Quem cravar nesta quarta-feira um X no quadradinho nº 20 da cédula eleitoral, correspondente a Fernando Collor de Mello, estará votando numa caixa preta.

Talvez o cidadão esteja pensando em eleger o baluarte da modernidade, portador de um programa de governo francamente social-democrata que poucos leram e muitos criticaram. Só que estará, também, escolhendo o candidato que reuniu em torno de si boa parte da fatia mais reacionária da política brasileira, abrigada à sua sombra justamente para que tudo fique exatamente como está.

É provável que o eleitor risque o 20 em busca do renovador de costumes políticos que fustigou duramente o governo José Sarney – mas, ao votar assim, igualmente contribui para levar ao Planalto o candidato apoiado por uma legião de oportunistas que se aninhou no Centrão durante a Constituinte, votou nos cinco anos de mandato para o presidente e só colloriu para manter-se à tona.

Votando em Collor, o brasileiro pode ter-se deixado tocar pelo homem que se apresentou como paladino “dos pés descalços, dos descamisados” – o que é apenas uma possibilidade, contraposta à certeza de ser ele o candidato de um poderoso entre os poderosos, o empresário Roberto Marinho, proprietário da Rede Globo de Televisão.

Por um peculiaríssimo conjunto de características da política brasileira, o conteúdo exato da caixa preta Fernando Collor só será conhecido depois que – e se – ele colocar a faixa presidencial sobre o peito. As pegadas de Collor na campanha não fornecem uma pista clara a respeito, sobretudo se confrontadas com passagens de sua biografia política.

Sofisticação

A campanha propriamente dita, pirotécnica, espetaculosa, profissionalíssima e milionária, com um volume muito maior de acertos do que de erros do ponto de vista de quem quer ter votos, seria um indicador de competência – uma operação que desceu a minúcias de estilo americano. Em boa parte dos palanques de Collor espalhados pelos 26 Estados onde o candidato esteve, por exemplo, conseguiu-se instalar um telefone para contatos de emergência. Os computadores da CAP Software, empresa de informática de Brasília que presta serviços a Collor, eram capazes de, a qualquer momento, fornecer virtualmente o que o candidato quisesse em matéria de informação sobre os concorrentes – da opinião de Leonel Brizola, do PDT, sobre a homossexualidade aos projetos que Mario Covas, do PSDB, apresentou quando era deputado na legislatura de 1963 a 1967. Quase tudo, na campanha, foi nessa linha.

Essa imagem de eficiência, porém, pode ser comparada aos discutíveis resultados dos 26 meses que Collor passou à frente do governo de Alagoas. O ex-governador atribuiu suas limitadas realizações ao boicote do governo federal, a dificuldades políticas com a Assembléia Legislativa ou à pesada, tenebrosa herança que recebeu das administrações anteriores. Transpostas para o cenário que vai esperar o próximo presidente em Brasília, no entanto, as atribulações alagoanas terão a leveza de uma excursão à Disney World.

De todo modo, o período como inquilino do Palácio Floriano Peixoto, em Maceió, fornece também alguns elementos favoráveis sobre o que seria um presidente Collor. Um deles: dos 23 governadores eleitos em 1986, Collor foi o único que não mandava emissários para negociar a rolagem da dívida de 60 milhões de dólares de Alagoas para com o governo federal. A cada vez que uma delegação alagoana se dirigia à Secretaria do Tesouro com esse objetivo, lá estava, pessoalmente empenhado, também o governador. Foi nessa ocasião, por sinal, que ele travou conhecimento com a economista Zélia Cardoso de Mello, então membro do time do secretário Andrea Calabi e hoje coordenadora da equipe que formula o programa Collor do governo.

Nem todos que estão com Collor, claro, foram a ele por via semelhante. É o caso, por exemplo, do empresário Roberto Marinho, seu aliado de mais peso nos dois sentidos – o que lhe empresta o apoio mais decisivo em matéria de divulgação e o que trouxe, inegavelmente, o maior ônus político para a imagem de independência que o candidato quis projetar. Marinho foi a Collor obviamente guiado por seu agudo instinto de sobrevivência, e essa é uma das poucas constatações sobre a qual aliados e inimigos do candidato concordam em relação ao caso.

No mais, há um rosário de desinformação e equívocos sobre a conexão Collor-Marinho – a começar pelo mito de que Collor é um produto da mídia, que chegou aonde chegou por desígnios da Rede Globo. Isso simplesmente não ocorreu, e é até cronologicamente constatável.

Ligação formal

Na fase final de seu governo em Alagoas, já no início deste ano de 1989, inequivocamente candidato à Presidência, Collor tinha dificuldade de acesso a Roberto Marinho. Quando visitava a sede do jornal O Globo ou da Rede Globo, no Rio, era recebido apenas com cordialidade formal, embora tivesse uma ligação antiga com Marinho, que foi amigo de seu falecido pai, Arnon de Mello, dono de uma estação de TV em Maceió ainda hoje repetidora da Globo.

O hoje “candidato da Globo” teve até que recorrer a um jornalista da redação de O Globo para se aproximar mais de Marinho e dos três filhos. Na ocasião, pelo menos um dos irmãos Marinho queixou-se da “excessiva bajulação” de Collor.

Roberto Marinho teve várias preferências antes de fixar-se em Collor e, quando o fez definitivamente, em junho, o ex-governador de Alagoas já tinha pulado há dois meses para a posição de favorito nas pesquisas sobre intenção de voto. O dono da Globo flertou com Aureliano Chaves, do PFL; esteve na canoa de Ulysses Guimarães, do PMDB, até ficar clara a sua inviabilidade; apostou fortemente no governador paulista Orestes Quércia até que Ulysses venceu a convenção pemedebista em abril; finalmente, através de seu eterno articulador, o advogado Jorge Serpa, tentou ressuscitar a opção Jânio Quadros.

Até mesmo a alternativa do tucano Mario Covas, objeto da simpatia dos filhos de Marinho, foi esboçada. Serpa chegou a levar aos tucanos o nome do banqueiro Eduardo de Magalhães Pinto, do Banco Nacional, como candidato a vice de Covas.

Família da primeira mulher dá a maior força ao candidato

– O nome Magalhães Pinto une Minas – argumentava o advogado, numa referência ao ex-chanceler e ex-governador mineiro José de Magalhães Pinto, pai de Eduardo. A gestão fracassou: o nome do banqueiro não entusiasmou ninguém, e o próprio Eduardo não se interessou pela hipótese. A possibilidade Covas ainda era viável na época do célebre discurso [do senador] a favor [da necessidade] de um “choque de capitalismo” [no país], em junho. Mas morreu de vez nas confusões que levaram à renúncia do ex-governador pernambucano Roberto Magalhães [do PFL] – um nome bem recebido pelo empresariado – como vice de Covas.

Se é um mito que Collor foi fabricado pela Globo, também estão à espera de ser provadas as versões de que Marinho manda e desmanda no candidato. Atrás de um manto de cordialidade, desenvolvem-se relações sutis, complexas. Um dos baluartes do apoio a Collor no meio empresarial é o comando do grupo [empresarial] Monteiro Aranha, de quem Lilibeth Monteiro de Carvalho, primeira mulher do candidato, é uma das herdeiras. O grupo tem interesses na Ericsson do Brasil, empresa rival no campo de componentes eletrônicos da NEC do Brasil, pertencente a Marinho, ambas empenhadas, entre outras disputas, no gordo mercado da telefonia móvel no país.

Não há qualquer dúvida sobre a proximidade de Collor com a família de sua ex-mulher; Olavo Monteiro de Carvalho, seu ex-cunhado, chega a viajar com o candidato em campanha, e a própria Lilibeth, nos primórdios da candidatura, mandou fazer por conta própria 100 mil camisetas promocionais do pai de seus dois filhos, Arnon Affonso e Joaquim Pedro. É também significativo, na relação Collor-Marinho, saber detalhes como, por exemplo, o de que não é incomum o candidato não responder aos telefonemas do dono da Globo.

Ninguém ainda foi capaz de detectar o tipo de contrapartida que Marinho teria incluído no apoio a Collor. Sobre este apoio, porém, há alguns fatos pouco conhecidos. Um deles ocorreu no começo do relacionamento e dá conta de um erro de avaliação do candidato.

– Essa fatura quem vai pagar é o Roberto Marinho – chegou a dizer Collor a um amigo quando começaram as primeiras e violentas críticas de Brizola ao “macaco da Globo”. Na verdade, como se sabe, a fatura tem sido generosamente compartilhada por Collor. O outro fato é mais recente, e tem a ver com o maior susto sofrido pela campanha: a quase-candidatura do empresário e animador de auditórios Silvio Santos, um candidato estatisticamente capaz de bater duro no grosso do eleitorado do candidato do PRN, alojado nas classes D e E.

Havia, entre os colaboradores mais próximos do ex-governador, uma forte convicção de que uma das molas impulsionadoras de Silvio era um temor sobre o futuro de seu Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) num governo Collor. No dia 26 de outubro, quando estava ainda em plena efervescência a possibilidade de Silvio substituir Aureliano Chaves como candidato do PFL, o staff de Collor trocou frenéticos telefonemas sobre o caso.

Cogitou-se de um contato apaziguador de Collor com Silvio Santos, no sentido de que seu governo daria tratamento equânime às empresas de comunicação. O candidato, porém, achou que se tratava de manobra arriscada, que poderia ter efeito oposto ao desejado, e nada foi feito.

O candidato tinha na memória, também, o encontro anterior que mantivera com Silvio Santos, na mansão deste, em São Paulo, três meses antes, pouco produtivo para seus objetivos. Ele tinha ido pedir uma cobertura “equilibrada” de sua campanha nos noticiários do SBT. Conversaram durante duas horas, nas quais Silvio falou sozinho por mais de uma hora e meia, em tom levemente desconexo. Além disso, o dono do SBT desconcertou o interlocutor ao dar claramente a impressão de que não assistia aos noticiários da própria emissora.

A intuição que o candidato utilizou para não ir falar com Silvio agora é uma característica que seus colaboradores elogiam e que um Collor presidente levará para o governo. Foi essa intuição que o aconselhou intensamente a comparecer ao primeiro debate entre candidatos promovido pela Rede Bandeirantes de Televisão, em julho. Também eram favoráveis à ida de Collor ao debate a assessora econômica Zélia, a jornalista Belisa Ribeiro, responsável pelos programas no horário gratuito da televisão, e o irmão Leopoldo, piloto da importante operação do candidato em São Paulo.

Collor acabou cedendo à argumentação dos colaboradores que eram contrários – como o assessor Cláudio Humberto Rosa e Silva e o empresário Paulo Octavio Pereira – e se arrependeu. Não poucos assessores admitem que foi aí que Collor perdeu o pé com os chamados formadores de opinião.

Apoios e adesões

Aliada ao pragmatismo, essa intuição também levou Collor à aliança com o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães. Na época em que o ministro colloriu de vez, em agosto, deixando livres [de votar no candidato de seu partido, o PFL, Aureliano Chaves] suas bases baianas, já a ponto de estourar como uma boiada em direção a Collor, o comando da campanha fazia uma distinção semântica e política entre apoios e adesões.

Estas nem sempre eram benvindas e, ultimamente, há inclusive a política de não as anunciar – como ocorreu com os 17 deputados estaduais ligados ao governador maranhense Epitácio Cafeteira, que mudaram de barco na última semana de outubro, ou com os 15 deputados estaduais fluminenses que colloriram em reunião com o deputado Renan Calheiros, líder do PRN, poucos dias depois.

Ao fim da campanha, os gastos chegam a 20 milhões de dólares

Já os apoios eram algo de substância, capazes de alavancar o candidato em áreas importantes. Antônio Carlos se encaixava aí. O ministro colloriu sem ter informado previamente o presidente José Sarney, que no fim de julho tinha liberado todo o Ministério para apoiar quem quisesse.

Sarney, na época muito menos hostilizado por Collor do que neste fim da campanha, aparentemente quis, com isso, estimular deserções entre os que apoiavam as candidaturas de Ulysses e de Aureliano. O presidente chegou mesmo a cogitar de ir à TV para dizer que, não tendo candidatos, estava governando sem partidos. Uma senha para dizer que os ministros poderiam se arranjar como lhes conviesse. Mas acabou desistindo disso.

Pode-se dizer do apoio de Antônio Carlos a Collor que difere, em gênero, número e caso, do concedido pelo ministro a Tancredo Neves nos estertores do governo Figueiredo, em 1984. Antes de [naquela época] entrar estrepitosamente na campanha, desafiando [de forma direta, em declarações fortes] o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Matos, e fazendo um célebre comício pró-Tancredo em Goiânia, em que chamou de “ladrão” o candidato do PDS no Colégio Eleitoral, Paulo Maluf, o ministro negociou longamente com Tancredo.

Vindo da oposição, Tancredo temia resistências militares. Peitando o brigadeiro Délio, Antônio Carlos mostrou a ele e ao país que isso não tinha mais importância. Ganhou, pela audácia, o Ministério em que está até hoje, para ele reservado por Tancredo desde o começo da campanha.

Desta vez, tem jurado aos interlocutores mais próximos que nada foi acertado de concreto com Collor, apesar de cerca de 150 dos 240 prefeitos carlistas da Bahia estarem com o candidato do PRN. Os dois se encontram com freqüência, e Antônio Carlos abriu a Collor as portas de um mundo político de que o candidato tinha conhecimento limitado. O certo é que por alguma razão Collor, o candidato que mais quis marcar-se como o anti-Sarney, achou que valia a pena o risco de aliar-se ao mais poderoso ministro de Sarney.

Se o caminho de Collor até aqui aponta em direções diferentes e contraditórias, as indicações sobre o que se poderia esperar de sua equipe de governo são mais nítidas. Ele se arrependeu das composições políticas que teve que fazer para montar seu governo em Alagoas, em prejuízo da eficiência. Agora, proclama desejar competência e respeitabilidade.

Tem dito, e assessores próximos repetem, que o tamanho da vitória obtida nas urnas vai marcar o nível de concessões na arquitetura de um governo que poderá até ser anunciado antes do segundo turno, e que expressaria a composição de forças que o apoiará na rodada final. Collor espera fazer poucas concessões, até por achar que no segundo turno terá sem esforço o apoio natural de várias correntes.

Seu objetivo maior é conseguir a respeitabilidade política e a competência técnica onde acha que ela sobra – entre os tucanos do PSDB de Mario Covas. O terreno nesse sentido tem sido preparado na área técnica. A equipe econômica coordenada por Zélia vem recebendo colaboração de economistas do PSDB, de gente que trabalhou no governo Franco Montoro em São Paulo (1983-1987) e até de pessoas de bom porte situadas hoje na administração Orestes Quércia, do PMDB.

A equipe de Collor acha que há um grande preconceito em relação a ele. Mas crê que, Collor eleito, sua decisão de contar com “forças sociais progressistas” em torno de um programa de recuperação do país alterará esse quadro.

Barretada ao PSDB

É certo que a sinalização de nomes do agrado de Collor terá um importante papel. Nesse sentido, o candidato não esconde sua admiração pelo senador paulista Fernando Henrique Cardoso. Há até quem diga, junto a Collor, que o lançamento da candidatura de Covas à Presidência pelo então governador de Alagoas, no começo de 1987, já encerrava um namoro com Fernando Henrique, atendendo a seu interesse eleitoral de manter Covas longe de São Paulo.

O deputado José Serra, um dos cérebros econômicos tucanos, só não será ministro de um eventual governo Collor se não quiser. Talvez a maior barretada do candidato ao PSDB seja declarar, como tem feito, que abriria sua administração propondo o parlamentarismo, pedra de toque do programa do partido.

O ex-presidente da Petrobrás e da Embraer Ozires Silva tem canal aberto com Collor, e recentemente participou de um longo jantar com o candidato na casa do empresário Paulo Octavio, em Brasília. Reservado quanto a suas preferências, Ozires declarou seu voto a Collor quinta-feira, no programa de Jô Soares no SBT.

Muito dinheiro

No passado, Collor já tem uma campanha eleitoral para o primeiro turno que começou com modestos 100 mil dólares em caixa e terminou com gastos orçados por alguns colaboradores em 20 milhões de dólares. Não se trata propriamente de um indicativo muito propício a mudanças no establishment, como não entusiasmou a visão, por todo o país, de comitês recheados de gente assalariada e vazio de militantes.

De toda maneira, muitos assessores do candidato, sobretudo técnicos que contribuem para o plano de estabilização econômica, torcem para que seja verdadeira a frase sobre ele cunhada pelo ex-reitor da Universidade de Brasília, Cristovam Buarque, eleitor de Brizola: “A esquerda teme Collor pelo seu passado e a direita pelo seu futuro”.

Mas isso, como muito mais sobre Fernando Affonso Collor de Mello, 40 anos, casado pela segunda vez, pai de dois filhos e candidato favorito à Presidência da República, é algo que só a abertura da caixa preta vai, efetivamente, esclarecer.

Reportagem publicada no Jornal do Brasil de 12 de novembro de 1989

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