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Gabriel García Márquez (1927-2014)

Gabriel García Márquez se foi.

Não tenho altura suficiente para comentar o exato tamanho da perda que sua morte, aos 87 anos, depois de uma longa e corajosa luta contra o câncer, significa para a literatura.

Mas consigo, sim, dizer que se trata uma perda colossal, que “Gabo” é um gigante da literatura de todos os tempos, um escritor genial que transportou milhões de pessoas de todos os países para um universo único, exclusivo, que só seu talento conseguiu alcançar, capturar e transformar em uma prosa cuja marca registrada permanecerá, indelével.

Ao mesmo tempo, consigo dizer que eu não apenas não concordava com suas posturas políticas, como não raro abominava algumas delas, como sua adesão incondicional ao putrefato e repressivo regime cubano, sua solidariedade a regimes bolivarianos tirânicos ou suas tiradas demagógicas contra o “imperialismo” dos Estados Unidos — país em que, por ironia para quem fundou uma escola de cinema em Cuba, um de seus dois filhos, Rodrigo García, faz enorme sucesso como diretor, roteirista e produtor.

Ao mesmo tempo em que estou triste com a perda de “Gabo” — em que, na verdade, choro sua morte, como órfão de sua literatura –, fico feliz em conseguir diferenciar, dentro de mim, o ativista político que combatia do artista maravilhoso que me fará imensa falta.

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27 Comentários

José em 20 de abril de 2014

Que texto ruim.

Vhera em 19 de abril de 2014

Tudo bem, Setti. Você e outros têm estômagos de aço para separar um real comportamento hediondo dos ilusionismos literários. Talvez devessem ler também Máximo Gorki, como bem lembrado por Reinaldo Azevedo, que andava de braços dados com Stalin (leia também, a respeito, “A Guerra Particular de Lenin”, de Lesley Chamberlain). Na intervenção do leitor Bruno Sampaio, primeiro a falar sobre este assunto, você, meu caro Setti, se admirou da qualidade do livro de GGM “Crônica de uma Morte Anunciada”. Talvez GGM, em Cuba, no terraço ao lado do Gran Capitan, vislumbrando aquele povo esguio e mal- ajambrado que aplaudia angustiante e agônico a mais um discurso do canalha, tenha tido a ideia formidável desse seu grande livro. Quem sabe?!!

Eduardo em 19 de abril de 2014

Garcia é a prova eloquente de que o comunismo pode estragar um gênio. É impossível separar Cem Anos... da imagem de um homem que perfilou a vida toda ao lado de figuras como o sanguinário Fidel Castro.

Bruno Sampaio em 19 de abril de 2014

Valeu pela crítica, Setti. Mas eu li muita coisa do Gabriel Garcia Márques, Crônica de uma morte anunciada, a triste história de Cânduida Erendira e sua vó desalmada, (li menino, não entendi nada) ninguém fala ao Coronel, 100 anos, histórias de minhas putas tristes e outros que não me lembro o nome. Creio já ter lido contos dele também. Mas confesso que aprecio bem mais seu arqui-rival Mario Vargas Llosa, considero "Tia júlia e o escrevinhador" uma obra prima em todos os sentidos. Não foi minha intenção ser ofensivo, se fui, me desculpe. Tenho plena consciência da estatura literária de Garcia Márques. Grande abraço!

larissa em 19 de abril de 2014

Péssimo textos, daqueles que, ao fim da leitura, vc pensa "ué, mas cadê o texto? Era isso?". alguns segundos perdidos na minha vida.

Vhera em 18 de abril de 2014

Meu caro Setti: Você se penitencia por não estar a altura do Gabriel. Não faça isso. Pelos seus artigos, verifico que estou a ler um brilhante expositor de apreciável estatura moral. Já a do GGM não deve passar dos centímetros da guia da calçada. Obrigado, Vhera, mas o fato de García Márquez ter as convicções políticas que tinha não lhe retirava estatura moral. É assim que penso. Abração!

Marco Ferrari em 18 de abril de 2014

Marco Ferrari Pena que Ricardo Setti (que já foi mais ético) se abomine a altura de dissecar um homem da grandiosidade de Gabriel Garcia Marques como se fosse uma margarida: “Esta pétala sim, esta não...”, entendendo que uma pessoa é boa ou velhaca metade sim, metade não, dependendo da sua filosofia ideológica (?). Ao menos foi leal, na crua evidência de ser pau mandado da Veja. Marco Ferrari premionacionaldeliteratura@ig.com.br Curtir · Responder · alguns segundos atrás Você me ofende dizendo que "já fui mais ético". Sim, eu consigo separar as convicções ideológicas de uma pessoa de suas qualidades como artista, como engenheiro, como físico, como arquiteto. Sem contar que também consigo separar convicções ideológicas de afetos -- tenho amigos queridos e gente de minha família que pensa muito diferente de mim, politicamente, e não por isso são menos amados.

Rodolfo Viegas em 18 de abril de 2014

Concordo, Garcia é um excelente escritor, Cem anos de Solidão é magnífico, só o comunismo que ele defendia não.

tiao em 18 de abril de 2014

Por que será que todo comuna escreve bem?E os direitosos?Será que os comunas são abençoados por Deus,e os outros não?

Vhera em 18 de abril de 2014

Pode até ser que venha saber um dia que algo perturbante participou da vida de alguém que prezo. Mas não me importo, porque ninguém é perfeito. Se a trajetória de sua vida faz pender a balança imensamente por um comportamento correto é isso que vale. Mas isso nada tem a ver com costumeiras frases do tipo: “é bom, apesar de...”. Não consigo entender, ou separar, a postura de um escritor, artista ou intelectual que, por sua alta compreensão das coisas da vida supostamente voltada ao incremento da felicidade e do engrandecimento do ser humano, paradoxalmente, cimenta metade da cabeça para ajoelhar-se, com vontade livre e plena, no altar de bandidos políticos, decadentes de alma, que mataram ou fizeram sofrer milhões de pessoas inocentes. Carl Schimitt, Heidegger, Sartre, Simone de Beauvoir e de tantos outros anjos de cara suja como Gabriel Garcia Marques jamais entraram em minha estante e nem sofro por não lê-los ou conhecer suas virtudes intelectuais. Para mim, falam mais alto a postura moral e o caráter da pessoa do que aquele que vive a vida pondo os pés em duas canoas. Pode-se entender que uma pessoa nobre e veraz se veja, pela força dos fatos, na contingência de apelar para o controle pragmático de uma situação no embate com um miserável antagônico poderoso, mas esse não é o caso de Gabriel Garcia Marques.

Vera Scheidemann em 18 de abril de 2014

De pleno acordo ! É difícil entender as razões que levam pessoas tão geniais a serem tão cegas com relação à ideologia política. Mas uma coisa nenhuma delas faz - ir viver em Cuba... Vera

Pedro Luiz Moreira Lima em 18 de abril de 2014

Eu choro pelas suas idéias,por sua vida,pela sua solidariedade a humanidade e enfim Gabriel Garcia Marques - SEMPRE PRESENTE! Pedro Luiz

Rod em 18 de abril de 2014

Excelente o seu texto, Ricardo. Ele foi um gênio da literatura e um idiota na política. Mas seu apreço por tiranos não apaga em nada o brilho de suas obras...

Pedro Goulart em 18 de abril de 2014

Concordo plenamente. "Gabo" poderia ser comparado a Pelé; como jogador foi um fenômeno, o rei, mas um desastre como pensador político. Gabo pode ter sido um dos maiores escritores, mas considero pessoa abominável por ter defendido o que há de pior neste mundo. Brasileiros optam por conselhos dados por celebridades que, obviamente o são, justamente pelos seus talentos natos, e não por grandes sábios; esse é um dos motivos do nosso "progresso".

Ronaldo força em 18 de abril de 2014

CAro Rodrigo Nunes, se era para justificar seu apreço pelo ditador sanguinário Fidel Castro, no caso Gabriel Garcia Marques, uma dezena de dissidentes que ajudou a escapar do regime não se compara aos milhares de presos políticos que foram cruelmente torturados e assassinados. Os números nunca tranquilizarão sua consciência.

Ronaldo força em 18 de abril de 2014

Li quase todos os livros do Gabriel Garcia Marques e relembro todos orgulhosamente com a sua morte. O que mais me tocou foi a Crônica da Morte Anunciada, que mostra o determinismo da vida do ser humano. Porém os demais me emocionaram: Erêndira e sua avó desalmada Notícias de um sequestro, O Amor em tempo de Cólera, Ninguém escreve ao coronel, o General em seu labirinto, O outono do Patriarca, etc. Apesar de minha admiração como escritor que é suas posições políticas mostram sua perda de dignidade ao apoiar uma ditadura sangrenta e irresponsável do irmãos Castro que o utilizaram como um amuleto para justificar suas matanças e torturas. Gabriel Garcia Marques merece por seus escritos estar no panteão dos escritores, porém suas posições políticas sofrem com a opressão e o assassinato de pessoas que não concordavam com a ditadura dos irmãos Castros. Dizem que parou de escrever devido a ditadura de Pinochet. O mal que Fidel Castro causou ao seu povo lhe levaria a não ganhar o prêmio Nobel de literatura e viver calado por todos os anos de sua vida.

francisco meireles em 18 de abril de 2014

como todo ser humano tenía sus luces y sus sombras. Pero como lo dijo hoy un escritor brasileño en el Jornal Nacional: "el arte está por que la vida no basta"

FILÓSOFO em 17 de abril de 2014

Se já não bastasse ser um gigante da Literatura Universal – ganhador do Nobel com obras-primas do realismo fantástico como “Cem Anos de Solidão” – atingiu a completude como intelectual devido ao seu lúcido pensamento político-ideológico. Congratulações ao jornalista pela justa homenagem póstuma ao grande literato.

CLAUDIUS em 17 de abril de 2014

Disse tudo, Setti. Pelo Enterro do Diabo até que abriria mão do ativismo do Garcia Márquez. Desde que os facínoras Castro&Castro fossem ver o cujo chifrudo.

Alan XY em 17 de abril de 2014

Isso aí, R7, discordar da postura política não impede de reconhecer o talento maravilhoso do cara. Valeu, belo exemplo!

Rodrigo Nunes em 17 de abril de 2014

"Não posso calcular a quantidade de dissidentes que ajudei, em silêncio, a emigrar de Cuba. Basta-me a tranquilidade de minha consciência." Não sejamos injustos com o grande mestre, como são injustos os esquerdistas que nos chamam de fascistas, não somos, e ele não é.

SIDNEI RODRIGUES em 17 de abril de 2014

Um inegável talento literário, que conferiu prestígio à literatura sul-americana, mais notadamente a de língua espanhola. Mas, na ambiência política, mostrou-se apenas um esquerdista primário. Fã ardoroso dos irmãos Castro, poderia ter usado melhor seu prestígio para evitar que seu país se tornasse uma sucursal da ilha do doutor Castrô. Uma pena.

Fábio Almeida em 17 de abril de 2014

Caro Setti, faço suas minhas palavras. Adoro o Outono do Patriarca, além das obras-primas O amor nos tempos do cólera e Cem Anos de Solidão. Um romancista extraordinário, um contista de primeira. Ainda bem que a obra dele não foi envenenada pelo idiotismo político dele!!!

Marcio Silva em 17 de abril de 2014

Podem ter certeza que a esquerda vai explorar a perda do escritor mais pelas suas convicções políticas do que a grande obra literária,que convenhamos,os comunistas latino-americanos pouco ou nenhum interesse possuem.

Donato em 17 de abril de 2014

Simplesmente o maior escritor de língua espanhola de todos os tempos. Mesmo que não tivesse escrito "Cem anos de Solidão" , uma dezena de outros livros atestariam a sua genialidade e justificariam o Nobel. "Memórias de minhas Putas Tristes", " Ninguém escreve ao Coronel", "Crônica de uma morte anunciada", " Amor nos tempos do Cólera", " Outono do Patriarca", " Viver para contar" , "Cheiro de Goiaba", etc. Não ler Gabo ou Saramago por suas posições políticas é estultície. Concordo inteiramente com sua última frase, caro Donato. Perfeita!

Roberto Souza em 17 de abril de 2014

Caro Setti, concordo em gênero, número e grau. O genial escritor há de ser sempre respeitado e reverenciado, a despeito de suas posições políticas e ideológicas. Quem teve a felicidade de poder ler algumas de suas obras, só pode ficar imensamente agradecido e admirado pelo seu talento. É também bom lembrarmos que a nossa América Latina convive hoje com inúmeros idiotas políticos e ideológicos que, além de idiotas, são ignorantes e alguns, semianalfabetos. Prefiro relevar as posições ideológicas equivocadas de um gênio do que aturar idiotas com posições ideológicas igualmente imbecis, pelo menos resta a obra do genial autor. Um abraço!

Bruno Sampaio em 17 de abril de 2014

Gostei de "história de minhas putas tristes" se é que era mesmo este o nome do livro, mas era algo parecido. O cara escrevia bem, mas não tenho mais saco para 100 anos de solidão e todo aquele coitadismo literário. Wagner escreveu musica celestial e era um canalha em toda a linha, não só pelo anti-semitismo, pelo qual é mais lembrado. O fato é que a canalhice do autor empana um pouco a obra, pelo menos enquanto o autor está vivo. Hoje podemos nos deleitar com a maravilhosa musica de Wagner sem culpa. Mas não tenho escutado muito Chico nem Caetano ultimamente. Eu lamento que você não consiga separar o militante do escritor e que, pelo visto, nem conhece sua obra. Não vi em nada do que ele escreveu qualquer "coitadismo literário". "O Amor nos Tempos do Cólera" é um caso raro de obra-prima escrita DEPOIS de um escritor já ter escrito uma obra prima, que é "Cem Anos...". Normalmente o grande livro escrito precocemente ofusca o restante da obra do escritor. Com Gabriel García Márquez, isso não ocorreu. Ele foi tão genial que, em "Crônica de uma Morte Anunciada", escreveu um livro de terrível suspense informando, nas três primeiras linhas, que o principal personagem iria morrer.

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