Crise da água em São Paulo ameaça futuro político de Alckmin — mas há ponderações a fazer, mesmo em meio à crise. De todo modo, o governador precisa por a cara para bater

(Foto: ambientelegal.com.br)

A represa principal do sistema Cantareira nos bons tempos e, agora, reduzida a 5% do total de água (Foto: ambientelegal.com.br)

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), está como se sabe no olho do furacão da crise de falta de água que ameaça a maior região metropolitana do país.

Com enorme cacife político por sua reeleição no primeiro turno em outubro passado não apenas contra o PT, remetido para um terceiro lugar, mas contra um candidato forte e com recursos do PMDB, e pela vitória esmagadora que ajudou Aécio Neves a alcançar nas eleições para presidente (quase dois terços do eleitorado votaram no tucano), Alckmin, legitimamente, está de novo na fila para disputar a Presidência em 2018, tal como fez em 2006.

A crise hídrica de São Paulo, agora, o coloca no bico do corvo. Ou melhor dizendo, no bico da torneira.

O governador é acusado por críticos de diferentes matizes de ter, diante da queda implacável do nível das represas que abastecem 20,9 milhões de habitantes da região metropolitana, demorado a reagir por razões eleitorais. É acusado, inclusive ou sobretudo por quem não entende do assunto, de uma genérica “falta de planejamento” em relação ao abastecimento das 39 cidades da região.

Pode ser. Pode até ser. Antes, porém, de pregar na cruz o governador e seus antecessores, tucanos ou não, é preciso lembrar alguns fatos, começando pelo de que o Estado de São Paulo vem realizando, nas últimas três décadas, um colossal esforço de saneamento básico que nem mesmo o governo federal consegue igualar.

Com uma população hoje de 44 milhões de habitantes — maior do que a da Argentina, quase o triplo da da Austrália, próxima à da Espanha, e que a migração interna não permitiu estacionar –, o Estado representa um enorme desafio para qualquer governo.

Mas fez muito nesse período, desde um investimento bilionário na melhoria de condições dos dois rios que cortam a capital (o que incluiu identificar mais de mil indústrias lançadoras de resíduos, obrigadas por nova legislação a tratá-los adequadamente) até a coleta e tratamento de esgoto de todas as cidades e povoações de seu frequentadíssimo litoral, incluindo a substituição completa de emissários submarinos.

A sede do Instituto Agronômico de Campinas: em 125 anos de monitoramento, nunca observou seca igual à atual (Foto: iac.sp.gov.br)

A questão de “falta de planejamento”, por sua vez, é polêmica. Há obras gigantescas sendo tocadas, como a do sistema São Lourenço, obra de custo total superior a 6 bilhões de reais licitada já em 2012 como parceria público-privada (PPP) e que, dentro de um ano e meio, propiciará à Grande São Paulo água da imensa represa de Cachoeira de França, em Ibiúna (a 69 quilômetros da capital).

Será o sétimo sistema a abastecer a Grande São Paulo. O complexo inclui uma estação de tratamento de água, estações de bombeamento, 83 quilômetros de adutoras (grandes tubulações), a escavação de túneis e reservatórios para armazenar um total de 110 milhões de litros de água.

Trabalha-se também em diferentes frentes para interligar a maior parte dos seis sistemas que abastecem a Grande São Paulo — sem contar obras emergenciais como a interligação da bacia do rio Paraíba do Sul ao sistema Cantareira, obra que terá o apoio do governo federal, ou a possível utilização da grande reserva da poluída represa Billings (1 bilhão de metros cúbicos) para, com tratamento, alimentar o sistema, ou o caro mas perfeitamente possível reaproveitamento de águas servidas (de esgoto).

Diante da situação, além das providências que vem anunciando nas últimas semanas, o governador Geraldo Alckmin costuma lembrar que o Estado vive a maior seca dos últimos 84 anos. Na verdade, o governador se engana.

O Instituto Agronômico de Campinas, instituição seríssima e tradicional, fundada pelo imperador D. Pedro II em 1887 e desde 1890 s0b a gestão do governo paulista, monitora índices de chuva no Estado de São Paulo há 125 anos — e constatou ser esta a maior seca observada desde então. Há mais de um século, portanto.

Quem trouxe a público essa informação foi o novo secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado, Benedito Braga, professor da USP com títulos em universidades internacionais e presidente da respeitada ONG internacional Conselho Mundial da Água, em uma interessante entrevista à jornalista Miriam Leitão no canal de TV Globonews.

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O novo secretário de Recursos Hídricos de São Paulo, Benedito Braga: planejamento não pode deixar de levar em conta dados históricos (Foto: Reprodução Globonews)

Apertado por Miriam sobre a previsibilidade da situação atual, Braga lembrou que nenhum tipo de planejamento nesse pode deixar de levar em conta dados históricos propiciados pela natureza, como o caso do índice pluviométrico:

— Nós estamos vivendo uma era de incerteza climática muito grande. Se olharmos os últimos 125 anos de dados do Instituto Agronômico de Campinas, já tivemos períodos de chuvas muito baixas, mas algo parecido com 2014 e 2015 nunca foi observado.

A propósito, lembrou que o atual Sistema Cantareira, o mais prejudicado pela falta de chuvas e o que ameaça mais pessoas com carência de água, ao ser inaugurado, em 1980, mereceu diversas críticas por supostamente ser “grande demais”, uma “obra faraônica” e supostamente representar desperdício de dinheiro público.

O governador Geraldo Alckmin durante anúncio do aumento da captação de água para o abastecimento do Alto Tietê. Em Suzano córego guaratuba Edson Lopes A2AD

O governador Geraldo Alckmin, em Suzano (SP), durante anúncio do aumento da captação de água do córrego Guaratuba para o abastecimento do Sistema Alto Tietê (Foto: Edson Lopes/A2AD)

E, de fato, os dados sobre índices de chuva estão espantosamente abaixo dos níveis históricos. Tomemos como exemplo o recém-encerrado mês de janeiro, conforme dados oficiais da Sabesp, a companhia estatal de saneamento de São Paulo, em cada um dos seis sistemas da Grande São Paulo:

1. No sistema Cantareira, a média histórica é de 271,1 milímetros de chuva; o acumulado em janeiro, porém, foi pouco mais da metade — 148,2 milímetros.

2. Sistema Alto Tietê, no mesmo mês: média histórica de 251,5 milímetros, chuva em janeiro menos da metade — 103, 8 milímetros.

3. No Sistema Guarapiranga, uma exceção: média histórica de 229,3 milímetros, superada por janeiro deste ano — 248 milímetros.

4. Sistema Alto Cotia: média histórica, 232,0 milímetros, janeiro deste ano quase um terço disso — 80,0 milímetros.

5. No Sistema Rio Grande, outra exceção: média histórica, 252,5 milímetros, janeiro deste ano quase isso –245,2 milímetros.

6. Sistema Rio Claro: média histórica, 298,9 milímetros, janeiro deste ano 252,5 milímetros.

Este é o panorama fornecido pela natureza. O problema, para o governo paulista, é, além de tocar obras de emergência e acelerar as já previstas, explicar agora porque não levou em conta relatório elaborado em 2009 por 200 técnicos da Secretaria do Meio Ambiente, por encomenda do então governador José Serra (também do PSDB), dizendo que iria faltar chuva no período em que estamos.

Diferentemente do que escreveu em artigo na Folha de S. Paulo o subsecretário de Comunicação do governo paulista, jornalista Marcio Aith — “até dezembro de 2013, nenhum estudo meteorológico previu a atual crise, muito menos a sua gravidade” –, o documento “Cenários Ambientais 2020”, divulgado domingo pelo jornal O Estado de S. Paulo, entra em minúcias e chega a prever, especificamente, uma crise de falta de chuvas no principal sistema abastecedor da região metropolitana, o Cantareira.

A falta de água já levou um político de futuro a uma derrota eleitoral que encerrou sua carreira. Em 1988, o então secretário de Obras do governo Orestes Quércia (PMDB), João Oswaldo Leiva, principal tocador de grandes obras do governador, politicamente hábil e bem relacionado, lançou-se candidato à Prefeitura — e tinha bagagem para vencer.

Deu-se, porém, naquele ano, uma terrível crise hídrica que obrigou a um racionamento na Grande São Paulo, setor que, à época, estava sob a responsabilidade do secretário — e Leiva, a despeito do apoio do Palácio dos Bandeirantes, foi pulverizado nas urnas: ficou em terceiro lugar, atrás da eleita, Luiza Erundina (PT), e do eterno candidato a tudo Paulo Maluf (PP). (Não havia, na época, segundo turno, e Erundina elegeu-se com 29,4% dos votos).

Alckmin, naturalmente, ainda tem quatro anos de mandato pela frente para recuperar-se, mas precisa fazer o que fez durante os apagões elétricos durante seu mandato o presidente Fernando Henrique Cardoso — ir a público, explicar o que acontece, mostrar o que está sendo feito, apontar com clareza o quanto a natureza é responsável pelo que está acontecendo e assumir, às claras, a responsabilidade que tenha por eventuais omissões. Por a cara para bater, enfim — como fazem os estadistas.

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20 Comentários

  • LC

    Claro que a atípica falta de chuvas é o maior responsável pela crise hídrica, afinal SP tem os maiores reservatórios da América Latina, e com capacidade de sobra para o abastecimento…
    Mas esta em curso uma campanha do PT, em várias frentes, para culpar Alckmin, FHC e o PSDB por isso…
    Alckmin precisa reagir, inclusive na comunicação…
    O péssimo prefeito Haddad já esta usando a falta de água para tentar a reeleição.

  • Fernando

    Parabéns por esta reportagem.
    É muito mal para a sociedade reportagens errôneas que causam tamanho impacto para um governo e para a sociedade e a pauta política. Quanto baixo nível da Folha, não?
    O debate politico no país ficou muito baixo com os engenheiros sociais deturpadores do PT/PSOL/PSTU/etc, não se atêm ao bom senso e aos fatos. Ainda bem que em SP eles não conseguem ganhar o eleitor com tantas reportagens cretinas produzidas o tempo todo para derrubar o futuro politico do PSDB em SP e colocar um Padilha ou algo do tipo para implantar o tão sonhado plano de combate ao povo e às instutuições paulistas que eles tanto odeiam e têm preconceito como alardeiam o tempo todo. Ficam inconformados! Investem tanto! Caluniam tanto! Tanta ajuda de lá de cima! E não dá certo como nas areas de dominio do petismo pelo país!
    Que isso não nos ocorra, nunca, nem quero imaginar eles destruirem SP como fizeram no Brasil.
    Agora, falar de saneamento básico em SP é algo realmente muito à frente da media do país, em SP investe-se seriamente em saneamento em inumeras frentes em todo o estado desde Mario Covas. Os indices de coleta de esgoto e tratamento evoluiram muito em SP, à frente da media nacional do PAC 13% que esses milicianos querem enfiar em SP. Esse povo não suporta progresso, morre de inveja e em vez de copiar tentam destruir e destroem quando se apoderam e transformam miseras evolucoes em super-trunfos espetaculares midiaticos. Alckmin foi o governador do sudeste que mais levou a serio o problema e ha um ano toma medidas enquanto a isso. Queria só saber o que os partidos dos milicianos teriam feito caso estivessem há anos no governo de SP enquanto à crise hidrica. Xingar Alckmin é facinho, quero saber o que esses professores de desenvolvimentismo dos milicianos do PAC 13% teriam feito para ensinar paulista a ser eficiente, hehe.

  • Maria

    Também não entendo porque o governador de SP,não se explica,não expõe à população o que realmente acontece,e deixa que o PT dê a versão que lhe aprouver..
    Menos timidez,governador!
    A comunicação faz parte do ato de governar..
    Assim facilita a vida dos adversários..

  • Márcia

    Só há um “detalhe” que você omitiu, Setti: a dita “gestora” DESMATOU A AMAZÔNIA, nos últimos DOIS ANOS, mais do que a Marina conseguiu impedir, enquanto suportou ser Ministra delles! E, como você deve saber, quanto MENOS FLORESTA, MENOS CHUVA NO SUDESTE!!! Ou seja: até nisso, tem as ‘mãos sujas’ da PeTralha! (XÔÔÔÔ!!!)

  • Bruno

    (…)possível reaproveitamento de águas servidas (de esgoto).(…) Entre beber água proveniente dessa fonte e morrer de sede, prefiro morrer de sede. Haha

  • Andre

    Quiseram o destino e o povo paulista que um dos melhores do PSDB governasse o nosso Estado.
    Sorte nossa!
    Já imaginaram tamanha crise com os petistas no poder?
    Deus nos livre!

  • Marcos F

    Não só São Paulo, mas vários estados irão parar por falta d’água.
    Neste caso, eu prefiro ficar na loucura de São Paulo. Aqui sempre se faz alguma coisa. Somos capazes, somos trabalhadores.

  • Despetralhando

    Assim como existe edifícios que captam as águas da chuva e a utilizam, é de suma importância que se faça (se não tem) um estudo para captação da água que cai na cidade e vai literalmente pelo ralo.
    No Japão dizem que existe.

  • Sergio Cesar

    Bom dia Setti

    Serah que nao esta na hora de Sao Paulo parar de crescer ?? entendo que a cidade nao esta mais aguentando tantas invasoes,predios novos e carros…pelos menos por uns anos ateh se estabilizar…abs

  • Sergio Cesar

    Setti

    E aqui na zona sul de Sao Paulo,tem muitos politicos que incetivaram invasoes na represa de guarapiranga….eh uma familia que tem muitos irmaos como depiutados ,vereadores,secretarios tudo em familia de um certo partido.

  • joel lima

    Infelizmente, os políticos brasileiros só dão ouvidos aos marqueteiros e aos aspones que ordenam todo político. Provavelmente dizem ao Alckimin para não tomar a atitude de ser transparente, de explicar a atual crise, – porque se ele fizer isso, ele não terá chance de tentar ser presidente da república em 2018.
    Nessa parte, o único político que deu uma banana pra esses conselheiros foi o Covas – chegando ao ponto de enfrentar os brutamontes do sindicato dos professores, que invadiram a secretária de ensino. E que mostrou uma transparência até num tema delicado que foi sua luta contra o câncer – não deixando de informar em que pé estava sua saúde enquanto lutava contra o câncer.

  • soninha

    A unica coisa que me preocupa é quando o mandato do Governador Alckmin, terminar, pois ele não fica se queixando e nem fazendo propaganda, ele trabalha e é dedicado. Se houve falha na falta de água, ele está correndo contra o tempo e tentando como nenhum outro político resolver, nos mostrando soluções com ações. Aqui em São Paulo, a população está contribuindo em massa, colaborando e como o governado tentando todos achar uma solução de captação de agua e uso consciente. Quem critica o governador são os que torcem sempre contra o que funciona melhor neste País.

  • alfredo

    Os rios de São Paulo continuam um esgoto a céu aberto, nem um bom artigo muda a realidade.

  • Meia Verdade

    Perfeito seu comentário……Alckmin, na minha opinião teve nas eleições e tem hoje, cacife político suficiente para deixar tudo as claras. Na época eleitoral deveria ter feito rodizio de água, tenho certeza que não teria reflexos na sua campanha.
    Essa coisa de ficar afirmando que NÃO vai faltar é um tiro no pé, ainda mais se depender dos deuses.

  • Vicente Jr.

    O racionamento deveria ter começado em 27/10.

  • HR

    Não parece ser justo criticar Alckmin. Se ele fosse tratar a maior crise hídrica da história de forma técnica e científica, seria moído pelas mentiras e acusações petistas. Pelo menos ele não agravou a crise com má gestão e invencionismo, como fez a Dilma com o setor elétrico.

  • Fernando Duque

    Se o governador Alckmin chegar desgastado em 2018, temos ainda o Aecio Neves, com um espetacular capital de 51 milhões de votos. O Aecio, para mim, foi uma grande revelação nas eleições. Muito seguro, preparado e desenvolto, MASSACROU Dilma em todos os debates televisivos. O da Globo, então, cheguei a ficar com pena da governanta, completamente grogue, nas cordas, quase jogando a toalha. Mas, infelizmente, o Bolsa Família decidiu a eleição. Aguardamos.

  • Debora

    Acabo de ler que a Câmara aprovou multa para quem desperdiça água. E para quem furta água, luz e serviços a cabo? No Brasil há uma quantidade absurda dos chamados “gatos”.Quem dera tivéssemos a seriedade da Indonésia!

  • naninanão

    Para com essa conversa de ficar mudando de candidato a cada eleição! Assim não tiraremos os petralhas do poder nunca. Não sou fã do Aécio, mas também não tenho nada contra, embora eu pense que o Brasil precisa de um governo mais à direita do que ele. No entanto o seu desempenho na última eleição não pode ser desprezado.

  • Odete Prizon

    O PT pode inventar o que quiser contra o PSDB em São Paulo. Não vai conseguir tentar fazer do paulistano (e do paulista), de idiota. O povo paulista sabe o quê quer. E sabe muito bem que esses petralhas são mentirosos, indignos de crédito. Se Deus quiser, nunca conseguirão acabar com São Paulo e seu Estado.
    Na verdade, a responsabilidade sobre o assunto água na cidade de SP não deveria ser do Prefeito? Ainda bem que não é, atualmente, do contrário eles iam pegar “alguns trocados” com a venda da Cantareira. Mais uma observação, aproveitando a oportunidade: eles não suportam a postura dos políticos do PSDB, morrem de inveja. FHC, Serra, Alckimin, Aécio e outros tantos que agora não me vêm à memória, seus nomes, são pessoas altamente profissionais, com muita educação e estudo acadêmico, não conseguindo se misturar com gente muuuuito baixa e nem diminuir o padrão de comportamento, para se igualarem aos inferiores. E QUE DEUS SEJA LOUVADO, porque é ELE quem faz JUSTIÇA. Você acredita que estejamos nas mãos desses petralhas, Renan Calheiros etc? ESTAMOS, SIM, NAS MÃOS DE DEUS. E ELE está deixando o diabo tomar conta do Planeta, porque não existe inocente pagando por pecador. A CADA UM É DADO DE ACORDO COM SUAS OBRAS. E QUEM RI POR ÚLTIMO, SEMPRE RI MUUUUUITO MELHOR. MAIS UMA VEZ, QUE DEUS SEJA LOUVADO.