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Robben, “o Cara” da Copa até agora, Sneijder e Huntelaar, que despacharam ontem o México e levaram a Holanda para as quartas não serviram para o Real Madrid (Fotos: AFP :: Claudio Villa/Getty Images :: AFP)

Pensem num time que tenha um goleiro de boa qualidade e dois bons laterais. Coloquem na zaga, o argentino Garay e o espanhol Albiol. Depois, escalem um meio-campo com o argentino Gago, o alemão Özil e o holandês Sneijder. Na frente, um ataque demolidor com o flecha holandês Robben, o também holandês van der Vaart e o argentino Huiguaín. Como reserva, haveria ainda outro holandês, Huntelaar.

Timaço, não? Pois bem, todos eles saíram em anos recentes do Real Madrid — vendidos por preços abaixo do que valiam, cedidos a preço de banana ou simplesmente mandados embora. Praticamente um time inteiro, de alta qualidade, melhor do que a maioria das seleções que disputam a Copa de 2014 no Brasil.

É desperdício demais, não? São coisas de um supertime miliardário, o melhor do século XX segundo a FIFA, de técnicos caprichosos e de seu bilionário presidente, o empresário Florentino Pérez, 67 anos.

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Cristiano Ronaldo com Florentino Pérez no dia da assinatura do contrato com o Real Madrid, em 2009: um presidente de clube que não economiza no talão de cheques — mas que também deixa sair em penca craques contratados a peso de ouro (Foto: C. F. Real Madrid)

Ninguém sabe ao certo quanto, euro por euro, quantas centenas de milhões ele gastou para montar o esquadrão que finalmente conquistou este ano seu décimo título de vencedor da Liga de Campeões da Europa, o principal torneio interclubes do planeta, que perseguia há 12 anos.

Florentino foi o inventor dos “galácticos”, o caríssimo time de estrelas que incluiu craques como o português Figo, os brasileiros Roberto Carlos e Ronaldo Fenômeno, o francês Zinedine Zidane e os ingleses David Beckham e Michael Owen, entre outros, durante sua primeira gestão, entre 2000 e 2006.

Depois que voltou em 2009 ao posto em que continua, Florentino não economizou para montar o time que encerraria um longo jejum de títulos espanhóis para o clube e acabaria quebrando um tabu para realizar o sonho de la décima, a 10ª conquista da Champions League.

Para chegar lá, ele comprou craques caríssimos, começando por Kaká, do Milan (60 milhões de euros, ou 186 milhões de reais), e o português Cristiano Ronaldo, do Manchester United — até então a contratação mais cara da história, 94 milhões de euros (mais de 290 milhões de reais) –, além de, entre outros, o francês Benzema, do Olympique Lyonnais, e o espanhol (basco) Xabi Alonso, do Liverpool, todos em seu primeiro ano de mandato.

No ano seguinte, também a peso de ouro, Florentino arrebatou à Inter de Milão o treinador que mais títulos de Champions havia arrebatado, o português José Mourinho, que fez um grande barulho no futebol espanhol mas, no final das contas, não correspondeu às expectativas e deixou o clube em 2013. Pouco depois da substituição de Mourinho pelo italiano Carlo Ancelotti, Florentino bateria todos os recordes de gastança trazendo o galês Gareth Bale, do Tottenham Hotspur inglês, por 100 milhões de euros (mais de 300 milhões de reais).

No caminho, porém, jogou para fora do barco praticamente a seleção inteira de grandes jogadores, nove dos quais chegaram à Copa do Mundo do Brasil, com mencionei no primeiro parágrafo deste texto.

Imaginem, amigos, que o Real de Florentino suspirou, aliviado, quando se livrou daquele que é hoje uma das grandes estrelas da Copa 2014, o  sensacional holandês Arjen Robben, que atuou no Real entre 2007 e 2009.  

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Os atacantes van der Vaart e Higuaín e o meia Gago: comprados por preços milionários para depois serem rifados (Fotos: Patrik Stollarz/AFP/Getty Images :: Jasper Juinen/Getty Images :: Stephen Pond/Empics Sport)

Comprado por 40 milhões de euros ao Chelsea, Robben acabou deixando a Espanha dois anos depois rumo ao o Bayern de Munique por 15 milhões menos. No Real, Robben vivia contundido e tinha uma injusta fama de “pipoqueiro” mas, no Bayern, chegaria ao ponto máximo da carreira.

A dispensa de Robben em 2009 se deu numa onde de má-vontade contra o punhado de holandeses que povoavam o time, e que incluiu Sneijder, trazido do Ajax por 27 milhões de euros e despachado por 15 milhões para a Inter de Milão (hoje está no Galatasaray turco), Huntelaar. comprado no ano anterior ao mesmo Ajax por 20 milhões de euros e vendido abaixo do preço, nunca revelado, para o Milan (agora atua no Schalke 04 alemão), e van der Vaart, que viera em 2008 do Hamburgo por 13 milhões de euros e transferiu-se para o Tottenham inglês em 2010 por 11 milhões (depois voltou ao Hamburgo, onde continua).

Sim, eu sei que van der Vaart teve que ser cortado da seleção da Holanda por contusão há algumas semanas, mas foi convocado para a Copa e vale nesta contagem. 

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Garay, Özil e Albiol: o meia (ao centro) e os zagueiros seriam benvindos na maior parte das seleções do mundo (Fotos: Getty Images :: Getty Images :: AFP/Getty Images)

Ela ainda inclui dois argentinos: Fernando Gago (atual Boca Juniors), então revelação do Boca em 2006, mudou-se para Madri em troca de 27 milhões de euros. Chegou a ser titular em diferentes épocas, mas era difícil afastar um ídolo da torcida como o madrilenho Guti e aos poucos suas chances minguaram com a vinda de outros craques de maior cacife como Xabi Alonso, e ele terminou sendo emprestado à Roma para, finalmente, regressar à Argentina, primeiro para o Vélez até seu retorno ao Boca.

O caso de Garay, promissor zagueiro campeão olímpico pela Argentina em 2008 que o clube espanhol logo arrecadou, é diferente: bom de bola, grande (1,92 metro) e jovem (tinha 21 anos), ficou três anos mofando na reserva enquanto o time tentava a solução para um problema que Albiol, contratado ao Valencia, não resolveu. Até que o lateral Sergio Ramos mudou de posição para fazer companhia a Pepe. Cansado de esperar, Garay mandou-se para o Benfica até partir recentemente para o Zenit, da Rússia, a fim de forrar a conta bancária.

Finalmente, há o caso de Özil, craque consagrado do meio de campo da seleção alemã, contratado ao Werder Bremen depois de brilhar na Copa da África do Sul. Por razões não esclarecidas, apesar de sua declarada intenção de prosseguir no Real, terminou cedido ao Arsenal — como se dera com a contratação, os números não foram revelados.

Coisas do Real Madrid de Florentino Pérez, a quem os cartolas e os jornalistas adversários criticam por montar times “à base do talão de cheques”, sem, supostamente, amalgamar os craques como grupo vencedor.

O problema, para os críticos do empresário, é que, depois de anos de frustrações muito caras, o time, agora, não para de ganhar títulos.

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Alberto fernandn em 14 de setembro de 2014

Depois da decima o madrid nao devia mexer mais o plantel essa foi uma grand falha

Adevaldo Nascimento em 06 de julho de 2014

Tirando o Robben e o Ozil, o resto é tudo meia boca.

marcelo cunha - rib preto/sp em 02 de julho de 2014

Ruintelaar não dá, né caro Setti?

Leonardo Saade em 02 de julho de 2014

Apesar da maioria dos brasileiros terem uma preferência pelo Barcelona no futebol espanhol, confesso que tenho preferência pelo Real Madrid, principalmente depois da primeira geração dos "galácticos". Ronaldo e Zidane foram dois dos maiores jogadores que eu vi jogar, e ao lado de craques como Figo, Beckham e Roberto Carlos, formaram um esquadrão formidável!. Embora não tenham ganhado muitos títulos, esse time fez partidas memoráveis! A segunda geração dos "galácticos" tem em Cristiano Ronaldo sua estrela máxima , e apesar de ganhar alguns títulos, ainda faltava "lá décima" . Quando O real contratou o galês Bale no início da temporada, eu particularmente achei que fosse uma resposta a badalada contração de Neymar pelo rival Barcelona, que uma contração efetiva. Apesar de achar Bale um ótimo jogador não achava que ele faria a diferença, mas me enganei. O galês brilhou em jogos importantes, e sem ofuscar a brilhante temporada de Cristiano Ronaldo, ajudou o time de forma discreta, mas fundamental, e ainda foi premiado com um belo gol na final da Champions! Uma bela reportagem caro Setti, sobre a força do Real. Mesmo dispensando um esquadrão de craques, ainda monta times que começam qualquer temporada como favoritos a todos os títulos que disputam! Um abraço Setti! Ótimo post!

Lobinho em 01 de julho de 2014

E acaba de ganhar a Liga dos Campeões. É assim mesmo. Quem tem o dinheiro que eles têm pode se dar a esses luxos. Por acaso ainda não ficaram com o CR7, o Di Maria, o Sérgio Ramos, o Benzema, o Xabi Alonso etc, etc, etc?

Tcheves em 01 de julho de 2014

Setti, desses aí os únicos que salvam são o Ozil e o Robben. O Higuain ta fazendo doer as vistas de tão ruim.

Alessandro Delfini em 01 de julho de 2014

Se não me engano Ozil foi para o Arsenal!! Você tem toda razão. Outro amigo leitor me havia avisado e acabei me esquecendo de corrigir. Agora está correto. Um abraço

Luiz C. em 01 de julho de 2014

Isto explica em parte a dívida de mais de um bilhão de euros do clube e o fato do Barcelona ganhar quase tudo na Espanha ultimamente... O Barcelona deixou há um bom tempo de "ganhar tudo", caro Luiz. E a dívida do clube é quase igual à do Madrid. Até já publiquei post detalhado a respeito, com números oficiais.

Marcus em 01 de julho de 2014

Ozil joga no Arsenal. Obrigado pela correção.

Tcheves em 30 de junho de 2014

Caro Setti, Desculpe por postar isso nesse tópico. Mas gostaria de compartilhar contigo o que eu enxergo como o problema crônica da nossa seleção. O problema da seleção brasileira está cada vez mais explícito e claro. O 4-2-3-1 que o Felipão armou não é adequado para os jogadores que ele convocou e muito menos pras funções que designou para cada jogador. O 4-2-3-1 é uma invenção moderna e utilizado por 90% das equipes do futebol mundial. É um sistema eficiente, desde que se tenha as peças certas no time. Este esquema foi muito bem utilizado pelo Cuca, no time campeão da Libertadores de 2013. Neste esquema, além dos quatro defensores e dos 2 volantes, há uma linha de três jogadores no meio campo, com os dois mais abertos atacando e voltando pra marcar os laterais. Esse tipo de esquema defende com oito jogadores de linha, sendo os dois zagueiros, os dois volantes, os dois laterais e os dois meio-campistas que que jogam abertos. Os únicos dois jogadores que não tem funções explícitas de marcação são o camisa 10 e o centro-avante. No 4-2-3-1 do Cuca, os jogadores abertos eram o Tardelli e o Bernard. Os dois faziam bem a função de voltar pra marcar. Ronaldinho era o camisa 10 que tinha como única função armar as principais jogadas do time. Mas por que esse esquema não funciona na seleção? Simples. Oscar é o jogador com as características de um camisa 10. Joga com a cabeça em pé, tem ótimo passe, ótimos lançamentos de longa distância e bom chute de fora da área. Ele deveria ser o jogador centralizado e, principalmente, isento da função de marcação. Entretanto, Felipão deixou Oscar jogando aberto e correndo atrás do lateral do time adversário pra marcar. Ou seja, matou nosso legítimo camisa 10. Pra piorar, ele deu essa função pro Neymar. O que Neymar faz quando recebe a bola é o oposto do que um camisa 10 deveria fazer. Quando Neymar recebe a bola, ele abaixa a cabeça e tenta resolver sozinho. Só passa a bola quando já não tem mais alternativas e está de costas pro gol. É por isso que não temos meio-campo. Nossos principais jogadores do setor estão fazendo, ou deveriam estar fazendo funções que não são capazes de fazer. Infelizmente, apenas trocar os dois jogadores de função não resolveria este problema crônico da equipe. O motivo? Neymar. O craque da seleção não tem características de marcação e não poderia jogar como meio-campista aberto que marca o lateral. Além do que, pelo que conhecemos do Neymar, ele seria expulso constantemente se fosse um marcador. Mas Neymar é o craque do time, é o jogador diferenciado que temos. Portanto, o esquema deve ser adaptado a ele. Felipão deve urgentemente mudar o esquema tático da seleção brasileira. O 4-2-3-1 é o esquema mais moderno que temos hoje no futebol, mas existem outros esquemas. É possível armar uma equipe confiável defensivamente com apenas sete jogadores defendendo. É o que ocorre no 4-4-2 losango. No elenco do Felipão há muitos volantes que sabem sair jogando, é possível escolher dois deles para que joguem abertos e com um primeiro volante jogando plantado no meio dos dois zagueiros. Ou seja, os zagueiros, os 2 laterais e os 3 volantes teriam as funções de marcação, enquanto Oscar jogaria como o autêntico 10, abastecendo Neymar e mais um outro jogador na frente, que pode ser um centroavante ou até mesmo outro atacante de velocidade. Dessa forma, Oscar vai ficar livre pra receber a bola com espaço e condição de armar a equipe. Outra vantagem é que Neymar vai passar a receber a bola numa posição de campo mais avançada geograficamente, onde ele efetivamente deve e pode tentar uma jogada individual.

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