares, gente que já travou guerras duras nos anos 90 e hoje vende sua expertise nessa área sinistra. Existem, porém, ex-soldados profissionais de outros países, que decidiram deixar seus uniformes, vestir outros, correr mais riscos e ganhar mais dinheiro, e entraram para a carreira. Muitos deles fazem contatos com interessados por meio da revista especializada Soldiers of Fortune.

Mesmo com mercenários, havia, para o empresário brasileiro, muito em risco — o material em questão vale mais de 10 milhões de dólares. Assim sendo, ele preparava, com especialistas, um levantamento da área a ser percorrida em terra por meio de drones, pequenos aviões não tripulados, dotados de câmeras de alta definição.

Quanto nos despedimos, ele dava tratos à bola, além de tudo, sobre quantas viagens fazer com a carga: de uma só vez, correndo o risco — na pior das hipóteses — de perder todo o material? Fazer diversas viagens, correndo, assim, várias vezes o mesmo risco?

Se tudo der certo, a empresa desse brasileiro vai ganhar honorários respeitabilíssimos. Vejam só, porém, o trabalho e o tamanho do stress que a tarefa toda estão requerendo.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 − dois =

9 Comentários

Zé de Tremembé em 11 de agosto de 2014

Ricardo, a divisão da carga, já que em containers, em mais de um navio me pareceria uma boa solução também. Agora, a sua descrição da situação da Africa, de estar à mercê de uma "elite" que mantem seu povo na ignorância e tal e o manipula... me parece um caminho para o qual estávamos (estaremos?) a caminhar por aqui... sempre descendo a ladeira.

Marcos em 11 de agosto de 2014

Ô Sócrates, larga mão desse papinho "anti-rico". "explorar riqueza de nação alheia...", se orienta cara.

Sócrates em 10 de agosto de 2014

Bem vindos ao mundo real. Empresário sai de seu paíszinho de origem para explorar a riqueza de nação alheia e quer que tudo seja mamata como aqui? Vai pensando... O que ocorre lá na África, na Ásia e América Central deixa os bacanas brasileiros borrando as calças. Mas aqui também é assim. Esses brasileiros abonados desconhecem o Brasil real, onde a miséria não tem dó de ninguém, onde o esgoto corre aos seus pés em meio a lama. Para os "bacanas" é muito fácil ver o "mundo do faz-de-conta" através de uma janela blindada cercado de mercenários (seguranças).

Marcelo Silva em 10 de agosto de 2014

Basta fazer o transbordo dos containers para navios menores que tenham calado pra entra no porto. Carga de Usd 10 milhões não é nada tão valioso assim pra uma multi- nacional do petróleo . Estória estranha... Não tem nada de estranha, não, e a carga NÃO é de uma multinacional de petróleo, mas PARA ela. Leia o post direito, meu caro, por gentileza.

DIZ em 17 de abril de 2014

Aqui no Brasil do PT,nós temos a "saidinha do Banco", tão perigosa como viajar pelo Congo-Africa.

Rod em 16 de abril de 2014

Ricardo, uma dúvida, acho que ingênua e ignorante de minha parte. Por que até hoje o continente africano não é capaz de resolver os seus problemas? por acaso são "explorados" até hoje? Para responder a sua pergunta, eu precisaria escrever um tratado. A corrupção das elites, a manutenção proposital do povo na ignorância por falta de acesso ao ensino, as divisões tribais que ainda prejudicam o sentimento mínimo de unidade nacional etc etc. Os governos corruptos volta e meia culpam o processo colonial por tudo, mas ele acabou há mais de meio século e a maioria dos países não sai das péssimas condições de vida em que vegeta seu povo. Há exceções, claro, como a África do Sul, que vai muito bem -- o que não significa que não tenha problemas. Trata-se, porém, de um longo processo, que demandaria não uma resposta num blog, mas um livro inteiro, ou mais de um.

Tuco em 15 de abril de 2014

Não publico ofensas, insultos ou xingamentos contra quem quer que seja.

Bruno Sampaio em 15 de abril de 2014

É isso que dá um continente praticamente inteiro entregue a governos de "esquerda", corruptos e populistas, como de hábito. O resultado é sempre o mesmo. E o mais bacana é que a culpa nunca é dos governantes, mas dos Estados UNidos! Que moleza, hein?

Marco em 14 de abril de 2014

D. Setti, é isso aí mesmo, a economia por lá é quase de subsistência. É organização social militar sempre em conflitos,é uma realidade muito dura para investimentos em atividades.Essa é a realidade, um amigo camaronês , me disse sobre uma curiosidade social, q o sul africano, primeiro transa e depois namora ou casa, pq na cultura deles, se não houver química sexual, o casamento não vai dar certo. Perguntei para ele se esse era o motivo de se ter tantos filhos por lá, ele disse q poderia ser sim. Mas Setti, avisa o teu amigo empresário, q tb torça para não chover q tudo vira lama por lá. Abs.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI