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Neymar em seus tempos de Santos: R$ 100 milhões a mais nos cofres do Peixe (Foto: Santos Futebol Clube)

Por Daniel Setti

Integrante da equipe do FutebolBusiness, site fundado em 2011, o consultor de marketing e gestão esportiva paulistano Amir Somoggi, 38, especializou-se em interessantes levantamentos sobre a indústria do futebol.

O que mais chama a atenção é “O Negócio Neymar”, no qual analisa o crescimento das receitas do Santos Futebol Clube entre 2009 – um ano antes da explosão do craque – até 2012, seu último ano completo com a camisa alvinegra. Segundo o estudo, o Peixe embolsou cerca de R$ 100 milhões em patrocínio, direitos televisivos e bilheteria por causa do atleta, desde maio, como todos sabem, contratado pelo F. C. Barcelona.

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O consultor Amir Somoggi (Foto: divulgação)

As cifras ajudam a entender as razões para o Santos ter mantido Neymar por tanto tempo, mesmo com o assédio pesado de grandes clubes europeus. E abrem também um precedente para que os clubes brasileiros por fim aprendam a explorar seu enorme potencial, e não apenas dentro de campo.

Como aumentar as receitas dos clubes? Até que ponto vale a pena investir nos novos talentos? Como internacionalizar as marcas dos nossos grandes? Em entrevista, Amir Somoggi propõe respostas para estes e outros enigmas do futebol brasileiro.

Pergunta: A que conclusões o senhor chegou com este estudo sobre o Neymar?

Resposta: Eu uso os dados para entender o crescimento e a queda de determinado clube. O Santos, por exemplo, cresceu antes do Neymar, mas o jogador acabou atraindo muita receita, porque ajudou dentro de campo, com o seu futebol, e fora de campo, gerando receita com patrocínio, transmissão de TV e bilheteria.

Agregou valor ao clube.

Houve algum outro caso parecido no Brasil?

Fiz este estudo também com o Ronaldo no Corinthians, e o resultado é idêntico, encontramos patrocínio e bilheteria.

O Corinthians se transformou no maior faturador do país assim.

Principalmente quando falamos em um ídolo, o torcedor e os patrocinadores pagam mais para vê-lo. O Corinthians deve ter gerado algo próximo de 40 milhões nos mesmos anos. Foi pioneiro.

A vinda do Ronaldo comprovou uma tese do ídolo aquecer a demanda doméstica do clube. Um retorno não apenas esportivo, mas financeiro. É a visão dos Estados Unidos e da Europa sobre o esporte.

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Ronaldo jogando pelo Corinthians: com ele no clube, o torcedor e os patrocinadores pagaram mais (Foto: Renato Pizzutto – Gazeta Press)

Que lições o futebol brasileiro pode tirar da permanência de Neymar no Santos por mais tempo que o normal, ou a vinda de Ronaldo?

Que colocar tudo na ponta do lápis vale a pena: ou vender o jogador para fazer caixa, ou mantê-lo, gerando mais receitas.

Manter o ídolo é a essência do negócio. Não adianta vender o Neymar e contratar o Robinho. Não entendo como um clube brasileiro não trouxe, por exemplo, o [veterano atacante marfinense Didier] Drogba antes dele ir jogar na China, para depois seguir para o Galatasaray, da Turquia.

Ele é midiático, vende camisas e seu salário é pagável. Os clubes devem pensar: “que jogador posso trazer?”. O Brasil está muito mais atraente, por seu ambiente de negócios, e em comparação com os campos em que se joga na China.

No caso de craques revelados pelos próprios clubes, qual a melhor forma de agir?

Vale a pena ficar pagando um jogador por 10 anos para ver o retorno. Mas não estou vendo novos exemplos parecidos com o caso Neymar no Brasil.

O que estou vendo são os mais velhinhos. Um bom exemplo é o [Clarence] Seedorf [grande volante holandês atualmente no Botafogo]. Temos que fazer um jogador por time com este potencial; os grandes em um patamar, os pequenos em outro.

Quais clubes do mundo o senhor considera bem geridos com relação à marca?

O Real Madrid. O clube ficou um período longo sem ganhar títulos, mas com times competitivos, salários altos e sem parar de gerar receita. É um efeito híbrido.

O Manchester United também, mas o que soube aproveitar melhor foi o Real Madrid. E o Barcelona, que conseguiu unir tudo, com uma estratégia global mais consistente, e que lhe permitiu manter suas raízes.

O Real, por exemplo, perdeu suas raízes. No Barça, aliás, o Ronaldinho foi muito importante naquele momento de expansão do marketing do clube.

Há também os clubes esportivos dos Estados Unidos, mas estes nem precisam do mercado global, trabalham tranquilamente no mercado americano.

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Ronaldinho ajudou o Barça também fora de campo (Foto: Giuliano Bevilacqua – Placar)

Como será a presença de Neymar, um astro tão midiático, neste gigante futebolístico e de marketing chamado Barcelona?

Como todos os brasileiros, o Neymar vai se deparar com uma estrutura de marketing que nunca viu na vida. O clube com mais torcedores no mundo. [No Santos] ele era tudo, agora ele será importante, mas será uma parte.

No Barcelona os ídolos são trabalhados para agregar valor eterno ao clube. O Neymar será colocado nesse novo mundo. Ele chegou ao Barcelona em um novo patamar por sua atuação na Copa das Confederações, o mundo todo viu. O Barcelona pagou barato, pelo que recebeu em retorno.

Qual deve ser o “passo-a-passo” para um clube que vê um craque com tanto potencial surgir em suas categorias de base?

 Se há mesmo potencial, é preciso fazer um plano de marketing, e conforme o jogador for subindo na carreira, deve evoluir mercadologicamente. Como fizeram com o Neymar.

Mas não, as áreas de futebol dos nosso clubes não estão preparadas, porque não estão diretamente ligadas às de negócios.

Dentro dos departamentos de futebol teria que existir alguém com este viés, de fazer marketing. Não só vendendo camisas, mas fazendo ações de marketing.

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6 Comentários

Cronos em 18 de setembro de 2013

Acontece que no caso Neymar a coisa foi um pouco mais complicada.O Santos jamais conseguiria mantê-lo por mais tempo.A mídia nacional,comandada pela rede Globo,deflagrou uma campanha infame,sórdida,para tirá-lo do peixe.Não interessava à rede Globo a permanência dele no SFC.Por motivos pra lá de óbvios.

Leonardo Saade em 15 de setembro de 2013

O Brasil um celeiro de craques,mas sempre foi amador na questão de gestão profissional do futebol. Acho que Ronaldo no Corinthians foi um divisor de águas. Serviu para mostrar que o Brasil tem mercado sim, para contratar e manter jogadores de alto nível. É difícil ver um clube do tamanho do Flamengo por exemplo, não aproveitar seu potencial de marketing por sucessivas diretorias irresponsáveis.

carlos nascimento em 15 de setembro de 2013

Ricardo, Gostaria de ter sua opinião sobre o fim do casamento entre Felipe Massa x Ferrari, novamente, os pilotos brasileiros são burro de carga da escuderia, após a vergonhosa novela mexicana - Schumacher x Rubinho - com episódios deploráveis, fato idêntico se repete com a novela espanhola - Alonso x Massa - o final já esperado se efetiva, Alonso fica e Massa dança. O que me deixa intrigado e o pessoal da GLOBO, que investe milhões no automobilismo - F1 - e após a era SENNA, não consegue pressionar o mundo da F1 para pelo menos permitir que um piloto brasileiro tenha condições de se tornar novamente Campeão. O grande problema é a falta de coerência, exaltam virtudes do "circo" da fórmula um, quando todos de antemão sabem que o que vale são os $$$$$$$ dos patrocinadores, enquanto não romperem com esses paradigmas, vão continuar fazendo genuflexões, o Brasil estará enterrando o sonho de possuir novos Campeões desse esporte. Rubinho e Massa não tiveram coragem de romper com essa vergonhosa jogada de bastidores, se contentaram apenas com os milhões em suas contas bancárias, o sonho de se tornarem Campeões ficou sempre em segundo plano, serviram de escada para Schumacher e Alonso. Caro amigo Carlos, Vou lhe contar uma novidade: de uns anos para cá, perdi completamente o interesse pela Fórmula 1 e não tenho acompanhado mais nada, nem por TV, nem pelos jornais ou sites. Não posso dar opinião. Faria com prazer, mas o caso é este. Lamento! Abração

carlos nascimento em 15 de setembro de 2013

Ricardo, Xiiiiiii, parece que tenho razão, o seu time está virando o "fio", Corinthians 1 x 2 Goiás, em pleno Pacaembu, a "urucubaca" atravessou o Morumbi.....rs.rs.rs.rs.rs

carlos nascimento em 14 de setembro de 2013

Ricardo / Daniel, Sem qualquer sombra de dúvida, o marketing esportivo (Profissional) é fundamental para alavancar o desenvolvimento e as receitas de qualquer "marca" esportiva, os americanos há anos fazem isso, a NBA foi pioneira nesse processo, gerando fábulas de dinheiro. Nosso País ainda corre atrás, as oligarquias, as velhas raposas empoleiradas nas cadeiras de presidente e dos conselhos deliberativos emperram essa revolução, que se fazem necessário, urgentemente. Os exemplos citados - Neymar e Ronaldo - servem de parâmetro para novas investidas, estamos ainda engatinhando nesse processo. Fico aqui pensando, como pode ocorrer um desastre de desperdício, Clubes como o FLAMENGO, com toda a sua mística, tradição, grandiosidade, viver nos dias atuais como um mero coadjuvante dos campeonatos, não consegue manter ascendência, com um elenco - me perdoem os rubro-negros - pífio, sem um Arena própria, sem o fortalecimento de suas bases, que sempre geraram grandes ídolos, Zico e cia. foram belos frutos, que o passado não conseguiu transformar em futuro promissor. Nunca é tarde, pode começar já, primeiro tem de lavar o lixo debaixo do tapete, realizar transparência e contratar PROFISSIONAIS qualificados para gerir os negócios, é hora do mais famoso URUBU virar REI.

Marco em 14 de setembro de 2013

Don Setti, Daniel; ótima matéria, mas tenho algumas incertezas, por exemplo o Inter recebeu ótimas propostas pelo Damião e não quis vender, às vezes acho, q tb se pode, cfe o momento ficar engatado mais tarde com isso na "prateleira". Sempre é difícil de saber, claro q comparar com Neymar é mais fácil, por ser a maior estrela individual do país. Outro exemplo, no próprio Inter. Só q a contrário, eu sempre fui a favor chegou proposta vende. é o Dalessandro. O Inter bancou uma proposta irrecusável da China. E fez certo em manter pq o time é sua personalidade. O mesmo vale para o Seedoff, eles mesmo se pagam e trazem torcedores e sócios para o clube. Mas para isso tem q serem jogadores de personalidade para conquistas. Vou te dar uma bola nas costas, quem joga mais o Paulinho ou o Bale e se são da mesma posição? Abs.

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