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Stuart Sutcliffe, o quinto Beatle (Foto: provavelmente Astrid Kirchherr)

Por Daniel Setti

Por ter produzido todos os discos dos Beatles, George Martin é frequentemente chamado de “o quinto Beatle”. O mesmo apelido já recaiu sobre o organista Billy Preston (1946-2006), único músico convidado a dividir o palco com a banda.

Tecnicamente, porém, o “quinto bealte” autêntico foi mesmo o escocês Stuart Fergusson Victor Sutcliffe, que no começo de 1960 recebeu de John Lennon, seu companheiro de apartamento e de estudos na Liverpool School of Art, convite para ser o baixista da banda, então composta também por Paul McCartney (que só depois passaria da guitarra para o baixo) e George Harrison, e que ele ajudou a rebatizar do anterior The Quarrymen para The Silver Beetles (ou The Silver Beats, The Silver Beatles, entre outras variações, dependendo do show).

Com a subsequente entrada do baterista Pete Best – o incrivelmente azarado antecessor de Ringo Starr -, a primeira formação do que se transformaria nos Beatles estava completa e o então quinteto partiria, em agosto do mesmo ano, para quatro meses de exaustivo trabalho em casas noturnas de Hamburgo, Alemanha.

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Os futuros Beatles, em Hamburgo, 1960. A partir da esquerda; Pete Best, George Harrison, John Lennon, Paul McCartney, Stuart Sutcliffe (Foto: Astrid Kirchherr)

Músico fraco, artista promissor

Testemunhas que acompanharam a trupe neste período são unânimes em afirmar que Stuart não tocava nada – a ponto de se apresentar de costas ao público, envergonhado – e que só havia entrado para a turma por sua proximidade a Lennon. E porque tinha estilo de sobra: belo como James Dean, Sutcliffe era um menino-prodígio das artes plásticas, e seu apreço pela estética acabou influenciando muito os colegas de banda, sobretudo John.

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Show da banda em Hamburgo: Stuart tocando de costas era algo normal

A íntima relação entre os dois jovens, o pouco talento de Stuart para a música, o clima de sexo, drogas e rock and roll dos dias em Hamburgo e a paixão do quinto Bealte pela descolada fotógrafa germânica Astrid Kirchherr (com quem protagonizou triângulo amoroso envolvendo John e a quem atribui-se a o novo penteado moptop do grupo) são relatados no divertido filme Backbeat (No Brasil, Os Cinco Rapazes de Liverpool), de 1994. Abaixo, o trailer, infelizmente sem legendas:

O longa, dirigido por Ian Softley, mostra também a saída de Stuart (interpretado por Stephen Dorff) dos Beatles, preferindo permanecer em Hamburgo na companhia de Astrid – para aborrecimento de John e alívio de Paul, com quem chegara a trocar sopapos no palco – e o triste fim de sua vida, em 10 de abril de 1962, sofrendo aneurisma cerebral aos 21 anos.

Dois meses depois sua ex-banda gravaria o seu primeiro single oficial, contendo “Love Me Do” no lado A e “P.S. I Love You” no lado B.

Pergunta sem resposta

Embora não tenha sido a morte prematura de Stuart o motivo de sua debandada dos Beatles, é curioso tentar imaginar o que teria sido da banda caso ele houvesse continuado. Paul aguentaria? Eles fariam sucesso? Como o alto nível musical do grupo sobreviveria com um “ponto fraco”?

Nunca saberemos. Mas uma coisa é certa: Stuart Sutcliffe antecipou em pelo menos seis anos o flerte dos Beatles – um conjunto de garotos simples da obscura Liverpool que gostavam de rock and roll –  com as tendências arty, musicais e extra-musicais, que o quarteto assumiria a partir do álbum Revolver (1966).

Stuart inclusive foi devidamente homenageado pelos ex-companheiros nestes termos: sua imagem é a primeira à esquerda na terceira fila (de cima para baixo) na lendária capa de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967).

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Na capa de “Sgt. Peppers”, a imagem de Stuart Sutcliffe é primeira à esquerda na terceira fila (de cima para baixo)

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3 Comentários

And. em 21 de setembro de 2014

Tocar de costas para o publico era normal? Imagino que esse detalhe atraiu muitos curiosos,ele entrou para os quarryman a pedido do John,mas seu verdadeiro sonho eram as artes plásticas...E essa briga que ele supostamente teve com o jonh,acho mais facil ter sido com o Paul "Com quem chegara a trocar sopapos no palco" ja que Stu e John eram muito amigos,talvez esses boatos manchariam a imagem de "bom moço" do paul,mas fico feliz por udo ter sido devidamente esclarecido,e quanto ao seu destino,acho que no futuro tinha que ser assim,ele fez o que gostava e correu atras do seu verdadeiro sonho.

JT em 10 de abril de 2012

Os Beatles fizeram amigos em Hamburgo que o acompanharam pela carreira de sucesso e mesmo depois do fim da nada. A capa do Revolver e da antologia dos anos 90 foi feita por Klaus Voormann. Já o Pete Best não é tão azarado: após receber os direitos autorais por músicas lançadas no mesmo projeto antologia, ele ganhou alguns milhões, mas com a vantagem de poder andar na rua sossegado. Jean, quanto a este último ponto, não poderia concordar mais: os outros quatro de fato nunca mais puderam sair na rua. Abraços, Daniel

Vera Scheidemann em 10 de abril de 2012

História incrível ! Tocar de costas para a platéia... que coisa ! Vera

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