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Fila de desempregados em Madri: velhos hábitos não mudam (Foto: La Vanguardia)

As economias europeias na alça da mira da crise financeira – Grécia, Portugal, Espanha e, agora, a Itália – têm pela frente o duríssimo desafio de cortar drasticamente despesas para reduzir o déficit público e readquirir a confiança dos credores e investidores e, ao mesmo tempo, dar um jeito de aumentar a receita induzindo o crescimento econômico.

Parece uma meta inalcançável, já que as cifras em jogo são de muitos bilhões de euros e que, com cortes e restrições já feitos, esses países estão no osso.

Cabelereiro, profissão de risco

Aqui e ali, porém, aparecem gorduras inteiramente cortáveis, de diferentes portes. Na Grécia, o governo do socialista Giorgos Papadopoulos, que deixou o poder para um governo de união liderado pelo técnico Lucas Papademos, havia recém-descoberto 5 mil mortos recebendo aposentadorias. Papademos, com enormes tarefas pela frente, vai atacar firme na Previdência Social, cuja legislação permite, além desse tipo de fraudes, trambiques como o de que cabeleireiro seja considerado “profissão de risco” e seus profissionais possam se aposentar com 45 anos.

Em Portugal, o governo conservador do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que assumiu em junho, está adotando uma série de medidas de largo alcance – mas algumas, de pequena monta, também contam: cortou quatro dos 13 feriados nacionais, podando feriadões e dias úteis “matados”.

Cada feriadão, 3 bilhões de euros de perda

O futuro chefe do governo da Espanha, o conservador Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), ainda não divulgou as medidas duras que prometeu durante a campanha eleitoral, entre outras razões porque diz não conhecer em detalhes a situação que vai herdar do governo socialista em fim de mandato a partir da posse, no dia 22 ou 23 de dezembro.

Entre as micromedidas que poderia adotar, com resultados expressivos, porém, está sugestão da Confederação Espanhola das Organizações Empresariais (CEOE) que vai na linha de Portugal: racionalizar, por lei, os feriados, transferindo – como fazem os americanos – para segunda ou sexta-feira os dias festivos.

A CEOE calcula que cada feriadão, ou puente (“ponte”), custe à economia da Espanha nada menos do que 3 bilhões de euros (7,4 bilhões de reais).

E só a comunidade de Madri, onde fica a capital, tem 14 feriadões anuais, sendo que a média geral do país não é diferente.

Fim de semana começa sexta às 14 hs, e há a “siesta”

A CEOE não sugeriu, mas bem que poderia, que a maior parte das empresas não começassem o fim de semana às duas da tarde de sexta-feira. Ou pensar em alguma providência sobre a siesta num país em que, mesmo no auge da temporada turística, durante os meses quentes de julho e agosto, com milhões de visitantes, quase todo o comércio fecha tranquilamente das duas às cinco da tarde, incluindo farmácias e bancas de jornais.

Com crise e tudo, e o país precisando trabalhar e crescer para absorver a massa de desempregados que tem — mais de 21% da população ativa, mais de 5 milhões de pessoas — essas molezas continuam na Espanha. São velhos hábitos que desafiam a crise.

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Julian Matos em 02 de dezembro de 2011

Oi, Ricardo: É verdade, esse debate geraria livros, não comentarios. Obrigado pela resposta. Saudaçōes,

Anna Da Costa Pereira em 01 de dezembro de 2011

Ricardo, para finalizar essa triste discussão, onde não vamos chegar a nenhum lugar. Penso que deverias ler os números que coloquei anteriormente, em todo meu comentário em nenhum momento falei em bilhões (na escala numerica do Brasil, que seria a curta) e sim MILLONES (como o dado da CEOE). Reconheça que a informação da CEOE são de 4,2 millones de euros e não 4,2 mil millones de euros, o que seria um disparate total. Por obra do acaso, se é que ele existe, eu conheço muito bem a língua espanhola e como desconheces, pois não nos conhecemos, moro na Espanha. A "prensa" espanhola não nos deixa um dia sem notícias da crise. Ojalá eso termine lo más pronto posible. ;-) Respeito teu lado que seja um jornalista sério, eu disse o contrário? ser sensacionalista não significa não ser sério, e sim um uso exagerado de determinada das expressões, chocando o leitor com tamanha cifra. Boa noite desde Espanha, porque já são 00:47 e devo descansar amanhã temos que trabalhar para levantar a Espanha. Rs. Deixo aqui minhas sinceras desculpas, não foi a intenção entrar numa discussão. Entre mortos e feridos todos se salvaram. Continuarei lendo teu Blog e coluna sempre que possível, porque o acompanho e gosto. Fique em paz! Fique em paz também e obrigado por acompanhar o blog. Um abraço

Anna em 01 de dezembro de 2011

Ricardo, desculpa me intrometer nessa conversa entre você e o J.Clares, mas o que você escreveu anteriormente no texto acima, repito aqui: "Cada feriadão, 3 bilhões de euros de perda - A CEOE calcula que cada feriadão, ou puente (“ponte”), custe à economia da Espanha nada menos do que 3 bilhões de euros (7,4 bilhões de reais). Os bilhões são exatamente os mesmos billones de euros, a unica coisa que diferencia é o valor, pq 3 billones de euros sao 7,4 bilhões de reais. Agora saindo da correção a cifra que você colocou é aburda quando na realidade são 4.200 milhões de euros, segundo a CEOE. "El sector turístico se echa a temblar solo de pensar que los puentes pueden tener los días contados. José Luis Guerra, adjunto a la dirección de la Federación Española de Hostelería calcula que cada día festivo convertido en laborable supondría para ellos dejar de ingresar 100 millones de euros. Además aseguran que de salir adelante, la medida vendría en el peor momento posible ya que "el sector de la hostelería acumula más de 20 meses consecutivos de caída de las ventas". Desde las agencias de viajes también consideran que la propuesta de la CEOE es muy negativa. Matilde Torres, vicepresidenta de la Federación de Agencias de viajes recuerda que en los puentes se consigue aproximadamente un 15% de su facturación anual. Y recuerda que para las agencias son muy importantes, porque por ejemplo "el puente de la Constitución supone un soplo de aire fresco en medio del invierno". LA CEOE CONSIDERA LA PROPUESTA NECESARIA El vicepresidente de la CEOE, Santiago Herrero asegura que "es una necesidad para poder normalizar producciones" y para mejorar la productividad ante todo. Mientras que el que fuera secretario de Estado de Hacienda, Carlos Ocaña y ahora presidente de la Fundación de Cajas de Ahorro considera que la medida es razonable. Los empersarios calculan que cada día laborable dentro de un puente cuesta a la economía española más de 4.200 millones de euros". Realmente precisamos ser menos "imediatistas" nas nossas conclusões, ainda mais na hora de falar algo que desconhecemos, e não vivemos. Brasil vai morrer sensacionalista, como em tudo exagera. A globo é a prova disso! #ficaadica Meu Deus do céu, você não sabe distinguir números? A cifra de 4,2 mil millones de euros que você menciona é ainda MAIOR do que a que eu mencionei! 4,2 mil millhones de euros, em espahol, se traduziriam no Brasil por 4,2 BILHÕES de euros, ou seja, muito mais ainda dos que os 7,4 bihões de reais que eu mencionei. "Algo que desconhecemos, e não vivemos", como? Eu moro parte do tempo aqui na Espanha há anos! Procure você conhecer melhor o idioma espanhol e ver o que são "millones" e "billones" e antes de chamar de sensacionalista um jornalista sério.

Joaquin Clares em 01 de dezembro de 2011

Mis disculpas, pero... "No português europeu, Bilião, corresponde à designação de "milhão de milhões". Por otro lado no he conseguido contrastar en ningún otro medio la información que usted aporta como dato emitido por la CEOE. Sigo leyendo algunos de los comentarios aquí expresados y me quedo sorprendido, mi relación con Brasil es muy grande, amo el país, sus gentes, incluso lo que a nadie de fuera le gusta ver, no entiendo que le sorprenda tanto nuestro horario de trabajo, el cual refleja un poco distorsionado, le puedo asegurar que la inmensa mayoría de trabajadores españoles no salimos el viernes a las 14:00h hasta el lunes, tenemos varias horas para almorzar ( con vinho... ) o disfrutamos de puentes como usted asegura, esto es igual que decir que " todas las brasileñas son putas " o que todos los brasileños pasan el día " jogando capoeira o sambando ", le puedo asegurar que ya defendí mucho al pueblo brasileño del que la gran mayoría de españoles y europeos por aquí, sigue pensando esto. Quizás por artículos desafortunados como el suyo. Somos la clase obrera española la que está soportando y pagando una crisis que no hemos creado, me parece muy ruin achacar a los trabajadores la culpa y más haciendo referencia a datos como el horario, distorsionados como ya he expresado, más aún cuando vienen de parte de la CEOE, si por ellos fuese volvería la esclavitud, si, la esclavitud a oído bien, esa que ustedes todavía sufren en varios estados y que explota a miles de brasileños. Creo que no están las condiciones laborales en Brasil como para dar consejos al resto del mundo, y sinceramente espero que no les explote nunca la burbuja que están hinchando, que con toda seguridad estallará y le tocará pagar como siempre a los mismos, los trabajadores. Un saludo.

Julian Matos em 01 de dezembro de 2011

Poxa, Ricardo, fala baixo, por que se acabarem com o fim de semana que começa na sexta-feira à tarde, eu volto para o Brasil! Brincadeiras à parte, eu acredito que o problema da Espanha e outros países dos PIGS (ok, eu assumo o infame apelido da prensa inglesa) é de produtividade. Mais que aumentar as horas de trabalho, falta melhorar produtividade nas horas realizadas. Posso garantir que é muito difícil encontrar um alemão ou francês depois do expediente ainda no trabalho. Aqui na Espanha é normal sair do trabalho depois das oito da noite (pelo menos em Madrid e Barcelona). Deixo um vídeo de um programa humorístico sueco que é bastante interessante: http://www.youtube.com/watch?v=MszzjxiBi8s. Meu caro Julian, é claro que o pessoal sai tarde do trabalho. Pois se o almoço, com vinho e tudo, dura duas, três horas! Os empregados pobres, que moram longe, ficam zanzando pela cidade, depois de comer um sanduíche, esperando as lojas e seus outros locais de trabalho reabrirem depois de 3 a 3 horas e meia de siesta. Não há produtividade que aguente. Você deve ter visto o famoso discurso do Felipe González -- ainda o único estadista de porte que existe por aqui --, meses atrás: "Tenemos que trabajar más -- y mejor!" Os americanos, mesmo nos setores mais competitivos, dificilmente passam da jornada "nine to five" -- das 9 da manhã às 5 da tarde, que é uma maravilha. Os alemães não precisam ficar até tarde no trabalho porque são eficientes e produtivos. A ética do trabalho é diferente em diferentes países. Fora o fato de que, na Espanha, a participação do pessoal de serviço -- de lojas a restaurantes -- nas vendas é mínima, o que não estimula ninguém. O assunto renderia não comentários, mas livros, não é mesmo? Abraço

Joaquín Clares em 30 de novembro de 2011

3 Billones de euros ? TA DOIDO !!!! Por favor contraste las informaciones eso es un disparate Não escrevi "3 billones", mas três bilhões de euros. Em espanhol, "3 mil millones de euros". Citei a fonte: estimativa da CEOE.

marina silva em 29 de novembro de 2011

E também durante o verao a maioria do comercio nao abre a tarde,a siesta tanto vale no verao como no inverno,o povo é bom de cama mesmo rsrsrsrrs

SergioD em 29 de novembro de 2011

Ricardo, andei lendo uns artigos na imprensa européia e fiquei impressionado com o resultado do pleito espanhol. Os conservadores tiveram um aumento de 10,3 milhões para 10,8 milhões de votos entre as duas últimas eleições. Os socialistas tiveram uma queda impressionante de 11,6 milhões para 7 milhões de votos. Votos esses não migraram para as legendas menores, que mesmo assim tiveram aumento expressivo. Quer dizer, parece que os eleitores de esquerda se decepcionaram e não compareceram para votar. Alguns comentaristas, fazendo troça, alegam que Mariano Rajoy ainda não apresentou sua proposta de governo (cortes, cortes, cortes e mais cortes), alegando não saber a real situação econômica do país, porque seu partido está seriamente tentado a devolver o pepino para o antecessor. Tipo "Quem pariu Matheus que o embale". O que mais impressiona é que até 2008 a Espanha tinha um déficit fiscal e uma dívida nacional percentualmente menores que os da Alemanha. A teimosia de Zapatero em não reconhecer a crise foi o que piorou a situação. Grande abraço

selminha em 29 de novembro de 2011

Setti, além da siesta, a Espanha ainda tem a "semana blanca". Quando estive em Palma de Mallorca, a maioria dos estabelecimentos comerciais só abriam à tarde. Perguntei a razão ao nosso guia, e ele explicou que lá, após o término das férias, o que tinha acabado de ocorrer, os espanhóis têm ainda uma semana em meio expediente, para ir se acostumando ao trabalho: a famosa"semana blanca". Até que achei uma boa idéia (quem não?), mas creio que, em época de crise, é uma boa gordurinha para ser cortada. Só não sei se ela acontece em todo o país. Bem, confesso que não conhecia mais essa modalidade de não trabalhar. De todo modo, existe também na Espanha, prezada Seliminha, uma Páscoa depois da Páscoa, para descansar do feriadão anterior...

Carlos Santos em 29 de novembro de 2011

Caro Setti, desculpe-me, mas “aumentar a receita induzindo o crescimento econômico”? Certamente que isso é uma “meta inalcançável”. Só há três maneiras de o estado conseguir mais recursos, ou apenas duas para os endividados. A primeira, a qual os endividados não devem recorrer, é a venda de títulos da dívida; a segunda, pela impressão de dinheiro e por fim pelo aumento de impostos. Todas elas, ao contrário do que você acredita, deprimem o crescimento econômico corroendo o valor da moeda ou tirando diretamente dinheiro das mãos das pessoas e colocando nas do estado, para benefício exclusivo da burocracia estatal e dos beneficiários dos programas "sociais" ou "de desenvolvimento". Faz-se simplesmente transferência de renda causando distorções no mercado que uma hora ou outra terão que ser corrigidas, nem que seja na marra. Sou leigo em economia, apesar de ter alguma leitura. Mas não vejo nenhum erro lógico no que digo acima.

Marco em 29 de novembro de 2011

Amigo Setti: É isso aí, parabéns grande texto, mais uma vez. Abs.

Reynaldo-BH em 29 de novembro de 2011

Aliado a este quadro distorcido, temos as tais fugas de impostos em níveis brutais. Estima-se que na Grécia mais de 50% dos impostos devidos são sonegados. E espera-se que os alemães paguem a conta da sonegação dos cidadãos gregos. Em relação à Espanha, a siesta sempre foi vista como um traço cultural, admirado pelos espanhóis e exibido como prova de "saber viver". A mim sempre pareceu folclórico e desrespeitoso para a indústria do turismo. Das duas as cinco a Gran Via é um deserto. Idem Barceloneta e os paseos. Reuniões são marcadas pós-siesta. A obesidade da Europa chega a ser mórbida. E como um doente terminal sem forças para lutar, se recusa a ser medicado. No pain, no gain (ou game, como queiram). Não se trata de retroceder em conquistas sociais, como discursam sindicatos e associações classistas. Ao contrário. O foco é a garantia mínima de emprego e renda. Estas gorduras não deixam a conta fechar. A cota de sacrifícios (que terá necessariamente que vir, mesmo que temporariamente de modo mais intenso) nunca é vista como corte nos excessos. E os que criticam não apresentam alternativas. Sair da Zona do Euro? Abdicar dos Fundos Comunitários? Voltar às moedas antigas? Desvalorizar TODA a riqueza com pesos e escudos desvalorizados frente a todas outras moedas, por exemplo? Ser nada competitivo em um mercado dominado pela China? O que querem afinal? Não defendo Rajoy pelo fato de não saber ( e creio que ninguém) o que pretende fazer. Se terá como transformar o discurso em prática e ao mesmo tempo, evitar uma recessão ainda maior que a atual. Mas não há como defender "práticas e costumes" que seriam somente anacrônicos se não houvesse crise. Com esta, são irresponsavelmente criminosos.

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