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Através do ultrassom, o médico tem acesso em tempo real ao que se passa no interior de uma pessoa. O projeto corporativista quer retirar este importante passo para o diagnóstico dos médicos especialistas e atribuí-lo a técnicos (Foto: Getty Images)

Por Eduardo Bancovsky, médico ultrassonografista em São Paulo

Você seria capaz de fazer um relatório preciso sobre as minhas férias apenas vendo as fotos que eu tirei?

Obviamente não. Talvez pudesse descrever os momentos documentados em cada uma das fotos. Mas certamente nem tudo foi fotografado, o que tornaria o seu relatório impreciso.

Esta analogia, que num primeiro momento não tem relação alguma com a medicina, explica bem o que pode acontecer se determinado projeto de lei for aprovado.

Projeto de Lei nº 3661/2012 está tramitando na Câmara dos Deputados (foi elaborado pelo Conselho Nacional dos Técnicos em Radiologia) e quer retirar dos médicos o direito de fazer exames de ultrassom, tornando isso privativo aos técnicos, tecnólogos e bacharéis em ciências radiológicas.

Cabe salientar que atualmente, o exame de ultrassom é realizado por um médico especialista, que para desempenhar tal função, estudou no mínimo 6 anos de faculdade e 3 de especialização. O ultrassom é um exame de imagem não invasivo que permite o estudo do corpo humano em tempo real de forma dinâmica.

O médico examinador está avaliando os órgãos do paciente em tempo real, utilizando a tecnologia de ponta para poder ver o paciente por dentro. Quando necessário, são realizadas manobras específicas para otimizar o método. Durante o exame são obtidas fotografias dos órgãos analisados quer estejam normais ou alterados. As fotos servem para orientar posteriormente a elaboração do laudo médico, assim como para documentar o que foi visualizado.

A projeto propõe que outro profissional realize o exame e fotografe para que, num segundo momento, algum médico analise as fotos.

Como paciente, você prefere que um médico especialista o examine, ou que ele examine apenas as fotos de seus órgãos obtidas por outro profissional?

Passar a função da realização do exame para outro tipo de profissional é extremamente perigoso.

Os tecnólogos não têm em sua formação a mesma base de conhecimento anatômico, fisiológico e patológico que é atribuída ao médico especialista.

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Você é capaz, através dessa foto, de dizer como foi a viagem dessa pessoa? (Foto: Getty Images)

O risco de documentação inadequada aumenta de forma significativa. Além disso, quem vai ser o responsável pelo laudo do exame?

O médico que irá analisar as fotos não vai ter as informações obtidas em tempo real. Voltando ao exemplo das férias, a foto da praia ficou linda, mas só pode contar como foi, quem realmente estava lá. A praia pode ser encantadora como a da foto, mas e o contexto? A água do mar estava gelada? O dia de passeio foi realmente agradável como sugere a foto? Quanta informação pode ser perdida nesta transferência de cargo?

O médico terá menos informações para elaborar seu diagnóstico.

Realmente não faz grande diferença no exemplo das férias se o banho de mar foi bom ou não. Mas e no seu corpo ou no corpo de um parente seu? Acredito que todo e qualquer pequeno detalhe faz uma grande diferença.

A mudança proposta visa automatizar mais ainda a nossa Medicina, afasta o médico do paciente, como se a Revolução Industrial viesse bater a nossa porta tardiamente, reduzindo o custo sem se preocupar com a qualidade. Reduzir mais ainda o custo de um exame, que já apresenta uma excelente relação de custo X benefício ao paciente, é realmente perigoso.

Caso este projeto seja aprovado, o médico especialista em ultrassonografia não poderá mais realizar exame de ultrassom. Somente os técnicos, tecnólogos e bacharéis terão, por lei e não por competência, o direito de fazer um exame diagnóstico que salva vidas, orienta o tratamento, indica ou contraindica cirurgias.

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