Está fazendo 20 anos. Corria 1968, os estudantes ocupavam as ruas, a ditadura do AI-5 estava a meses de abater-se sobre as cabeças dos brasileiros e o Congresso ensaiava rebelar-se, preparando a confrontação com o governo militar que pretendia processar o então deputado Márcio Moreira Alves. O engenheiro Leonel Brizola, de seu exílio no Uruguai, mandava avisar, metafórico: “Se antes eu tocava de ouvido, agora estou aprendendo música”.

Na ótica paranóica dos chefes militares brasileiros, era a visão do capeta – o ex-governador gaúcho seria uma espécie de líder bolchevique de bombachas, poncho nos ombros e cuia de chimarrão às mãos, lendo Marx, Engels e Lenin e prestes a assaltar o Palácio, não o de inverno dos Romanoffs da Rússia, mas o da Alvorada, no cerrado de Brasília.

Dez anos depois era um Brizola polido que, num furo de reportagem, o repórter Ewaldo Dantas Ferreira colocava pela primeira vez na televisão brasileira pós-64, numa histórica entrevista feita para a Rede Bandeirantes com o célebre exilado, em Paris. Lá pelas tantas, lembrando-se da afirmação de uma década antes segundo a qual Brizola passara a “aprender música” para fazer política, e tentando descobrir o que até hoje ninguém conseguiu decifrar – que diabo é, afinal, o “Socialismo Moreno” do ex-governador – Ewaldo perguntou o que Brizola andava lendo.

Quais seriam os autores em que o ex-governador, supostamente há 14 anos entregue sobretudo a leituras transcendentais e pesadas meditações, andava bebendo suas ideias agora social-democratas? Brizola embatucou – caso raro em sua carreira de bonachice falastrona. Uma, duas, três estocadas do repórter, e nada: Brizola não conseguiu arriscar um título de livro, um autor, sequer uma citação de artigo de jornal para responder à pergunta. 

Agora, dez anos depois da entrevista e 20 decorridos desde a época de aprendizado musical, empresários que têm participado de encontros privados com Brizola em vários Estados estão se dando conta da mesma coisa: o homem, fora generalidades, não tem o que dizer. Além de falar mal do governo e fazer alianças com quem aparecer disposto a empunhar uma bandeira de seu partido, o PDT, Brizola não ofereceu, até agora, uma única ideia consistente a respeito do que fazer com a colossal crise brasileira.

Não se conhece uma singela proposta que seja do ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio para enfrentar questões como a dívida externa, o déficit público, a inflação e a estagnação econômica, ou para resgatar a imensa dívida social que as classes dirigentes do país acumularam para com seus deserdados, fazer a reforma agrária, lidar com o capital estrangeiro, encarar a questão da deterioração urbana e equilibrar os desníveis nacionais. A lista é interminável.

Pode-se responder que Brizola, homem pragmático que é, mostrou o que pensa e como vê o mundo com atos concretos em seu período de governador do Rio, entre 1983 e 1987. Se for assim, Deus nos livre de suas ideias. Excetuados os Cieps como forma de educação de massa – concepção, aliás, que não é dele propriamente, mas do professor Darcy Ribeiro e do arquiteto Oscar Niemeyer –, o saldo que o ex-governador deixou no Rio foi a deterioração da cidade e o abandono do interior, a alegre convivência da lei com a contravenção, a falência do Banerj e, na política, uma trajetória confusa, oportunista e desconcertante que o colocou, a certa altura, defendendo a prorrogação do mandato do general João Figueiredo e se opondo à eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral.

Um currículo assim não sai barato. Os que erigiram Brizola em fantasma deveriam olhar mais para as realidades que o ex-governador vai ter que enfrentar numa campanha eleitoral para a Presidência antes de dá-lo como eleito. Em primeiro lugar, não são desprezíveis os adversários que se colocam no horizonte de Brizola – do governador Orestes Quércia a algum nome conservador de prestígio, que vão tomar-lhe votos na classe média, passando por um “tucano” como o senador Mário Covas ou Lula, do PT, que vão tungar-lhe votos à esquerda, junto aos trabalhadores e a setores do chamado movimento social. Em segundo lugar, o PDT é um saco de gatos vulnerável e desorganizado, e não tem estrutura nacional.

Além disso, a força do esquema dos governadores não pode ser esquecida – e eles vão trabalhar, cada um a seu modo, contra o engenheiro. Não é só: nas pesquisas de opinião, Brizola ainda não assustou – não conseguiu chegar nem à metade do prestígio popular de Sílvio Santos, por exemplo. Finalmente, Brizola é fraco em São Paulo – quem não se lembra do recente episódio em que não foi reconhecido ao caminhar pelas ruas do Centro e, nos poucos casos em que foi, acabou sendo vaiado? Sem São Paulo, com um quarto do eleitorado brasileiro, ninguém chega ao Planalto pelo voto.

Tudo isso recomenda que pelo menos não se exagere ao se falar no suposto favoritismo disparado de Brizola como candidato, e da força incoercível que teriam suas argumentações na televisão – onde, aliás, na última vez em que mediu forças com um debatedor de porte (o ex-governador Franco Montoro), não conseguiu mais que um empate apagado. Até hoje, ninguém ganhou eleição na véspera.

Image
Documento original © Reprodução; Ilustração: Nicoliéllo

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

vinte + dezenove =

TWITTER DO SETTI