Artigo de 2005: Crise artificial e punhos na mesa

Artigo de 2005: Crise artificial e punhos na mesa Foto: domínio público

E mais: o arroz-de-festa Severino, megacalote tucano em SP e o silêncio de FHC a respeito, mais sindicalistas no governo, médicos cubanos na Venezuela, egípcios pirateiam Paulo Coelho, Itamaraty pisa na bola na Síria e a praga dos jornalistas que fazem publicidade

………………………………………………………………………………………………………………………………………………

A tensão política decorrente do discurso em que Lula disse ter mandado um “alto companheiro” silenciar sobre corrupção durante o governo FHC é um belo exemplo, talvez o mais gritante dos últimos anos, de como um presidente pode criar e deixar andar artificialmente uma crise. Mas também diz muito sobre seu antecessor.

Lula queria cutucar FHC por seu suposto boicote à tentativa do governo de eleger o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) para a presidência da Câmara, mas sua verborragia fez com que fosse além do pretendido. Antes mesmo da reação da oposição – pedido do PSDB de um processo contra Lula na Câmara, pedido explicações dos tucanos encaminhado ao Supremo, representação criminal do PFL junto ao Ministério Público por Lula ter se omitido diante de um possível delito, representação do ex-ministro e hoje deputado Raul Jungmann (PPS-PE) –, um estadista teria feito a coisa mais simples do mundo: retratar-se educadamente.

Pronto, a crise se esfumaçaria.

Quanto a FHC, sua resposta punhos-de-renda – “se, entretanto, tudo não tiver passado de um rompante diante de críticas que tenho feito ao governo, lamento a falta de controle verbal e espero a necessária retratação”, diz a certa altura a nota que divulgou – comporta diferentes leituras. Inimigos políticos e críticos acerbos, por exemplo, podem sentir-se autorizados a dizer tratar-se da reação sinuosa de um presidente cujo governo sufocou CPIs e fez o que pôde para impedir investigações. E muitos de seus simpatizantes talvez tenham constatado que, tal como sucedia quando estava no poder, o ex-presidente tem enorme dificuldade de bater o punho na mesa.

Zen

No auge do tiroteio governo-oposição por causa das declarações de Lula sobre o período FHC, não deixou de ser uma manifestação de civilidade o fato de, em Washington, terem se sentado à mesma mesa de jantar com o presidente do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, o ex-presidente e o ministro Gilberto Gil.

Arroz-de-festa na festa do arroz

Severino em São Paulo, Severino em Roraima, Severino participando até da 15ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz em Dom Pedrito (RS).

Com o perdão do trocadilho, o novo presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), é o mais recente e espalhafatoso arroz-de-solenidade da vida pública brasileira.

O mega-calote tucano em SP

Está certo que, a cada dia que passa, fica cristalinamente claro que a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) deixou a Prefeitura de São Paulo em situação pré-falimentar, apesar de seu apregoado zelo pelas finanças municipais e sua suposta preocupação com a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Da mesma forma, são compreensíveis as intenções, justificativas e argumentações técnicas do prefeito José Serra (PSDB) para fazer frente aos 2 bilhões de reais cobrados por 12 mil credores que teriam prestado serviços à gestão Marta sem receber um tostão.

Mas a proposta da administração Serra de pagar, ao longo deste ano, no máximo 100 mil reais para cada credor – ainda que isso quite a dívida de mais de 90% dos prestadores de serviços e fornecedores da Prefeitura –, espichando, unilateralmente, ao longo de sete longuíssimos anos, o acerto de contas com 900 empresas com um total de 1,5 bilhão a receber só merece um nome: calote.

Um mega-calote, de proporções argentinas, que representa um golpe feio em uma década inteira de pregação tucana em prol da sacralização dos contratos e da necessidade de segurança jurídica para investidores.

Perguntar não ofende

O que tem a dizer sobre o calote de Serra o ex-presidente Fernando Henrique, grão-senhor do tucanato e incansável defensor da intocabilidade de contratos assinados pelo Estado?

Ponto para o Congresso

Deus sabe que existem razões para queixas dos cidadãos contra o Congresso, mas a aprovação final do projeto de alteração do Código Penal pelo Senado e pela Câmara dos Deputados que, entre outros pontos, acaba com o crime de adultério faz, neste terreno, o Brasil deixar o século XIX.

Companheiros na boa

O vasto contingente de sindicalistas encastelados no governo ostenta brilho nos olhos com a perspectiva de, na próxima reforma ministerial, ter um novo companheiro ocupando um empregão oficial, com a possível ida do ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, para a presidência do Banco do Brasil.

Berzoini foi presidente do Sindicatos dos Bancários de São Paulo e da Confederação Nacional dos Bancários. O BB vem sendo presidido interinamente pelo funcionário de carreira Rossano Maranhão Pinto desde a demissão, em novembro, do economista Cássio Casseb.

Tirando o sindicalista do ar

Também deputado (hoje licenciado) pelo PT, a biografia do ministro no site da Câmara dos Deputados tinha um link para seu site pessoal. Numa área do site dedicada a imagens, havia fotos do sindicalista Berzoini gritando, de megafone em punho, em piquetes diante de sedes de bancos.

Durante a fase final da campanha eleitoral de Lula, as fotos sumiram do site. Com a eleição de Lula, em 27 de outubro de 2002, Berzoini achou melhor, por alguma razão, tirar o site do ar.

Nova moeda: o severino

Durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), o economista e futuro ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen ironizou a gastança desenfreada do ministro dos Transportes, Mário Andreazza, criando uma unidade monetária fictícia, o “andreazza” que, na moeda fraca da época, valeria um trilhão de cruzeiros.

Se o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), conseguir mesmo aprovar o aumento salarial de quase 70% aos deputados federais, somado à elevação de outras verbas e benefícios e, com isso, provocar efeito-cascata em salários dos três Poderes federais e estaduais país afora, já será possível em nova moeda: um “severino” equivalerá a 1,4 bilhão de reais.

Inundação de médicos cubanos

O ditador Fidel Castro disse recentemente a um interlocutor brasileiro que há 18 mil médicos cubanos trabalhando em Caracas e sua periferia, como parte da “solidariedade de Cuba” ao governo do presidente Hugo Chávez.

Pode ter sido um lapso de memória, pode ter sido excesso de entusiasmo – por comparação, no Estado de São Paulo inteiro, com seus quase 40 milhões de habitantes, há 85 mil médicos ativos –, mas foi exatamente esse o número mencionado por Fidel.

TVs ralos de dinheiro

As reformas ora em curso que vão transformar a tribuna, o plenário e as galerias do edifício da Câmara Municipal de Araçatuba (SP) num virtual estúdio de televisão encerram uma metáfora irônica sobre os políticos – no caso, os vereadores – como atores, o que acaba levando inevitavelmente a outra – a política como ficção ou farsa.

O propósito dos vereadores desse grande centro de pecuária com 170 mil habitantes a 540 quilômetros de São Paulo é não apenas permitir a transmissão das sessões por uma emissora a cabo local, mas fazer do edifício do Legislativo um centro para encenar peças de teatro e outros espetáculos – incluindo programas de auditório.

Quem pensa que o caso de Araçatuba, descoberto recentemente pelo repórter Chico Siqueira, é isolado, engana-se: dezenas de Câmaras Municipais pelo Brasil afora dispõem de modernos equipamentos de televisão – e contrataram os respectivos técnicos responsáveis – para transmitir e/ou gravar suas sessões.

Esse ralo de dinheiro público, inspirado nas emissoras próprias montadas anos atrás pelo Senado e pela Câmara dos Deputados – e, em seguida, por quase todas as 27 assembléias legislativas – é virtualmente desconhecido da grande imprensa.

Calote egípcio em Paulo Coelho

Quando proferir uma palestra programada para o mês que vem, no Cairo, é possível que o escritor Paulo Coelho esteja sendo remunerado no Egito pela primeira vez na vida. Lá, todas as edições de seus livros que foram publicadas – e cujo número exato o próprio escritor ignora – são piratas.

O amigo Assad

Curioso o chanceler Celso Amorim ir visitar o ditador sírio, Bashar Assad, em Damasco, e lá defender resoluções da ONU como forma de resolver os conflitos do Oriente Médio.

Pois lembremo-nos de que o governo brasileiro gosta tanto de resoluções da ONU que se absteve de votar a favor justamente de uma delas, importante e referente precisamente a um conflito do Oriente Médio: a 1559, aprovada no dia 2 de setembro de 2004 pelo Conselho de Segurança e que exige a retirada das forças sírias estacionadas no Líbano desde os primórdios da guerra civil libanesa (1975-1990).

Do lado favorável à retirada dos hoje 15 mil soldados e incontáveis agentes secretos sírios que transformam o Líbano num protetorado do ditador Assad estão países como a França, a Alemanha, a Espanha e a Grã-Bretanha. O Brasil, porém, preferiu a companhia de regimes como os da China, do Paquistão e da Argélia.

Canelada nos americanos

A explicação oficial do embaixador Ronaldo Sardenberg para que o Brasil se mantivesse em cima do muro: tratar-se-ia de uma “questão interna” do Líbano. Além disso, o Brasil julgou que não ficou suficientemente caracterizada no texto da resolução “a existência de uma disputa capaz de ameaçar a paz e a segurança internacionais”.

São contorcionismos diplomáticos para nublar o cerne do problema: o Itamaraty escolheu a ocasião para desferir uma das costumeiras caneladas nos Estados Unidos, ferrenhos defensores da retirada das tropas sírias e que encabeçaram o voto a favor da resolução no Conselho de Segurança.

China e Cuba

A abstenção na resolução sobre o Líbano se soma a pelo menos dois votos semelhantes que deveriam fazer corar os brasileiros de bem: não condenamos nem China nem Cuba na ONU por abusos contra os direitos humanos.

Praga

A nova versão das normas para veiculação de comerciais na Rede Globo que entra em vigor em abril continua incluindo a proibição de que seus jornalistas façam qualquer tipo de publicidade.

Jornalista que se preze nem precisaria de proibição do patrão para tanto, mas, de todo modo, deve-se aplaudir a preocupação e o bom exemplo da Globo. Que, porém, não se estendem a outros órgãos de imprensa – e essa praga que mina a credibilidade de jornalistas e veículos continua se alastrando.

Style news

A cabeleira grisalha domada a poder de escova de cabelereiro que o novo presidente do Uruguai, o socialista Tabaré Vázquez, ostentou em sua posse na terça-feira, dia 1ª, estava de fazer inveja ao publicitário Roberto Justus.

Severino e o Orçamento

A posição barulhenta do novo presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE) sobre certos temas – como, por exemplo, sua oposição ao direito de aborto, mesmo em caso de estupro –, deixa em segundo plano outras, mais problemáticas para o governo.

De olho nas emendas orçamentárias apresentada por parlamentares para pequenas obras em seus redutos eleitorais, Severino já defendeu no passado que o Orçamento da União seja transformado em impositivo. Hoje, embora discutido e aprovado pelo Congresso, o Orçamento é meramente “autorizativo”, ou seja, é uma vasta relação de despesas e investimentos que os representantes do povo autorizam o Executivo a fazer. Na prática, porém, por meio do chamado contingenciamento de verbas, o governo corta o que quiser do Orçamento e só gasta o que bem entende.

Pois não custa nada lembrar que está em tramitação no Senado desde 2002 um projeto de emenda constitucional do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) exatamente nessa direção: torna obrigatório para o Executivo gastar todos os recursos previstos na lei orçamentária.

Golpe na memória do futebol

A incursão de ladrões ao apartamento onde vive no Rio o pai de Ronaldo, Nélio Nazário, além do trauma pessoal que certamente representou para o craque e sua família, significou um golpe – um a mais – na memória do futebol brasileiro. Se o atacante do Real Madrid dispõe de dinheiro de sobra para compensar Seu Nélio pelo notebook, as roupas caras, os relógios de luxo e os objetos de ouro levados pelos larápios, não há o que fazer com relação à coleção de camisas e chuteiras de jogos históricos com que o filho presenteara ao pai.

Por essas e outras, é cada vez mais incompreensível que não exista, no Brasil, o melhor, mais completo – e mais seguro – museu de futebol do mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 × 1 =