A minha Barcelona

A minha Barcelona A espetacular Barceona, vista do Parc Güell (Foto: Barcelona Home)

Ousadia, atrevimento… Escolham a palavra adequada. Escrever sobre Barcelona na revista do brasileiríssimo barcelonês J. R. Duran. Mas vamos lá, arrisco-me.

Minha primeira vez na terra de Duran foi como se não fosse: 15 frenéticos dias na cidade, trabalhando como um cão, numa dupla e difícil condição: a de chefe da equipe da revista Veja designada para a cobertura da Copa do Mundo de 1982 e a de pessoalmente encarregado de reportar sobre aquela legendária seleção de Telê Santana com virtuoses como Zico, Falcão, Sócrates, Júnior…

Não se falava em outro assunto no Brasil, e um exército de 400 jornalistas também cobria a seleção. De modo que confesso que não fui ao Museu Picasso, nem ao Parque Güell, nem sequer às inescapáveis Ramblas, que só vi do lado de fora a igreja da Sagrada Família e mal percebi a cara da cidade. O destino, entretanto, me faria amar profundamente, e para sempre, Faventia Julia Augusta Paterna Barcino, o vilarejo reconhecido como colônia de Roma no ano 15 a. C. na costa da então província de Hispania – a Barcino que virou a fabulosa Barcelona de hoje, à qual minha mulher e eu voltamos periodicamente, para estar com nossa filha e nosso filho, que aqui vivem e trabalham, e com o nosso netinho, filho do filho, que nasceu na cidade. Bimilenar e, simultaneamente, avançada e ultramoderna; relativamente pequena, e no entanto cosmopolita; com ares parisienses, só que à beira do Mediterrâneo – resistir, quem há de?

Modestamente, tenho minha própria Barcelona, talvez diferente da dos outros. Não há dúvida de que, tal e qual tantos, me surpreendo com os delírios de seus grandes arquitetos da virada do século XIX, gosto de seu céu azul, do clima adorável, da permanente vista do mar, de seu variado e peculiaríssimo visual. Como, da mesma forma, dos museus, dos teatros, da infinidade de bares, cafés de calçada, restaurantes e botecos, da frenética vida noturna, das amplas avenidas arborizadas, das vielas do Bairro Gótico. Gosto inclusive de suas praias artificiais – produto, como tantas outras obras, da revolução urbana que abriu a cidade para o Mediterrâneo, modernizou-a e dotou-a de uma vasta rede de equipamentos urbanos como preparação para as Olimpíadas de 1992.

Minha Barcelona tem tudo isso, e mais: ela é feita de recortes do quotidiano, de flagrantes do dia-a-dia, de atitudes, gestos, sons e cheiros surpreendidos. É feita da estranha areia que aparece em terraços, calçadas e ruas quando, eventualmente, chove no verão – os locais resmungam, e eu me emociono porque, trazida por ventos que atravessam o Mediterrâneo, ela viaja desde o Deserto do Saara.

Ah, digam-me em que outra cidade, em pleno centro fervilhante, existe uma enorme repartição pública, a Oficina dels Drets Humans, com guichês para as pessoas de qualquer nacionalidade ou situação darem queixa caso se julguem ofendidas ou discriminadas? Na qual, em certa época do ano, os vagões do metrô quebram o típico ar vazio dos passageiros com trànsit poètic – trechos de poemas espalhados pelas paredes? Ou em que anônimos alimentem uma biblioteca pública numa praia – nudista, aliás –, com livros retirados sem custo e religiosamente repostos?

Sim, os catalães de Barcelona são em boa parte sisudos, ranzinzas, desfrutam de uma cidade paradisíaca e se queixam de barriga cheia. O atendimento ao público em lojas, restaurantes e repartições públicas não é propriamente maravilhoso. Que importância tem isso, contudo, diante da ausência da Lei de Gerson – uma cidade de trânsito civilizadíssimo, onde furar fila é algo inimaginável e idosos e pessoas com necessidades especiais são cercados de respeito e atenção?

Deve ser a única cidade do planeta dotada de um Arco do Triunfo que não celebra conquistas militares. Não que tenha faltado ardor guerreiro a els barcelonins, personagens de uma história plena de heroísmos, desde o enfrentamento aos mouros na Idade Média até a duríssima resistência oposta às hordas fascistas do generalíssimo Franco durante a Guerra Civil espanhola (1936-1939). Entretanto, o Arc de Triomf, magnífica construção em estilo mudéjar (hispano-árabe), feita de tijolos e pontilhada de esculturas de pedra, ergueu-se para celebrar a Exposição Universal de 1888. Belo e um tanto desprezado, integra, não obstante, a lista da “minha” cidade.

Barcelona está repleta de tipos inesquecíveis. Há o sujeito que anda o tempo todo pelado, com o traseiro tatuado como se fosse uma sunga (os tribunais já decidiram: pode-se andar sem roupa e sem problema em qualquer lugar da Espanha). Ou o maricón sessentão de peruca loira que vende flores e cigarros nos restaurantes – e, de repente, sai tocando castanholas. Ou, ainda, uma determinada velhinha punk que faz a ronda dos bares com roupas de couro preto repletas de tachas e correntes, botas de tacones gigantes e maquiagem de corista dos anos 30. Sem contar a senhora distinta e bem vestida que, por alguma obscura, misteriosa razão, costuma descer as escadas rolantes do metrô… de costas.

É a cidade de índices de criminalidade irrisórios, escandinavos – duas dezenas de homicídios por ano, total que se comete em apenas três dias no Rio de Janeiro. Em que a polícia, chamada, sempre vem – até para ajudar a dona de um gato que sumiu. Em que 15% dos habitantes são estrangeiros, e estão em casa. Em que cachorros à espera de um dono no abrigo municipal são levados a passear por voluntários e galgos estropiados por corridas que não mais existem – o Canódromo será um centro arte – são adotados e pacientemente recuperados. Em que as pessoas frequentam os melhores lugares de bermudas e sandálias havaianas, e ninguém patrulha ninguém pela aparência. Em que há mulheres garis, e policiais, e motoristas de ônibus e bombeiras tão elegantes como vendedoras de perfume. Em que no dia 23 de abril, data de Sant Jordi (São Jorge), padroeiro da Catalunha, se cobre de bancas de flores e de livros, com que as pessoas se presenteiam. A cidade em que aterrissam, ávidas, revoadas de lindas nórdicas, inglesas e francesas quando o frio vai embora. Das lésbicas que se beijam na boca e dos gays que passeiam de mãos dadas sem jamais serem alvo de zombaria. Das garotas de piercing, cabelos loucos e recobertas de tatuagens que recolhem doações – com recibo timbrado – para a Cruz Vermelha. Dos jovens radicais que saem em passeata pregando a separação da Catalunha da Espanha – e, em vez de apanharem, são protegidos pela tropa de choque. Do time de futebol, o Barça, que incorpora a essência da alma catalã – mas que foi fundado por um suíço (o esportista e empresário Hans-Max Gamper) e cuja forma de jogar até hoje revela a influência de um holandês (o ex-supercraque Johan Cruyff).

Seria preciso muito mais palavras para definir essa minha Barcelona particular. Três, porém, resumem o que realmente importa nela pra mim: beleza, liberdade e respeito.