FUTEBOL: Com Thiago no fortíssimo Bayern de Munique do técnico Guardiola e Rafinha no Celta, os filhos de Mazinho largam o Barcelona em busca de maior destaque; conheçam melhor o pai dos jogadores, homem por trás de suas carreiras

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Mazinho, entre Rafinha (esq.) e Thiago no restaurante Campechano, em Barcelona, em março; o pai até vendeu sua parte no estabelecimento para acompanhar as mudanças nas vidas dos filhos (Foto: Hugo Resende – Placar)

Está tudo pronto para que Thiago e Rafinha Alcântara, os dois filhos jogadores do ex-meia campeão do mundo Mazinho, caminhem para ser os novos irmãos Boateng, um ganês e outro alemão, que chegaram a se enfrentar na última Copa do Mundo.

No intervalo de poucos dias, os dois jovens de dupla nacionalidade (brasileira e espanhola) anunciaram que deixam o clube que os formou, Barcelona. A mudança de vida passa pelo pai e empresario dos garotos, que vendeu sua parte em um restaurante que mantinha na capital catalã.

Thiago, consolidado no elenco principal do Barça mas nunca titular, vai ao time mais badalado do momento, o Bayern de Munique, que aceitou o pedido de seu novo técnico, o ex-barcelonista Pep Guardiola, e pagou 25 milhões de euros por seu passe. Deverá ter muito mais chances do que no Barça e, correspondendo, cavará seu lugar na seleção principal espanhola, na qual debutou em 2011.

Com isso, o Barça perde mais um jogador formado em suas divisões de base — e alguém cotado para ser o sucessor do grande Xavi que, aos 33 anos e meio, já não é mais o mesmo e, embora continue um craque excepcional, começa a descer a ladeira.

Rafinha, que estava prestes a subir do Barça B, dificilmente não será titular no relativamente modesto Celta, clube defendido pelo pai entre 1996 e 1999 – e onde atua, como jogadora de vôlei das categorias de base, a filha caçula de Mazinha, Thaísa. Pode se destacar rapidamente e ser observado com mais carinho por Felipão (ao contrário do mano mais velho, Rafa quer continuar sua trajetória na seleção brasileira, em cujas divisões inferiores já milita).

Aproveitando as duas novidades, republico perfil de Mazinho e sua relação muito próxima com a prole escrito pelo jornalista Daniel Setti para a edição de abril da revista PLACAR.

Na ocasião, conta o repórter, Bayern e Celta nem sequer foram mencionados pelo ex-jogador como destinos possíveis dos filhos. A insatisfação com a pouca atenção do Barcelona a Thiago era evidente, mas Mazinho falou “apenas” das propostas de Manchester United e Chelsea. Ainda assim, seu clube favorito como novo casa do primogênito era outro gigante inglês, o Arsenal, “por sua estrutura e filosofia, todo jovem, com um treinador que gosta de garotos feitos em casa”.

Lambendo a cria: Mazinho é o pai coruja de Rafael e Thiago Alcântara

Aos poucos, Mazinho mudou sua identidade. De craque-coringa da seleção tetracampeã do mundo, ele virou o paizão coruja de Rafael e Thiago, as joias do Barcelona

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Mazinho e Valéria chegam ao treino do Palmeiras com o pequeno Rafinha em março de 1994 (Foto: Marcos Rosa)

Sentado à mesa de entrada do salão do restaurante Campechano, em zona nobre de Barcelona, um sujeito enxuto de 46 anos, que traja calça jeans, blazer preto e cachecol, toma tranquilo sua sopa.

Poucos dos comensais ali presentes parece notar que este grisalho pacato, há um ano e meio sócio do estabelecimento, é Mazinho, tetracampeão mundial pela seleção brasileira nos Estados Unidos em 1994, além de pai e empresário de dois jogadores do Barcelona, ambos meio-campistas: Thiago Alcântara, integrante da equipe principal do clube azul-grená desde a temporada 2011-2012, e Rafinha Alcântara, atualmente do Barça B, mas que também já teve experiência no primeiro time e ainda em 2013 deve assinar contrato como profssional.

O paraibano de Santa Rita, região metropolitana de João Pessoa, cujo andar continua inconfundível — tronco projetado à frente, mãos ligeiramente arqueadas para trás, pernas tipo “caubói” –, bate ponto no Campechano todos os dias após uma sessão matinal de malhação. “Venho porque não faço nada”, diz o ex-vascaíno e palmeirense, que mora em Gavà, cidadezinha de praia vizinha a Barcelona.

Esse “nada”, porém, é relativo. Entre um cumprimento retribuído a algum cliente que o reconhece e uma garfada do prato principal — uma porção de entraña bovina argentina —, Iomar do Nascimento, como foi batizado, atende a telefonemas e toma providências, muitas das quais diretamente relacionadas ao futuro dos dois mais velhos de sua prole, completada por Thaísa.

A menina de 14 anos mora em Vigo, cidade na Galícia, norte da Espanha, e, nas categorias de base do Celta — clube defendido pelo pai entre 1996 e 1999 —, segue os passos esportivos da mãe, a ex-jogadora de vôlei Valéria Alcântara, esposa de Mazinho entre 1987 e 2005.

Tudo em família

“A melhor coisa que existe para um jogador é ter o pai como representante”, assegura o ex-volante, meia e lateral direito e esquerdo aposentado que, após pendurar as chuteiras, em 2001, pelo Vitória, curtiu um pouco a vida antes de voltar-se inteiramente às carreiras dos flhos.

“Quando parei, treinava triatlo, porque ainda tinha condições físicas. Depois fiz tudo o que eu não podia antes: futevôlei, correr na praia, tomar minha cervejinha. Não apareceu oportunidade boa para voltar aos campos, e os moleques começaram a jogar no colégio.”

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O Palmeiras de Luxemburgo fez história, tirando o clube da fila de 17 anos sem títulos e conquistando os bicampeonatos Paulista e Brasileiro: De pé, César Sampaio, Gil Baiano, Cléber, Roberto Carlos, Sérgio e Antônio Carlos; agachados, Edmundo, Mazinho, Evair, Edílson e Zinho. (Foto: Antonio Milena)

Da quadra da escola, Thiago (nascido em San Pietro Vernotico, na Itália, em 1991, quando o pai defendia o Lecce) e Rafa (nascido em São Paulo, 1993, segundo ano de Mazinho no mítico Palmeiras comandado por Luxemburgo) passaram a treinos no infantil do Flamengo.

Naturalmente, duas novas trajetórias futebolísticas estavam se criando na família. “Minha intenção não era transformá-los em jogadores”, explica. “Eu sempre os levava para brincar no campo, mas com o objetivo de cansá-los e depois poder descansar [risos].”

De volta à Espanha

Em 2003, quando o talento dos garotos já aforava, Mazinho conta que a família cansou da insegurança do Rio de Janeiro, onde se estabelecera no fim da sua trajetória profissional. Tendo ainda fresca na memória a experiência acumulada nos três anos de Celta — “o auge da minha carreira” —, Iomar e o clã Alcântara do Nascimento retornaram a Vigo.

“Aproveito qualquer brecha para visitar, mas não me acostumo mais a morar no Rio”, admite Mazinho, que já soma 17 anos de Espanha, contabilizando a última década e as temporadas nos anos 90 por Valencia, Celta, Elche e Alavés. Além do imóvel em Vigo — cidade para onde vai com grande frequência — e do ocupado por Thiago em Barcelona, ele possui apartamentos em João Pessoa e no Rio.

Inicialmente rejeitado pelo Celta, Thiago só despertou o interesse do antigo clube do pai após uma atuação de gala como adversário, vestindo a camisa do pequeno Ureca, também galego. Era tarde demais. “Eu já tinha proposta do Barcelona”, conta Mazinho, recapitulando a transação do primogênito com a agremiação catalã, em 2005, onde se formaria ao lado de Sergio Busquets e Pedro. Não demorou e, no ano seguinte, Rafa também passaria na mesma peneira. “Foi a melhor coisa que aconteceu, ter os dois juntos aqui”, diz, orgulhoso.

Os números da carreira de Mazinho / Crédito: Nelson Coelho (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Os números da carreira de Mazinho / Crédito: Nelson Coelho (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Superpai onipresente

Com um par de herdeiros garantidos na cobiçadíssima Masia, o maior celeiro de craques do planeta, Mazinho optou por cuidar também da vida profissional dos garotos. Coruja convicto desde a primeira troca de fraldas de Thiago, o tetracampeão se consolidou como superpaizão onipresente, ainda mais depois da separação. “Sempre fui pai e mãe dos meus três flhos; em 18 anos de casado, vivi 18 para a família”, afrma.

Durante as fotos para a PLACAR no Campechano, percebe-se a relação umbilical entre os três personagens. Thiago e Rafa atrasam menos de 15 minutos para o encontro e levam a típica bronca paternal. Mesmo assim, perguntado sobre o grau de severidade do pai, Thiago alivia: “Essa época já foi”. Quando cada um foi morar em seu próprio apartamento, os pitos praticamente acabaram, explica o jovem apoiador do Barcelona.

Entre um clique e outro, os irmãos cochicham em tom de cumplicidade. O trio brinca, sorri e o pai ganha de Thiago beijos na cabeça e tapas no traseiro. “É um paizão, né?”, orgulha-se Rafa, o mais tímido dos dois canteranos do Barça. “Ele nos dá muitos conselhos. Depois de tudo o que passou…” Rafa se refere à origem humilde do pai, caçula de sete irmãos, e às difculdades que teve no início da carreira: a migração súbita para o Rio, as gozações nas divisões de base do Vasco por sua origem paraibana e os três anos vivendo em alojamento embaixo da arquibancada de São Januário.

Tanta dedicação, é verdade, também cansa, e em 2009 Mazinho apostou por uma ligeira mudança de ares, aceitando o cargo de técnico do fraco Aris Salonica grego. “Não aguentava mais: tinha me separado, vivia com os dois, sem empregada, era dono de casa, motorista, tudo”, diz. “Tinha que sair para trabalhar.” A experiência não durou nem uma temporada, mas ele, que fez curso de técnico, quer voltar à prancheta assim que Rafael “der o salto” — ou seja, entrar para valer no Barça A de Messi e companhia, ou até em outro grande clube europeu. “A gente está feliz no Barça, mas se passa um ano e outro sem jogar, precisamos pensar em uma solução; ano que vem tem Mundial”, pondera, reclamando da falta de sequência de jogos de Thiago como titular.

Duas pátrias

Thiago-Rafinha

Thiago (à esq.) já integra a seleção principal da Espanha. Rafael tenta se firmar pela sub-20 do Brasil /(Fotos: Getty Images e AFP)

O assunto Copa do Mundo, aliás, possui uma conotação peculiar para os Alcântara do Nascimento. Thiago e Rafinha podem futuramente repetir o caso dos irmãos Kevin-Prince Boateng e Jérôme Boateng, que em 2010 na África do Sul ganharam as manchetes por se enfrentarem usando diferentes uniformes — de Gana e Alemanha, respectivamente.

Desde setembro de 2011, quando debutou oficialmente com a seleção principal espanhola, Thiago abdicou da chance de voltar a trajar a camisa da seleção brasileira, ainda que tenha as cidadanias de ambos países. Já Rafinha, apesar de haver atuado nas categorias de base de La Roja desde os 13 anos, “virou a casaca” e tem sido convocado para a equipe sub-20 brasileira. “Ele está decidido, quer o Brasil”, deixa escapar o pai.

Seleção-1994

A seleção tetracampeã do mundo em 1994 nos EUA – em pé estão Taffarel, Jorginho, Aldair, Mauro Silva, Márcio Santos e Branco; os agachados são Mazinho, Romário, Dunga, Bebeto e Zinho; “nosso bicho de 94 não valia nem um apê de dois quartos: 80000 dólares. tirando imposto, não sobrava nada.” Mazinho, sobre a “módica” premiação pelo tetracampeonato mundial (Foto: Pedro Martinelli)

Por ele, o flho mais velho também teria tomado o mesmo caminho: “Quando o Thiago foi convocado pela seleção espanhola, aos 16 anos, eu não queria. Achava que os dois poderiam ser úteis ao Brasil. Mas o Américo [Faria, então supervisor da seleção] disse não, porque eram formados fora do Brasil. Não tive mágoa, mas não posso deixar de lado a carreira do moleque. Depois o Mano [Menezes, técnico verde-amarelo entre 2010 e 2012] veio falar comigo sobre ele jogar pelo Brasil na categoria de base, só que o Thiago já estava na principal daqui. Mas os dois se sentem brasileiros”.

E ELE COMEÇOU NA PONTA!

De ponteiro goleador na base do Vasco a meia objetivo no time de estrelas do Verdão

Falar de Mazinho na esfera de clubes remete imediatamente a Vasco, que o revelou, o acolheu entre 1983 e 1990 e pelo qual torce até hoje, e Palmeiras, o qual defendeu no inesquecível período 1992-1994, marcado pela chegada da Parmalat, a criação de um forte elenco (Edmundo, Roberto Carlos, César Sampaio, Zinho, Evair…) e a quebra do jejum de 17 anos sem títulos relevantes.

Mazinho-Vasco

Mazinho com a camisa do Vasco da Gama no Campeonato Carioca de 1990 (Foto: Marco Antonio Cavalcanti)

Mazinho guarda nostálgicas memórias de sua participação na geração de ouro gestada em São Januário, ao lado de Romário, Geovani e outros talentos. Foi naquela época, aliás, que começou a exercer sua versatilidade. “Na base, era ponta-esquerda, vice-artilheiro atrás só do Romário”, conta. “Em 1986 virei profssional, jogando de cabeça de área, só que em 1987 contrataram o Dunga. Quase fui para o Mogi-Mirim, mas o Joel [Santana], que era o técnico, me pôs de lateral. Como era ambidestro, tinha facilidade para organizar e marcar.”

Ao alviverde, chegou para atuar na ala direita, mas não se adaptou e só começou a render com a chegada de Vanderlei Luxemburgo e a mudança para o meio. “O grupo era maravilhoso, mesmo com todos os problemas que tínhamos, logicamente — Edmundo, Antônio Carlos…—, mas a gente resolvia ali mesmo”, recorda. “Era churrasco toda semana. Somos amigos até hoje. O que eu levei daquele Palmeiras foi que nunca joguei com gente tão boa, todos de seleção brasileira, e ninguém tinha frescura para nada.”

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3 Comentários

  • Marco

    D. Setti, Parabéns mais uma vez ao Daniel, pelo muito bom texto e pesquisa. Gostava muito do Mazinho no meio campo, jogador de apurada técnica e muita movimentação. Sempre foi o motorzinho dos times q passou. Justa reportagem, além de citar o craque, tb mostra uma personalidade família em q todos são atletas.E o pai Setti, tb tem razão, quando cita a falta de renovação necessária quase imediata no Barça. Acho q eles não podem ser considerados promessas, já q o Pep autorizou o investimento. Mas não posso “falar” pq não vi nenhum dos dois jogar. Do pai eu posso.
    Abs.

  • Ismael Pescarini

    Pô que saudades daquele Palmeiras e como é bom saber que deu frutos também pessoais aos craques que souberam aproveitar.

  • Ana Luz

    Não conhecia a história aguerrida desse jogador, que além de ser por si só louvável, ainda tem os filhos como valoroso bónus. Parabéns por nos deixar mais atualizados a respeito da historia de nosso pais, este blog é sem dúvida uma referência.