Artigo de 2004: Conflitos éticos à vista

Artigo de 2004: Conflitos éticos à vista Montagem: Shutterstock

E também: Candiota e a liberdade de imprensa, conflito de interesses na defesa de Gushiken, Bill Clinton e os empresários, a mídia futebolística patriótica, Chávez saúda Lula e FHC, Marta namora no cinema, Maluf e a volta da Rota, o exemplo de Giuliani e o “Brasil para exportação” na África

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Por mais que pareçam claras, legais e éticas suas intenções, a verdade é que podem não dar boa coisa esses “Comitês de Empresários PT 2004” que o partido está pondo em andamento. Sob o biombo de “apoio político ao PT”, “discutir a inserção do empresário nos problemas de sua comunidade” e “debater o desenvolvimento sustentável” das respectivas regiões, é inevitável que se realize captação de dinheiro, e dinheiro grosso, para a campanha eleitoral do PT.

As coisas podem se complicar com a perspectiva de conflitos éticos adicionais porque, entre os empresários que já começam a participar dos tais comitês, há não apenas gente de olho nos bons lucros das Parcerias Público-Privadas (PPPs) para obras de infra-estrutura, mas também fornecedores de prefeituras e governos estaduais (inclusive petistas) e do próprio governo federal. Sem contar o fato – implícito na promessa de o empresário participante “ser ouvido pelo governo federal” – de se confundir essa iniciativa, aqui e ali, com a compra de visitas a gabinetes poderosos.

Precedente americano

O precedente americano nesse terreno não é nada bom. O presidente Bill Clinton (1993-2001) teve sérios problemas quando se viu acusado de, em troca de dinheiro para campanha, acolher empresários graúdos em jantares na Casa Branca.

Em alguns casos, o programa completo incluía passar uma noite num dos aposentos da casa presidencial. Em pelo menos um, teria incluído, por obra e graça de uma doação especialmente generosa, o pernoite do empresário e esposa no quarto utilizado por Abraham Lincoln, o mitológico 16º presidente dos Estados Unidos (1861-1865).

Liberdade de imprensa

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Luiz Augusto Candiota, como se sabe, renunciou nesta quarta, 28, depois que a revista “IstoÉ” lhe atribuiu a titularidade de uma suposta conta milionária no exterior, não informada à Receita Federal.

Candiota, ao informar sobre sua decisão, lamentou o fato de a matéria dar a entender que ele teria se envolvido “em operações fraudulentas, tendo ignorado a legislação” e dela se distanciado “como se fosse um marginal”. Disse que sempre foi e continuará sendo “um defensor ardoroso da plena e irrestrita liberdade de imprensa”, mas declarou-se vítima do que chama de “libertinagem de imprensa”.

Ato contínuo, em vez de exercitar aquilo que diz defender ardorosamente, recusou-se a responder a qualquer pergunta dos jornalistas presentes.

Coisa nossa

A descoberta de que espertalhões vinham fabricando armas em casa para “devolvê-las” à Polícia Federal e embolsar a recompensa prevista na Lei do Desarmamento não deve desestimular tanta gente, dentro do governo e fora dele, que acreditou nos bons propósitos da lei e trabalha para que o esquema funcione.

Esse tipo de coisa também integra o caráter nacional. Tanto assim que podem escrever: traficantes que usam aviões para transportar drogas certamente procurarão fugir aos rigores da Lei do Abate levando crianças a bordo – uma das circunstâncias previstas na regulamentação assinada pelo presidente Lula em que a Força Aérea Brasileira não poderá de modo algum derrubar a aeronave clandestina.

Gushiken e a espionagem

Será que tem mesmo cabimento a determinação do governo para que a Advocacia Geral da União (AGU) defenda o ministro da Comunicação Social, Luiz Gushiken, nesse caso da espionagem empresarial efetuada pela Kroll International?

Se Gushiken foi espionado por suas atividades de consultor na disputa entre a Telecom Italia e o Banco Opportunity pelo controle da Brasil Telecom antes de entrar no governo a AGU nada tem a ver com isso, já que seu papel constitucional é representar juridicamente os interesses da União.

Se, porém, xeretou-se a vida do ministro porque ele teria atuado, já dentro da administração Lula, em favor de um dos lados, aí não é o caso de ser defendido pela AGU, mas de ser investigado pela Polícia Federal.

Campeão

Em matéria de patriotada futebolística na mídia, o troféu da semana vai sem dúvida para a primeira página do “Jornal dos Sports”. Com a manchete “Poeira neles”, o jornal informou a seus leitores na segunda, 26: “Argentinos amarelam e perdem Copa América para reservas da seleção”.

Chávez, Lula e FHC

Em recente conversa com um interlocutor brasileiro de fora do governo, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, voltou a manifestar sua gratidão à postura do Brasil diante dos problemas que sua gestão tem atravessado.

Amigo e admirador do presidente Lula, Chávez fez questão de ressaltar, na conversa, que estende sua gratidão ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Entre outros gestos do governo FHC, lembrou o envio de gasolina da Petrobras para ajudar a minorar os efeitos de uma prolongada greve de petroleiros, no final de 2002.

Telefones e banda larga

Por falar em Chávez: a infraestrutura de seu avião presidencial, um Airbus Corporate Jetliner que inspirou Lula a encomendar um igualzinho, certamente faria brilhar os olhos do presidente brasileiro. Entre outros dispositivos, o avião dispõe de internet de banda larga e de seis diferentes linhas telefônicas aptas a falar com qualquer lugar do mundo.

A cadeia de Rocha Mattos

Trata-se de expediente de advogados a alegação do juiz José Carlos da Rocha Mattos, preso sob suspeita de envolvimento num esquema de venda de sentenças judiciais, de que, por suspeita de câncer na próstata, precisa ser removido das duras condições da Penitenciária de Tremembé, a 130 quilômetros de São Paulo, para as menos ásperas condições da custódia da Polícia Federal na capital.

Os “exames especiais” a que o juiz precisaria ser submetido são perfeitamente factíveis em Tremembé, inclusive por meio do SUS.

O amor é lindo

Campanha eleitoral feroz é uma coisa, vida particular é outra. Ao deixar livre sua agenda para descansar em casa no domingo, 25, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), apenas repetiu o que já vinha fazendo discretamente.

No domingo anterior, por exemplo, de mãos dadas com o marido, o publicitário franco-argentino Luiz Favre, a prefeita podia ser vista na sessão das 18h20 do Cine Gemini 1, perto da Avenida Paulista. Apropriadamente, o casal assistia ao filme “Do Outro Lado da Lei” (“El Bonaerense”), do diretor argentino Pablo Trapero.

Cores tucanas

Rebatizados de Escola Estadual da Moóca, os prédios dos antigos Grupo Escolar Eduardo Carlos Pereira e Ginásio Firmino de Proença, estabelecimentos públicos de seu bairro natal da Moóca onde estudou quando criança e adolescente o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra, estão pintados de amarelo e azul, a cor dos tucanos.

As escolas públicas paulistas em geral são pintadas de branco.

Velha história

Em sua campanha para a Prefeitura paulistana, Paulo Maluf (PP) volta e meia promete que, se eleito, “a Rota vai voltar para as ruas”.

Para quem não sabe, a Rota é uma espécie de unidade especial da Polícia Militar hoje utilizada com parcimônia, que patrulha as ruas com peruas possantes, tripulada por homens considerados de elite fortemente armados e que tem no passado uma folha corrida de pesadas acusações por mortes suspeitas e outras arbitrariedades. Com tudo isso, virou o terror dos bandidos e é aplaudida pela população da periferia.

Só falta dizer ao eleitor que o prefeito de São Paulo não tem a mais remota relação com a Rota, ligada à Secretaria de Segurança do Estado e, em última instância, ao governador.

Jânio também

A vã promessa malufista não é novidade. Em 1985, o ex-presidente Jânio Quadros, à frente de uma esdrúxula coligação de partidos, derrotou o então senador do PMDB Fernando Henrique Cardoso prometendo aos paulistanos, entre outras maravilhas, a redução da criminalidade.

Tudo o que fez, porém, foi criar a primeira guarda municipal do país, a Guarda Civil Metropolitana. Em sua administração, mal e mal vigiava, desarmada, parques e prédios públicos.

Não foi bem assim

Embaralha os dados da história o prefeito do Rio, Cesar Maia (PFL), quando, ao especular sobre seu futuro político a longo prazo, não descarta a possibilidade de um prefeito queimar etapas e aboletar-se diretamente na Presidência da República, citando, como fez à colunista Dora Kramer, o caso do presidente francês Jacques Chirac, ex-prefeito de Paris.

O conservador Chirac, é verdade, foi prefeito de Paris entre 1977e 1995, mas, antes de chegar a seu primeiro mandato presidencial, em 1995, exerceu duas vezes o cargo de primeiro-ministro (entre 1974 e 1976, sob o também conservador presidente Valéry Giscard d’Estaing, e entre 1986 e 1988, afastando-se da prefeitura e “coabitando” com o presidente socialista François Mitterrand).

Pelo telefone

Cinco meses depois do crime bárbaro, é uma boa notícia que a Polícia Federal tenha enfim prendido seis suspeitos pela morte a tiros de três fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho em Unaí (MG).

Mas o fato de se ter chegado ao nome do suposto mandante, um grande fazendeiro, via interceptação telefônica autorizada pela Justiça mostra que, cada vez mais, o êxito da polícia no Brasil está associado a esse instrumento de investigação. Por falta de dinheiro, de competência técnica e de vontade política, o que deveria ser exceção vai se tornando regra. Com freqüência alarmante, provas assim produzidas têm caído na Justiça.

É o Brasil

A que ponto chegamos. Seja quais forem eventuais razões ocultas nesse movimento grevista de caminhoneiros, não deixa de ser significativo que parte do barulho se destine a exigir que o imposto sobre combustíveis, a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), seja usado pelo governo exatamente para uma das finalidades previstas na lei que o instituiu: “financiamento de programas de infra-estrutura de transportes”.

Números relevantes

O faturamento da indústria de reciclagem de latas de alumínio – subproduto da miséria urbana brasileira que transformou o Brasil no campeão mundial desse quesito, à frente de países como Japão, Suécia e Canadá – deverá ultrapassar, em 2004, a marca de 1 bilhão de dólares.

Números irrelevantes

A palmeira buriti plantada em frente do palácio do mesmo nome, sede do governo do Distrito Federal, tem 35 anos de idade.

Começar pela polícia

A rede de falsificadores de documentos sobre roubo de automóveis ora sendo desbaratada dentro da polícia de São Paulo – o objetivo é dar como perdidos carros na verdade encontrados, mas “legalizados” para venda a terceiros ou uso por policiais corruptos – mostra uma vez mais o acerto da tese-mestra do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani (1994-2002), sobre combate à criminalidade.

Para Giuliani, um ex-promotor linha-dura que derrubou dramaticamente os índices de criminalidade em Nova York, a primeira e indispensável tarefa para se fazer valer a lei – antes de se mexer em códigos, de se reformar o Judiciário ou de se gastar bilhões em equipamentos – é limpar a polícia.

Nossos valores em África

Lula chega às remotas paragens da República de São Tomé e Príncipe, no Golfo da Guiné, na África, e diz se orgulhar dos valores democráticos que o Brasil ajuda a disseminar naquelas paragens.

Mas a julgar pelo entusiasmo com que sucessos do funk mais rastaqüera produzido no país vicejam além-mar, como o tal “Beijo na boca é coisa do passado, a moda agora é namorar pelado”, e pelos trajes sumários exibidos por garotas que foram saudar o presidente, parece que os valores que estamos exportando são outros.

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