Crise na Europa pode aumentar a dependência do Brasil em relação à China, alertam especialistas

Da esquerda para a direita, o professor Creomar, o embaixador Saint-Geours, Collor, e os professores Guilhon e Teixeira (Foto: Agência Senado)

A crise econômica na União Europeia poderá aumentar a dependência brasileira em relação ao mercado da China, alertaram especialistas que participaram de audiência pública sobre o tema, promovida pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado. No entanto, apesar das dificuldades enfrentadas pelo Velho Continente, a Europa continua sendo a principal parceira do Brasil, como lembrou o embaixador da França em Brasília, Yves Saint-Geours.

No início da audiência, presidida pelo senador Fernando Collor (PTB-AL), o professor José Augusto Guilhon Albuquerque, do Centro de Estudos Avançados da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), previu que o principal impacto da crise europeia será a “perda de um mercado de qualidade” para a economia brasileira, considerada por ele cada vez mais concentrada em commodities.

– A diminuição da capacidade de importação dos Estados Unidos e da União Europeia aumenta desmesuradamente a nossa dependência em relação à China. O ideal para nós seria manter um equilíbrio entre Estados Unidos, Europa e Ásia – observou.

Congelamento das negociações Mercosul-União Europeia

A possibilidade de uma maior dependência em relação à China também foi ressaltada pelo professor Creomar Lima Carvalho de Souza, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília. Esta seria, a seu ver, uma das “consequências tangíveis” da crise europeia, assim como o “congelamento” das negociações para um acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul.

Ele apontou também “consequências intangíveis”, por exemplo, um maior questionamento da Europa como referencial de um modelo de integração.

Mundo policêntrico

Antes de comentar a crise europeia, o professor Francisco Carlos Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, anunciou boas notícias recebidas pouco antes: o mundo crescerá 4% em 2012 e, em média, os países emergentes crescerão acima de 6%. Além disso, prosseguiu, o comércio mundial avançará 6,7%, apesar da crise europeia.

– Às vezes, impactados pela mídia e por nossa relação emocional com a Europa, perdemos a dimensão do mundo. Hoje existe uma globalização assimétrica que aponta para o crescimento. Temos uma novidade, um mundo policêntrico. Não precisamos mergulhar em pessimismo por causa das histórias dessa hoje pequena península da Eurásia – disse Teixeira.

Em resposta, logo a seguir, o embaixador Saint-Geours citou “fatos simples e indiscutíveis” a respeito da “pequena península da Eurásia”, como repetiu em tom irônico. A União Europeia, recordou, continua sendo o primeiro parceiro comercial do Brasil. Em 2011, citou o diplomata, o bloco foi responsável por 20,5% das importações brasileiras, contra 14,5% da China, e por 20,7% das exportações, contra 17,3% da China. O saldo positivo do Brasil no comércio com a Europa, concluiu, foi de 6 bilhões de dólares.

– Ainda há muitos obstáculos a um acordo entre a União Europeia e o Mercosul, por divergência de interesses. Mas não podemos subestimar as nossas relações. Em 2012, uma vez mais, vamos ser o primeiro parceiro do Brasil – previu.

A “maior experiência do processo civilizatório mundial”

Durante o debate, a senadora Ana Amélia (PP-RS) lamentou a demora em se alcançar um acordo entre o Mercosul, uma região “competitiva” a seu ver, e a Europa ainda “muito subsidiada”.

A Europa, observou por sua vez o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), pode ser considerada a “maior experiência do processo civilizatório mundial”. Ele questionou, porém, se este não seria o momento para se buscar “um novo conceito de progresso”, que leve mais em conta o bem-estar humano e o meio ambiente.

“Tsunami financeiro”

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) lembrou a preocupação manifestada na Alemanha pela presidente Dilma Rousseff, em relação a um “tsunami financeiro” decorrente do grande fluxo de capitais de países ricos em direção a mercados emergentes.

Em resposta, Yves Saint-Geours disse entender a preocupação de Dilma, mas observou que, neste caso, Europa e Brasil têm interesses “um pouco diferentes”.

– Dilma está preocupada com a crise na Europa. Se tivermos um credit crunch [aperto de crédito] na Europa, não poderemos sair da crise. A proposta em andamento é a de irrigar a economia, para dar a ela a possibilidade de se desenvolver. Mas as taxas de juros no mundo não são as mesmas, e o Brasil é muito atrativo – afirmou.

Ao final da audiência, o senador Fernando Collor observou que os atuais modelos econômicos não vêm obtendo os resultados esperados.

– Temos que repensar o futuro. Os atuais modelos estão exauridos, e o que está acontecendo com a Europa é algo trágico – lamentou.

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Nenhum comentário

  • Marco

    Amigo Setti: É meu amigo a situação esta muito dificil, vejo aqui pelo RS, grandes empresas aqui situada no Vale e na Serra, com muitas dificuldades. A situação não é alentadora.
    Abs

  • Comunista Até a Alma

    É a vitória do bolchevismo como forma de poder! A China Soviética vai mandar no mundo!
    Libere o mercado e centralize o poder e você terá apoio popular e poder quase absoluto, é a nova forma do “socialismo moderno” atuar! Dilminha está fazendo o mesmo por aqui, mas nosso grande líder LULA tem que voltar com aquele vigor pra isso não desandar por causa dessa base aliada malcriada.

  • Corinthians

    Sabe o que é pior ?
    Estamos ver a história sendo repetida com as ridículas leis protecionistas que são colocadas. Agora são os carros do México – e portanto os preços dos carros vão aumentar.
    Igualzinho o que tivemos no governo militar.
    Isso que dá ter gente despreparada e interesseira comandando o país. Estudo faz falta.

  • Luiz Augusto Prado

    Vai ser pior que os EUA no poder. Mas de que adianta? Se todo mundo que entrasse pra governar parasse de roubar e aceitar propina, tudo funcionaria perfeitamente. Todo mundo teria uma profissão bem remunerada e cada país seguraria o proprio rojão sem depender de ninguem, pois fariam as melhores escolhas para o País e não para si mesmos.

  • Cristian

    A mente dos seres humanos está corroída mesmo. Só se fala em bem-estar, qualidade de vida, boa remuneração… Alguém já ouviu falar em mérito, boa administração ou no Estado mínimo (com gastos básicos necessários), não intervencionista (manipula a economia conforme acha necessário/conveniente) e assistencialista (coloca uma nação inteira no cabide)? Creio que não. Pelo jeito todos, principalmente dos da classe média, como eu, acham ótimo pagar mais de 50% do salário em impostos diretos (folha) e indiretos (produtos). O que sobra “pra nóis” meu povo e minha pova? Estão felizes assim? Me poupem hipócritas. Como diria Benjamim Franklin: “Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança.”. Ah sim, Europa. Bem, lá eles pensam como nós… Só podia dar m… mesmo.