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Vesna Vulović: quando a realidade supera a ficção (Foto: arquivo pessoal)

Uma rápida pesquisa no Google basta para que entremos em contato com um pouco da mística em torno de Vesna Vulović, uma ex-aeromoça sérvia atualmente com 62 anos de idade.

“Lista de pessoas que zombaram da morte”, “Top 10 acidentes aéreos com apenas um sobrevivente” e “Relação de pessoas que realizaram saltos em queda livre sem paraquedas” são apenas alguns dos rankings espalhados pela internet que incluem o seu nome.

Única sobrevivente

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Destroços do avião onde estava Vesna

O motivo? No dia 26 de janeiro de 1972, o jato bimotor DC-9 que abrigava o voo JU 367, da companhia então conhecida como JAT – sigla para “linhas aéreas iugoslavas” no idioma sérvio (rebatizada JAT Airways em 2003) — caiu em uma região inabitada de Srpska Kamenjica, então parte da Checoslováquia (hoje República Checa). O aparelho seguia de Copenhagen, capital da Dinamarca, a Zagreb, atual capital da Croácia (e então parte da Iugoslávia).

Das 27 pessoas a bordo – 23 passageiros e 4 tripulantes -, apenas Vulović sobreviveu. A muito custo, recuperou-se das lesões no crânio, em ambas as pernas, nos quadris e em três costelas, que a deixaram paralisada temporariamente, para se tornar uma heroína nacional.

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Vesna no hospital em Praga (Foto: arquivo pessoal)

A versão oficial sobre as causas da tragédia, divulgada às pressas pelo governo checoslovaco, indicavam que a aeronave perdera o rumo após explosão de uma bomba. Ainda segundo o estado, os autores do atentado haviam sido integrantes do Ustaše, grupo terrorista separatista croata de orientação nazifascista.

Livro dos Recordes

O ápice de sua popularidade se daria em 1985, quando recebeu das mãos de ninguém menos que Sir Paul McCartney o certificado do Guiness Book, o Livro dos Recordes, de pessoa que sobreviveu à maior queda na história: inacreditáveis 10.160 metros de altitude.

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Paul McCartney entrega o certificado a Vesna (Foto: Guinnes Book)

Por quase quatro décadas – período durante o qual Vesna chegou a trabalhar novamente como aeromoça -, seu status “mágico” esteve praticamente intocável.

Nova versão

Até que, em 2009, os jornalistas investigativos checos Peter Hornung e Pavel Theiner revelaram documentos obtidos junto à Aviação Civil Checa que apontavam uma outra versão sobre a razão da queda do avião.

Segundo a apuração da dupla, que começou a se aprofundar no caso porque nunca foi comprovada a relação do Ustaše com o episódio – nem os próprios terroristas reivindicaram o atentado – , o voo JU 367 teria, na verdade, sido obrigado a realizar pouso de emergência por causa de problemas técnicos.

Acreditando tratar-se de uma aeronave inimiga, a Força Aérea da Checoslováquia a teria abatido com um caça MiG, e quando já se aproximava do chão. Para embasar a teoria, Hornung e Theiner utilizaram depoimentos de habitantes da região, que afirmaram terem visto o bimotor voando perto do solo intacto, mas incendiado, seguido por outro avião.

Recorde questionado

Ou seja, a descoberta conclui que Vesna sobreviveu a “apenas” 800 metros de queda, o que desmoralizaria por completo seu recorde no Guinness (há pelo menos dois registros de sobreviventes a quedas bem superiores a 800 metros – assunto para outro post…) e colocaria sua credibilidade pública. Algo que, aliás, ela utilizou bem, quando foi ativista da oposição ao genocida sérvio Slobodan Milošević.

O drama se completa com o fato de que Vesna não tem memória do acidente. Diz que suas recordações daquele dia vão até o momento do embarque em Copenhagen. Depois disso, só se lembra de quando acordou do coma no hospital em Praga. Não tem, portanto, como desmentir os repórteres e comprovar o ato de heroísmo tal qual se registrou no Livro dos Recordes.

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Vesna em foto recente

Atualmente, Vesna vive em condições modestas em um pequeno e mal cuidado apartamento em Belgrado, capital da Sérvia, na companhia de seus gatos. Afirma sentir uma enorme culpa por haver sobrevivido à queda do avião. Na ocasião da revelação da hipótese dos jornalistas checos, o Guiness Book se pronunciou admitindo ter caído na história oficial do governo, “como o resto da mídia”. Mas não cancelou o recorde de Vesna.

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3 Comentários

Clark Kent em 06 de junho de 2014

Não publico em hipótese alguma comentários que defendam, estimulem ou mostrem tolerância com a ruptura da ordem constitucional.

Franklin Rohr em 12 de setembro de 2012

Concordo com o roby. Como diriam aqui no MT: Ela é muito rabuda. Heheheh

roby em 10 de setembro de 2012

Afinal, onde está o tal ato de heroísmo da moça? Sobreviver a uma queda de avião — seja lá de que altura for — faz dela uma heroína? Parece que há outros povos, além do brasileiro, cuja carência de figuras públicas destacadas cria distorções como essa.

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