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Manifestantes protestam em Madri fazendo ironia: em cada estrelinha do símbolo da União Europeia, uma crítica contra a crise. No meio, o valor de 1 euro (Foto: VEJA)

Amigos, não é nada difícil entender porque as agências de qualificação de risco estão rebaixando as de bancos espanhóis e também da Espanha. E porque, enquanto a brutal crise da Grécia continua ameaçando a estabilidade da União Europeia e de sua própria moeda, o euro, a Espanha caminha célere para ser a bola da vez.

Explico tudo, relembrando antes em poucas linhas as decisões das agências.

Como se sabe, a Standard & Poor’s reduziu em um grau a nota de crédito de longo prazo da Espanha anteontem, quinta, dia 13, em razão do alto endividamento do setor privado, das condições fiscais e do lento crescimento econômico.

Dois dias antes, a mesma S&P havia rebaixado as notas de classificação de 15 bancos espanhóis, inclusive os maiores, como o Santander e o BBVA, pouco depois de outra agência, a Fitch, haver jogado para baixo as notas da Itália e também da Espanha.

Nada disso aconteceu por acaso

Alguns números, francamente assustadores, ajudarão os amigos do blog a entender porque a Espanha, a 12ª maior economia do planeta, com um Produto Nacional Bruto de 1,4 trilhão de dólares, está na marca do pênalti depois que, em 2008, em consequência da crise financeira internacional, explodiu sua “bolha imobiliária”:

* Sem-teto: a cada dia que passa, 350 famílias espanholas perdem sua casa por falta de pagamento

* Sem-teto II: numa tragédia social sem precedentes, nada menos que 300 mil famílias perderam suas residências desde o início da crise, por inadimplência

* Dívidas das pessoas: os mutuários espanhóis devem, em conjunto, 1 trilhão de euros (2,45 trilhões de reais) aos bancos

* Desemprego: a Espanha, com 21,2% de sua força de trabalho de braços cruzados, tem o mais alto índice de desemprego da União Europeia, com cerca de 5 milhões de desempregados – um terço do total de desempregados da UE

* Mais que Grécia, Romênia ou Bulgária: o índice de desemprego da Espanha está 6,2 pontos acima da desgraçada Grécia (15%), e supera de longe o de países pobres e de entrada recente na UE, como a Bulgária (11,5%) e a Romênia (7,3%).

* Dobro da média da UE: o índice de desemprego da Espanha é mais do que o dobro do da média da União Europeia (10%)

* Dívida pública recorde: a dívida pública do país atingiu, em setembro, seu mais alto nível em todos os tempos, batendo nos 700 bilhões de euros (1,75 trilhão de reais).

* Dinheiro para os bancos: O Fundo de Resgate Bancário (Frob, o Proer espanhol) desembolsou este ano 17,3 bilhões de euros (43 bilhões de reais) para manter os bancos do país à tona, e estima-se que precisará injetar mais 30 bilhões (75 bilhões de reais) em 2012.

* Crescimento pífio: O governo anuncia que o PIB espanhol crescerá este ano míseros 1,3%, mas o próprio presidente do Banco de España (o BC espanhol) acredita que a cifra é otimista e que o crescimento não passará de 0,6%.

O quadro, pois, é este, amigos.

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Mariano Rajoy e José Luís Rodríguez Zapatero

Não bastassem as incertezas que ele propicia, o país terá eleições gerais no próximo dia 20 de novembro – e Mariano Rajoy, o líder do partido favorito, o conservador PP, fora do poder desde 2004, não apresentou, até agora, um único plano concreto para mudar para melhor a herança que provavelmente estará recebendo dos socialistas do primeiro-ministro José Luís Rodríguez Zapatero.

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carla em 04 de julho de 2013

porque a espanha esta em crise tem tantas pessoas que estao sem empregos porque nao ta para eles mais a credito ca espanha vai melhorar ate 2014

Pedro Luiz Moreira Lima em 18 de outubro de 2011

Corrijindo:Continuo afirmando: Não há almoço de graça – com exceção da BANCA – tem os POVOS para pagar por ela.

Pedro Luiz Moreira Lima em 18 de outubro de 2011

Continuo afirmando: Não almoço de graça - com exceção da BANCA - tem os POVOS para pagar por ela.

Julian Matos em 17 de outubro de 2011

Caro Ricardo: Vivi de perto o boom imobiliário espanhol e também sua queda. Comparto adiante uma visão pessoal do momento que vive este país. A situação atual da Espanha é resultado de uma ressaca de 15 anos de crescimento ininterruptos com direito a uma bolha imobiliária incluída. Para um país de 40 milhões de habitantes, não se constrói mais que a Alemanha, França e Itália – juntas! – sem que isso tenha conseqüências (e isso aconteceu em 2006 e 2007 na Espanha). O interessante observar é que Espanha não é exatamente o exemplo de um país perdulário como Grécia ou Portugal (Irlanda é outra história), onde privilégios de grupos clientelistas consumem grande parte do orçamento (alguém conhece esta história de algum lugar?). Espanha antes da crise vinha de um histórico de baixos déficits e com superávit orçamentário em alguns exercícios, além disso tinha uma relação dívida/PIB das mais baixas da União Européia (ironicamente o outro país com dívida/PIB mais baixa era a Irlanda). A questão é que a Espanha não aproveitou as vacas gordas para fazer as reformas necessárias para verdadeiramente mudar de paradigma produtivo e sentar-se de vez na cadeira de um dos grandes da Europa. A reforma laboral foi ficando para depois, ninguém queria enfrentar o poder dos sindicatos. O investimento em infra-estrutura nem sempre atendia critérios de produtividade: o trem-bala se tornou uma obsessão nacional, Espanha é o país com mais quilômetros de alta velocidade da Europa (no mundo, só perde para China). Acho que o Brasil pode aprender algumas lições deste histórico. Um país vertical e hierárquico como nenhum outro país latino, e pressionado desde o exterior, a Espanha se prontificou a fazer o que tinha que ser feito, e desde maio de 2010 se aplica um programa (de recortes sociais) que vem ditado deste fora. Naquele fatídico mês, o euro como moeda jogava seu destino nas cortes espanholas. Hoje a Espanha pode ser a bola da vez, mas já não é o teatro principal dessa guerra. A solução natural para crise da dívida para países como Espanha e Itália passa pela monetização da dívida, em outras palavras, imprimir dinheiro. Só que quem tem a chave da impressora são os alemães, que não dispostos a pagar o preço – na forma de inflação – pelos erros dos demais (o fantasma de Weimar permanece). Assim, o drama está servido, a Itália vive uma crise política mais profunda e o governo de Berlusconi é tudo menos um interlocutor fiable. Enquanto isso, Espanha se resigna. Os “indignados” tomaram as praças, são a força de expressão de um mal estar de “por que a festa acabou?”, sentimento predominante principalmente entre os jovens. No entanto, a grande maioria votará ao partido conservador, sem esperar grandes milagres. Certamente seria mais efetivo votar nas eleições de Berlim. Um abraço, Obrigado por compartilhar essa interessante análise com os amigos do blog, caro Julian. Um grande abraço

Pedro Luiz Moreira Lima em 16 de outubro de 2011

"Não há almoço de graça..."com exceção para a BANCA.

jurandir em 16 de outubro de 2011

ai teremos. Olimpídas, Copa do mundo.Como ficará o brasil, com esta corja de corruptos

AFORTUNATTA em 16 de outubro de 2011

A herança de Zapatero é um país em ruinas !!!

Reynaldo-BH em 16 de outubro de 2011

Correção com meus pedidos de desculpas ao Setii e comentaristas: onde lê-se FINLÂNDIA em meu comentário sobre o INSIDE JOB, leia-se ISLÂNDIA. Só depois de postar e reler é que verifiquei o equívoco. Espero que a genial Björk me perdoe! rsrsr. Já está perdoado, Reynaldo! Abraço

Reynaldo-BH em 15 de outubro de 2011

Setti, sobre o post anterior esqueci de um comentário importante. As agências de risco , que classificam as hipotecas e sub primes como AAA (mesmo Triple A da dívida americana, garantida pelo Governo!) determinaram esta classificação, em poucos anos de algumas CENTENAS de títulos para MILHARES deles. Idem com bancos, etc. E o mundo ainda depende do que estes senhores das agências de rating afirmam em depoimento ao Senado americano (como pode ser visto no filme) que tais classificações são "meras opiniões! Acreditem quem quiser!" Fantástico, não é?

Reynaldo-BH em 15 de outubro de 2011

Setti, obrigado por nos dar um quadro bem claro da situação em Espanha. Concordo - e já havia concordado antes - com a patricia m. quando debita o estado atual da Europa ao welfare state, embora - insisto - não creio ser esta a razão principal. Certamente é uma delas. E isto é evidente. E por dois motivos. Não se pode confundir welfare state com 'irresponsabilidade fiscal" e "delírios econômicos". O outro é que como nos acidentes aéreos, não creio existir UMA causa que derrube um avião. São várias e atuando de modo concomitante. A somatória destes desastres que, per si, não derrubariam um ultra-leve levam ao chão um Jumbo. A crise de 2011 nasceu em 2008. Isso é lugar comum, mas importante para o que pretendo expor. A Europa - e de resto a China (comprando ações de bancos), Japão (em que economistas afirmam que o tsunami real salvou a economia japonesa pela necessidade de inversão de capital), a Índia, Rússia e... Brasil. Só que por aqui preferimos dar lições ao mundo e acreditar que fazemos parte de outra galáxia. Há um filme impactante sobre a crise 2008. Um documentário, sem o estilo popular/populista de um Michael Moore. MAs que demonstra, com personagens que nele depõe como Paul Vocker, Groge Soros, Eliot Spitzer e Barney Frank, além de Nouriel Roubini e outros menos citados. Promotores, dealers, advogados, etc. Desde a recessão americana o mercado financeiro foi regulamentado. Até os anos 1980. Deu-se aí a festa que perdura, com as mesmas personagens, até hoje. Bilhões de bônus pagos a executivos de bancos quebrados. Sub primes, OCD´s, derivativos, etc. O filme é INSIDE JOB de Charles Ferguson. Ganhador de melhor documentário do Oscar e de diversos prêmios mundias. Uma análise contida e ao mesmo tempo isenta. Profunda e sem se ater a ideologias e/ou defesas de estados de quaisquer ordens. Demonstra, com depoimentos, a venda por acadêmicos de pareceres e até de depoimentos na Justiça. A venda de relatórios afirmando ser a Finlândia estável e segura (NOTA: O PIB da Finlândia, à época da quebra era de 13 Bilhões US$. A dívida dos 4 bancos finlandeses privatizados 5 anos antes, chegava a 140 Bilhões de US$)! Demonstra a relação academia de economia com empresas financeiras. Como as hipotecas eram moedas mundialmente aceitas pela banca, em uma ficção enlouquecida que especialistas alertavam mas ninguém queria ouvir. Creio que a Europa está pagando um preço extra pelas benesses eleitoreiras e populistas. Sem dúvida. Aliado a este quadro este quadro está o cenário de 2008, ainda inatacado. Poucas - ou nenhuma - alteração. Não creio em visões simplistas. Até porque ou se entende as causas dos problemas ou atacaremos sempre as consequências. Cachorro correndo atrás do rabo. Sei que este não é um tema popular pro cá, no nosso espaço. Mas creio que já deva estar nas locadoras (tenho o original, comprado na Amazon) o Inside Job. IMPERDÍVEL e impactante. Segue o trailer do filme. http://www.youtube.com/watch?v=tytH0CQSsXo Abraços e bom domingo! Obrigado, amigo Reynaldo. Venho "perseguindo" o filme Inside Job desde que foi lançado em BCN, mas ele sai e volta de cartaz e, por uma ou outra razão, não tenho conseguido assistir. Acho que vou tentar alugar em DVD. Um abração

alberto santo andre em 15 de outubro de 2011

COMO JA VINHA ALERTANDO DESDE O FINAL DE DOIS MIL E QUATRO UM FAMOSO ECONOMISTA ,AO QUAL LHE DERAM A ALCUNHA DE SENHOR DESASTRE ,O MUNDO NAO TINHA COMO PASSAR VARIOS ANOS CRESCENDO DA FORMA COMO ESTAVA ,SEM QUE O MESMO TIVESSE A REACAO, COMO DAQUELA PESSOA QUE VAI A UMA FESTA ,ULTRAPASSA SEUS LIMITES DE BEBER,E QUE NO OUTRO DIA ACORDA COM UMA RESSACA TAMANHO FAMILIA ,HOJE TODO O MUNDO VAI TER QUE CURTIR SUA RESSACA DO POS FESTA ,COM MAIOR OU MENOR DOR DE CABECA,DEPENDENDO DA QUANTIDADE QUE INGERIU DE DIVIDAS PESSOAIS E GOVERNAMENTAIS.

patricia m. em 15 de outubro de 2011

O PP nao quer falar os planos porque na verdade so ha um plano e todo mundo sabe qual eh, so que ninguem quer colocar assim à vista do populacho: o plano eh arrocho, arrocho, arrocho. Apertar os cintos ao maximo, cortar gastos, mandar gente embora, deixar o governo bem "lean". E, claro, reduzir o welfare estate. Nao da para continuar com a mentirinha de que o pais eh rico e da para sustentar a populacao toda assim, na maior.

carlos nascimento em 15 de outubro de 2011

Ricardo, Fico imaginando, na Espanha não há cuecas dolarizadas, tapiocas e caixas de papelão recheadas, morto-vivo presidindo Legislativo e mesmo assim está à beira da bancarrota, imaginem quando a ventania chegar por aqui, o que será do nosso País, carcomido pela corrupção, com a saúde, educação, infra estrutura e cidadania em estado falimentar, teremos salvação ? Oremos. Carlos Nascimento.

Deonísio da Silva em 15 de outubro de 2011

Setti, meu caro, fiquei contente em ver o banner da Universidade Estácio de Sá tremulando acima de seu texto, que está, como sempre, um primor! Só uma coisinha: esse "porque" do título é separado: " por que". Ele indaga o motivo: "entendam por que (o motivo, a razão) a Espanha está se comvertendo na bola da vez." Um abraço do seu leitor e velho fã, o Deonísio Mestre Deonísio, muito obrigado pelo toque de quem, como você, faz um trabalho admirável de divulgação do nosso tão maltratado idioma. Já corrigi a indesculpável mancada. Fico muito feliz com sua visita ao blog. Volte sempre! Um abração!

patricia m. em 15 de outubro de 2011

Ah mas que importa a crise, se o welfare espanhol eh o melhor do mundo, hehehehe. Just kidding. Aqui Setti, voce vai gostar, veja esse videozinho espanhol aqui que explica com muito bom humor a crise espanhola. . http://www.youtube.com/watch?v=PWLxcwKzKCw Obrigado, cara Patricia, eu já conhecia há tempos. Pensei em publicar no blog -- com legendas -- e acabei não fazendo. Agora, é uma chance de os leitores assistirem. Um abração

Sergio Roberto Santos em 15 de outubro de 2011

Prezado Jornalista Ricardo Setti; O ex- ministro Roberto Campos costumava citar a frase que os bons países aprendem com os erros dos outros,os médios com os próprios erros e os maus nunca aprendem. Nós já fomos maus, estamos normais, mas podemos passar a categoria dos bons, aprendendo com os países europeus, como Grécia, Espanha e Portugal. Na verdade não se trata de aprender e sim relembrar. Relembrar que não se pode gastar mais do que se ganha, que a fonte do progresso é a iniciativa individual em busca do lucro, que o Estado deve ser gerido de forma eficiente. Nós estamos como um avião decolando, subindo mas ainda em um estado critico de nossa viagem. O ponto mais importante neste momento, conforme tenho comentado aqui, é lutar pela eleição de bons prefeitos e vereadores. Mais importante do que o presidente do Banco Central, um ministro da economia, etc, serão os futuros prefeitos, que poderão dar um choque de modernidade na gestão publica. Esta tarefa não será dos políticos, candidatos ou não, e sim da população que terá a responsabilidade de colocar a frente da grande maioria dos municípios brasileiros prefeitos e vereadores que possam aumentar a eficiência dos gastos públicos. As vezes eu acho que coloco nos meus comentários o sentimento de anos como esportista. Quando uma equipe perde todos perdem, assim como a vitória depende dos poucos que fazem muitos pontos e dos muitos que fazem pouco. Com um país é a mesma coisa, nada adianta ficar se lamentando e sim fazer um grande esforço para melhorar a nossa representação nas próximas eleições.

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