A vida pública, como a política, é cruel.

Ainda está quente o cadáver político do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o francês Dominique Strauss-Kahn, detido em Nova York sob a acusação de crimes sexuais contra uma camareira do hotel de luxo em que se hospedava, e já se trata de sua sucessão em dois planos: no comando do FMI e na condição de virtual candidato socialista à Presidência da França em 2012, graças à aprovação obtida nas consultas de opinião pública, que o vinham situando bem à frente do presidente Nicolas Sarkozy.

No FMI, despachada e franca como sempre, quem primeiro tocou na delicada questão foi a chanceler alemã Angela Merkel. Mesmo com Strauss-Kahn ainda no cargo, Merkel comentou publicamente que a Europa tem “boas razões” e “bons candidatos” para o posto, tradicionalmente exercido pelos europeus desde a fundação do FMI, em julho de 1944, enquanto aos americanos vem cabendo outra perna importante do sistema, o Banco Mundial. O presidente da Comissão Europeia, o ex-primeiro-ministro português José Manuel Durão Barroso, fez afirmações na mesma linha.

Emergentes querem o cargo no FMI, mas ficar com ele é difícil

Já há, contudo, forte pressão dos países emergentes, inclusive o Brasil, via declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para que o organismo passe a ser dirigido por nome indicado por um deles. Por ironia, Strauss-Kahn, dentro do sistema FMI-Banco Mundial, era uma voz constante em defesa de maior peso aos emergentes.

E, de fato, há uma disparidade entre o tamanho da economia dos países e seu poder de fogo no FMI. Só dois exemplos: a Europa, com 20% da economia mundial, detém o maior percentual de votos no organismo: 29%. O gigante chinês, que já abarca 14% do PIB do planeta, dispõe de apenas 6% dos votos.

Mesmo assim, dificilmente as coisas mudarão agora, sobretudo num momento em que 3 países europeus estão sendo socorridos com vultosos empréstimos pelo FMI – a Grécia, a Irlanda e Portugal. Se Strauss-Kahn renunciar, como se imagina que o faça, até pela demora inevitável para o esclarecimento das acusações de que é alvo, ou, numa hipótese mais drástica, se for afastado pelo Conselho Executivo do FMI, constituído por 24 membros, existe uma longa lista de candidatos europeus ao posto.

Uma lista de candidatos

Apesar de o primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, considerar “obsceno” se falar em sucessão agora, ele próprio é incluído na lista de diretoráveis do FMI.

A lista é encabeçada pela respeitada ministra da Economia da França, Christine Lagarde, que, se escolhida,será a primeira mulher a exercer, mas dela fazem parte, entre outros, os alemães Thomas Mirow, ex-presidente do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), Peer Steinbrück, ex-ministro social-democrata das Finanças, e Axel Weber, ex-presidente, por 7 anos, do Deutsche Bundesbank, o Banco Central alemão, além do ex-primeiro-ministro trabalhista britânico Gordon Brown que, porém, tem a oposição de seu sucessor conservador, David Cameron.

Na hipótese, difícil, de alguém proveniente dos emergentes, como o do ex-ministro das Finanças turco Kemal Dervis para o lugar de Strauss-Kahn.

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Christine Lagarde, Thomas Mirow, Peer Steinbrück, Axel Weber, Gordon Brown: parte da longa lista de candidatos europeus ao posto de Strauss-Kahn

No Partido Socialista, perplexidade, mas um calendário a cumprir

Já para substituir o diretor agonizante do FMI como candidato socialista à disputa com o presidente Sarkozy na França o favorito parece ser o secretário-geral do partido, François Hollande. Os socialistas, porém, absolutamente perplexos com o fato, chocados com as imagens de seu possível candidato numa delegacia de polícia — divulgação que na França, em nome da privacidade das pessoas, é vedada à mídia — e solidários até agora com DSK, como Strauss-Kahn é conhecido, oficialmente não admitem que a sucessão esteja em discussão.

O problema está em que o calendário é fatal: as normas do Partido Socialista determinam que os aspirantes a disputar as eleições primárias que, em outubro, indicarão o candidato à disputa presidencial de março de 2012 devem inscrever-se formalmente entre os dias 28 de junho e 13 de julho próximos.

Ninguém acredita que, por mais que o sistema judicial americano seja rápido, o affaire Strauss-Kahn esteja resolvido até lá. E a vida continua: há no Eliseu um Sarkozy a ser derrotado pelos socialistas, que há 17 anos não sentem o prazer de se instalar no palácio.

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8 Comentários

Roberto em 19 de maio de 2011

Não é curioso ver um DIRETOR do FMI não só filiado mas também candidato por um partido SOCIALISTA? O pessoal do PCO, PSOL e afins vai continuar gritando FORA FMI? (Risos) Hahahahahaha, Roberto, essa foi muito boa! Ninguém comentou o detalhe até agora, que eu saiba! Além disso, Strauss-Kahn vinha tomando partido dos países emergentes que querem ter mais força no FMI, tal como escrevi. Um abração

Paulista indignado em 19 de maio de 2011

Mulla ¨alquimista¨ é ótimo nome para candidatar. Já é forte candidato para Nobel de química: tudo que elle mete bedelho vira b....

Jefff em 19 de maio de 2011

Nossa vc viajou legal hein! Aonde eu falei que o dito cujo é seu candidato? Cortei um trecho do seu post e aproveitei para comentar sobre a regulação da midia. Acho que o tal Dominic seja culpado ou não tem cara de mau!

Jefff em 19 de maio de 2011

as imagens de seu possível candidato numa delegacia de polícia — divulgação que na França, em nome da privacidade das pessoas, é vedada à mídia E que lá tem regulação da midia (pensei que era coisa de petralha, bolivariano, comunista etc,etc). "Meu" candidato? Eu voto no Brasil, Jeff. E acho exagerada a "regulação da mídia" existente na França, que, por sinal, está sendo intensamente discutida agora, por ter possibilidade que não chegassem à opinião pública uma série de informações importantes sobre seus governantes.

Paulo Bento Bandarra em 19 de maio de 2011

Como você diz: Que coisa!!!! Não é que ele admite que teve relações com a desconhecida camareira? Um homem desta posição, presidenciável, cometer um desatino destes. Já consensual é uma atitude condenável, se houve coação então...

veiaco em 19 de maio de 2011

Estão perdendo tempo, estou com o Mantega, ninguém melhor que Lulla para substituir o Strauss-Kahn. O homem tem demonstrado notório saber econômico ao transformar abobrinhas em milhões, com o aval das maiores empresas do planeta,dos ricaços e dos últimos e novos ditadores das Américas. E tem fama de sedutor, mais conhecido como o garanhão de Guaranhuns.

patricia m. em 18 de maio de 2011

Gordon "Caolho" Brown nao, pelamordedeus. O cara vem de um partido que afundou a Inglaterra nos ultimos 12 anos. Chega desses obscenos esquerdalhas... Poe alguem de direita no FMI. Gordon Brown é considerado um dos ministros das Finanças mais competentes que já passou pela pasta no Reino Unido. "Esquerdalha"? Brown é da ala conservadora dos trabalhistas, que, por sua vez, há séculos abandonaram antigas posturas.

alberto santo andre em 18 de maio de 2011

DEVERIAM AVISAR DSK,QUE O BRASIL, E UM PAIS ONDE PESSOAS COM PASSAGENS PELA POLICIA ,INDIFERENTE DE ONDE FOR SEMPRE ,ENCONTRA GUARIDA NO PARTIDO DO ALI BABA LULA.

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