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Manifestantes sírios: mais de 6 meses de confrontos violent0s contra a ditadura

Amigos, o Brasil está, finalmente, exercendo um papel construtivo na crise síria – se chamarmos de crise um governo ditatorial que reprime e massacra os manifestantes que pedem liberdade.

Em contraste com a prolongada omissão do lulalato diante da barbárie do regime sírio, o governo brasileiro tem participado de esforços conjuntos para pressionar, ainda que moderadamente, a ditadura de Bashar Assad.

Hoje, quinta-feira, os governos de Brasil, Índia e África do Sul pediram ao ditador Assad “moderação” e respeito aos direitos humanos em meio aos protestos que se arrastam desde o começo do ano, segundo um comunicado conjunto divulgado pelo ministério indiano das Relações Exteriores.

Na véspera, durante reunião com uma delegação de membros não-permanentes do Conselho de Segurança da ONU integrada pelo agora chamado grupo IBAS — iniciais dos nomes das três democracias emergentes — Assad havia eufemisticamente admitido que suas forças de segurança cometeram “alguns erros”.

Depois de seis meses de protestos, 2 mil mortos na rua, um imenso número de presos cujo total o governo nunca confirma, gostaria de relembrar alguns aspectos do Estado policial sírio, razão dos protestos que se alastraram por dezenas de cidades:

* O governo é há quase 50 anos, desde 1963, uma ditadura de partido único, o partido “socialista árabe” Baath, que de socialista não tem nada. Diante da intensidade dos protestos, Assad acaba de proclamar o multipartidarismo. Com censura à imprensa, controle absoluto da TV e um aparelho repressor de dentes afiados, fica difícil acreditar que a oposição, em grande parte no exílio ou no cárcere, se disponha a fundar partidos com Assad no comando.

* O governo passou de pai para filho, como em monarquias absolutistas: Bashar, um médico formado na Europa sem qualquer experiência na política, herdou em 2000 o poder quando o pai, Hafez Assad, morreu. Hafez Assad, quando general e ministro da Defesa, assumira o governo por meio de um golpe de Estado 30 anos antes.

* Há pelo menos 10 mil presos políticos na Síria – dissidentes pró-democracia, militantes radicais islâmicos, professores, escritores e jornalistas –, a maior parte deles numa prisão na cidade de Sednaya, no oeste, junto à fronteira com o Líbano. Em 2008, uma rebelião em Sednaya provocou a morte de uma centena de prisioneiros. O regime prisional ali é um inferno: os presos não têm acesso a tratamento médico nem à visita de parentes, e a tortura é uma rotina.

* A Síria tem 22,5 milhões de habitantes, e acredita-se que 2% da população (de 400 a 500 mil pessoas) integre o contingente de informantes do regime, segundo Waloid Saffour, presidente do Comitê Sírio de Direitos Humanos (SHRC).

* Há 250 mil sírios vivendo no exílio, em grande parte por razões políticas.

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Na Síria, manifestantes vão às ruas pedindo liberdae

* Por volta de 300 mil sírios da etnia curda do norte da Síria não tinham direito à cidadania, o que os impedia de adquirir propriedades, casar-se segundo as leis nacionais, ser funcionários públicos ou ser atendidos pela rede pública de saúde. Seu crime: fazerem parte dos curdos que, há 50 anos, não puderam comprovar com documentos que viviam no país desde 1946, ano em que a Síria tornou-se independente da França, ou serem descendentes deles. Com a revolta popular, Assad assinou em abril um decreto concedendo cidadania aos curdos, mas ainda resta saber como e quando as medidas práticas virão.

* 40 mil pessoas foram massacradas no período entre 1979 e 1982 pelo governo de Assad pai, durante levantes ocorridos em várias cidades. Até hoje, ninguém foi punido.

* Desde 1963 o país vivia oficialmente em estado de exceção – que permitia virtualmente qualquer ação às forças de segurança. O ditador Bashar Assad tecnicamente o revogou em março, mas os massacres de manifestantes, com o Exército atirando em multidões com munição real, mostra que nada mudou na prática.

* A família Assad, corrupta até a raiz dos cabelos, controla setores inteiros da economia do país, razão pela qual o governo impede notícias sobre corrupção na mídia e pune quem consegue divulgá-las por outros meios.

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8 Comentários

Silvinho em 12 de agosto de 2011

Eu acho que o noso governo está mais interessado é em saber exatamente como funciona lá o regime de excessão, para poderem tirar proveito em suas intuições, de tornar aqui uma ditadura exponencial, pois essa sempre foi a meta da organização criminosa atualmente no poder.

Tuco em 11 de agosto de 2011

. Beleza, meu amigo Tuco. E daí? Nada não, apenas para constar. .

Jeremias-no-deserto em 11 de agosto de 2011

Alguém, em sã consciência, pode crer que paises como o Brasil, a Ìndia e a Àfrica do Sul possam exercer alguma influência sobre esse conflito? Assad é o ditador sanguinário de plantão nessa dinastia que governa a Síria manu militari há décadas. É conhecido pela sua crueldade: milhares mofam nas cadeias sírias e pelo menos duas mil pessoas já morrerram assassinadas nas ruas.Apenas mais uma teatralização do Itamaraty, sequioso de aparecer como protagonista nas grandes decisões internacionais e um ótimo pretexto para o ditador Assad posar como estadista que, afinal, conta com parceiros no mundo comk os quais pode "discutir" a sua atuação política. Não se trata de acreditar ou não, amigo Jeremias. Os três países cumpriram missão do Conselho de Segurança da ONU. Abração

Lís em 11 de agosto de 2011

Caro Sr. Setti, estive em Damasco em maio e abril quando alguns conflitos estavam a ocorrer e por vezes a internet e electricidade "falhavam". Para mim, o mais estranho foi escutar categoricamente dos meus amigos sírios de várias camadas sociais que eles gostam do presidente, mas não de quem está à volta dele. A verdade é que hoje em dia dificilmente consigo falar com um deles por telefone: escuto do outro lado sempre músicas que foram feitas neste período a favor do presidente; conexão via internet ficou limitada há alguns minutos por dia; cartas e encomendas enviadas por correio não chegam ao destinatário. Sinto uma enorme angústia em ver esta terra linda com uma importância histórica única - alé de ser um lugar com pessoas extremamente gentis, sempre dispostos a ajudar, curdos a conviver com alawitas, sunitas e xiitas juntos num café ou a fazer compras no souqr - ser destruída estruturalmente e socialmente por alguém que só parece não ter coragem para assumir que é hora de partir. Por outro lado, não se vê movimentos concretos da minoria oposicionista a oferecer um outro caminho e quando pergunto para meus amigos, se o presidente sair quais são as opções deles, simplesmente não me dão resposta.

Tuco em 11 de agosto de 2011

. Grande RSetti, teu vizinho de redação não vê com bons olhos a posição do Itamaraty ante a questão... http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-brasil-e-a-siria-mais-uma-vez-o-itamaraty-mete-os-pes-pelas-maos/ Beleza, meu amigo Tuco. E daí?

Corinthians em 11 de agosto de 2011

Setti, Infelizmente sou obrigado a discordar novamente. A maioria dos países da ONU queriam uma resolução, mas Brasil e África do Sul principalmente fizeram uma articulação para que fosse somente feita uma declaração. Agora o Brasil, além de elogiar o "esforço" de Assad para "promover reformas políticas", é usado pelo governo da Síria para propaganda do governo Sírio. Concordo, existem grupos armados também do lado dos opositores, mas eles, além de serem minoria, não promoveram massacres.

Paulo Bento Bandarra em 11 de agosto de 2011

Realmente mudou bastante. Foram pedir que não batam e matem em público. E se tiver que bater, depois assoprem! Tudo para ficar como está o poder!

Reynaldo-BH em 11 de agosto de 2011

Talvez eu seja somente um otimista. Talvez eu valorize muito a área onde atuo. Talvez o fato da jornada estar chegando ao fim me faça esperançoso no que podemos deixar. Há uma frase que já se tornou célebre: "Se não pudermos deixar um mundo melhor para nossos filhos, que deixemos filhos melhores para nosso mundo!" Nada na vida é igual. Já nos ensinava a filosofia, que cada fato tem que ser analisado no tempo e espaço. Onde e quando. Em Londres, as manifestações iniciais poderiam ser - e creio mesmo que eram - justas. Hoje são somente saques combinados pela redes sociais. É a outra face do que aconteceu no Egito, na Espanha e agora na Síria. A WEB vai derrubar regimes? Não creio. E se vier a derrubar, não saberia o que por no lugar. Mas é um instrumento de mobilização que jamais existiu! De divulgação como nunca antes. Os assassinos da Síria, e não consigo encontrar outra adjetivação, sabem que são vigiados e acompanhados por mensagens instantâneas, SMS´s, tweets, fotos e vídeos feitos a partir de celulares. O campo de manobra diminuiu. O lulalato nunca se deu conta disto. Tentou experiências tacanhas com "olá internautas!" de Dilma e ficou por aí. Menos mal que tenhamos agora um novo cenário. Seja por convicção ou por falta dela, mas cobrada por uma comunidade atenta e atuante, mesmo que à distância. É um mundo novo! Que TODOS NÓS tomemos consciência disto. É uma nova força. Uma maneira revolucionária de exercer a cidadania. De demonstrar solidariedade. Que até pode forçar governos anestesiados a agirem ou se posicionarem, de acordo com a vontade da nação.

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