Do primeiro assalto a banco (em que você está dentro) a gente nunca esquece. Hoje foi minha vez

Do primeiro assalto a banco (em que você está dentro) a gente nunca esquece. Hoje foi minha vez Um assalto a banco nos Estados Unidos dos anos 50: aqui é bem diferente (Ilustração: Tamas Gaspar)

Publicado originalmente em 13 de março de 2015

Há poucos minutos passei por uma experiência já vivida por incontáveis cidadãos “neztepaiz”: estava tratando de assuntos particulares numa agência de banco quando ela foi assaltada por uma quadrilha fortemente armada.

Minha mulher, minha filha, meu filho e eu, em diferentes épocas e situações, já tínhamos sido assaltados.

Foi, contudo, a primeira vez em que alguém de minha família se viu no meio de um roubo a banco.

Os bandidos, seis ou sete, não se preocuparam minimamente com as câmeras de vigilância, renderam com facilidade os dois seguranças da agência — fortíssimos, armados e com coletes à prova de balas –, não fizeram algazarra e pareciam conhecer detalhes operacionais do banco, pois seu interesse todo estava voltada para a caixa-forte, no segundo andar da agência.

Os bandidos, alguns até de forma educada, saíram pela agência dizendo frases como:

— Fiquem tranquilos. Não é nada com vocês. Não vai acontecer nada com vocês.

Quando, mesmo antes disso, percebi que se tratava de um assalto, estava sentado diante de um dos funcionários e procurei fazer o que se recomenda em tais casos, não chamar a atenção de jeito nenhum dos criminosos: joguei com cuidado ao chão meu celular, tentei encobri-lo com uma pasta de couro que levava, permaneci sentado, imóvel, com as mãos sobre as pernas e olhando para o chão.

A essa altura, algumas mulheres começaram a chorar e pouco depois a coisa ficou muito tensa porque os bandidos, ao checarem a porta automática, verificaram que estava travada (a causa deve ter sido algum mecanismo automático ou algum ato involuntário de alguém) e passaram a xingar e ameaçar com berros os seguranças, enfiando uma pistola na cara de um deles.

O clima melhorou com o destravamento da porta, mas aí um alarme disparou. Muito corajosa, a gerente da agência começou a dizer a um dos cabeças, um negro forte, de estatura média, vestido com terno preto e gravata:

— Moço, é melhor vocês irem embora, a Polícia já está vindo, o alarme acionou automaticamente.

Ela repetiu várias vezes o apelo, enquanto os bandidos subiam e desciam a escada para o segundo andar, mantendo o pessoal que estava no térreo, eu inclusive, sob vigilância, e falavam sobre códigos e mochila.

Finalmente, deixaram a agência — talvez um minuto antes de, com rapidez para mim espantosa, chegar ao local um reforçado contingente da ROTA, a tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, comandado por um sargento.

Ressabiados, usando coletes à prova de balas e grossos escudos protetores, os policiais foram se aproximando,mandaram os dois seguranças cruzar a porta de segurança na direção deles e deitarem no chão, enquanto eram interrogados, e já mandaram todos os demais levantar as mãos — não sabiam se ainda havia bandidos no prédio. Depois, tivemos que ficar de costas para os policiais, com as mãos na parede, enquanto éramos revistados e indagados sobre dados pessoais e o que fazíamos na agência.

Com cuidado, e sob gritos de ordens, alguns revistaram instalações no térreo e os mais protegidos subiram para onde estava o cofre. O sargento comentou com o grupo no térreo:

— Pelo jeito dos seguranças, pode haver reféns lá em cima.

Não havia. Nesses poucos minutos, já haviam entrado na agência investigadores da Polícia Civil e continuaram a chegar viaturas da duas polícias.

Os investigadores assumiram as perguntas para os funcionários, foram checar as fitas de vigilância e, aos poucos, o sargento da PM liberou os clientes apanhados de surpresa por esse ato rotineiro da vida do brasileiro. Fiquei positivamente surpreendido com o comportamento de vários PMs, que haviam sido rudes, embora não violentos, com os circunstantes — e voltado mais sua atenção, como sempre ocorre, para um rapaz não branco: três dos policiais da ROTA explicaram que a Polícia não pode facilitar em tais ocasiões, pois os bandidos trocam de roupa durante os assaltos, para confundir, usando inclusive uniforme de carteiro dos Correios (havia um entre nós, juro) ou mesmo fardas falsificadas da PM.

Quando deixei a agência, contei 21 viaturas da Polícia ao redor do edifício. O sargento garantiu à gerente que os bandidos serão capturados.