Justamente agora, que a General Motors acaba de fazer um lançamento de ações na Bolsa de Nova York com êxito espetacular — arrecadou mais de 20 bilhões de dólares –, a empresa extingue uma linhagem de veículos que fez história e recebeu, durante 84 anos, a adesão de um exército de 40 milhões de consumidores nos Estados Unidos e em quase todo o mundo: a marca Pontiac.

Fãs dos grandes modelos Pontiac que alegraram suas vidas e migraram para a tela do cinema em muitos filmes — como o Bonneville, o GTO ou o Firebird — consideram que a culpa pelo fim dos apreciados Muscle Cars (“carros com músculos”, em tradução livre) é da GM e de sua passada má gestão, que levou à quebra da empresa e à injeção de 50 bilhões de dólares por parte do governo Obama para salvá-la.

MAIS ESPORTIVO QUE O CHEVROLET, MENOS OPULENTO QUE O BUICK — A montadora, que já ostentou o título de maior empresa do mundo, por sua vez, alega que a marca contraiu doença terminal durante a falência do ano passado. A Pontiac, na verdade, montou seu derradeiro carro há quase um ano, mas a morte oficial se deu há duas semanas, no dia 31 de outubro passado, quando terminou o contrato da GM com os revendedores Pontiac.

Os Pontiac encontraram seu nicho de consumidores por serem em geral mais esportivos do que o grande nome da GM — o Chevrolet –, mas menos opulentos do que marcas também da GM, como Oldsmobile (descontinuada em 1994)  e Buick, para não mencionar a imbatível Cadillac.

Veja na foto abaixo o último modelo produzido pela Pontiac, o G 6, sucessor do Pontiac Grand Am. E, usando as flechinhas, percorra a galeria de fotos e aprecie modelos Pontiac que fizeram história. (Mais abaixo, veja alguns grandes carros americanos do passado que não existem mais).

O STUDEBAKER DO MEU TIO, O HUDSON DO MEU OUTRO TIO… — O Pontiac morre e vai juntar-se à vasta lista de grandes carros americanos que já não existem mais — a relação dos europeus também é grande –, como você verá na galeria de fotos abaixo deste texto, clicando nas flechinhas. E os leitores vão me perdoar o tom pessoal, mas vários desses carros trazem lembranças pessoais e familiares. A lista não é completa, relaciono alguns dos carros americanos mais conhecidos. Vamos lá.

O primeiro é um Plymouth, da Chrysler. Depois vem uma das versões de mais sucesso do Oldsmobile, o Toronado. A seguir, o Edsel, da Ford, maior fracasso de todos os tempos da empresa do mitológico Henry Ford que levava o prenome de seu único filho — que, para profunda amargura do velho pioneiro da indústria automobilística, morreu antes dele.

O próximo é um clássico dos anos 50, o Oldsmobile Eighty Eight (88), do qual, adolescente, ainda me lembro embasbacado: um ou outro pai de amigo ou amiga possuía aquela banheira descomunal, que deslizava ademais com câmbio automático e direção hidráulica, como a maioria dos veículos comentados aqui.  Continuando, vem outra marca da Chrysler que se desvaneceu: o De Soto que conduzia noivas a igrejas e debutantes a bailes.

Já o próximo, o Studebaker, marcou época com sujas linhas arrojadas e sua forma de foguete. (Comecei a aprender a dirigir num Studebaker dos anos cinquenta, com câmbio na direção, de uma improvável e premonitoriamente psicodélica cor verde-limão, pertencente a meu inesquecível, afetuosíssimo tio Walter, no bairro paulistano da Aclimação).

O majestoso, macio e confortável Hudson, igualmente desaparecido, também traz agradáveis lembranças de família. Era a bordo do grande Hudson marrom metálico de meu tio Hugo, o irmão mais velho de (e venerado por) minha mãe, que, junto com meus três primos, filhos dele, e minha tia Margarida, eu descia, encantado, a Serra do Mar rumo a idílicas férias na Santos maravilhosa de então.

Integra o time dos paquidermes extintos um carro que, diziam à época, apresentava muitos defeitos — mas produzia um efeito mágico quando passava: o Nash, que me recorda outro tio, o irmão mais velho de meu pai, Helio, homem inteligente, uma usina de idéias criativas e homem de enorme generosidade pessoal. Deputado estadual no Paraná, via-se compelido a ostentar mais do que seu modesto patrimônio de então permitia.

O último carro da lista — observe que obra-prima, cujos poucos exemplares disponíveis valem uma fortuna e estão em museus ou em mãos de colecionadores — é o Packard. Mais uma vez uma marca de carro me toca pessoalmente.

Minha mãe contava que meu avô, seu pai, Daniel, ou “Seu Dante”, imigrante judeu vindo com uma mão na frente e outra atrás da Bessarábia — então parte do império do czar da Rússia –, quando depois de muita luta progrediu e conseguiu se estabilizar como comerciante, comprou nos anos 20 um enorme Packard que, nos corsos de Carnaval, meu tio Hugo conduzia levando os pais e os 7 irmãos.

Como não ter saudades dessas marcas maravilhosas?

 

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18 Comentários

Esdras em 11 de abril de 2013

É bem triste ver este desmonte de uma geração da marcas que fizeram história. Eu adorava a Pontiac.

Gilberto em 01 de dezembro de 2010

Ricardo, Para gente como nós, amantes do automobilismo, é sempre triste saber que uma montadora vai fechar suas portas. E a notícia da Pontiac me deixou especialmente chateado justo agora que, vendo um Solstice andando na rua, entendi o verdadeiro significado da expressão "love at first sight". O carro é lindo! Que pena tamanha obra de arte ser descontinuada... Abraço e continue com seus bons textos! Gilberto Obrigado, caro Gilberto. E fique atento porque hoje entra um post sobre o fim de outra grande marca -- Mercury. Abração

Lilian em 25 de novembro de 2010

Setti, Quando você escreveu Packard pensei: Jesus! Agora eu não entendo mesmo. Ví o vídeo sobre Packard e realmente não precisa entender é para admirar! Abraços! Packard. http://www.youtube.com/watch?v=3yz4nc2E0vg

Lilian em 24 de novembro de 2010

Setti, Eu lí os comentários anteriores e de carro eu não entendo nada então fui pesquisar a história do Pontiac. Merece respeito! Abraços! A tribute to the Pontiac Motor Division http://www.youtube.com/watch?v=ahQKd9DrBFY Valeu. Lílian. Mas nem é preciso entender de carro para apreciar certos modelos, como aquele magnífico Packard, fábrica que já existe mais, não é?

Carlão em 22 de novembro de 2010

Ricardo, meu caro Li a ressalva que você fez quanto a modelos fora de linha cujas marcas continuam a existir, mas vamos lá mesmo assim. Valeria uma foto do Cadillac 1948, um primor de estética mesmo nos padrões de hoje, não? E na minha memória afetiva cabe um Mustang 1968 (um de meus irmãos chegou a ter um, vermelho). Sobre o Edsel, lembro de ter visto uma extensa reportagem a respeito do seu fracasso. Uma das explicações foi a campanha publicitária intensa e agressiva, que gerou uma expectativa enorme no público. Quando descobriram que o modelo "tinha quatro rodas, volante e motor", a decepção foi tão grande que ofuscou todas as qualidades do novo carro. Abração, Carlão

jose carlos em 22 de novembro de 2010

Vou dar meu pitaco: E o ford fairlaine 57 : Os bel-air da chevrolet 55/58 ? Se cada um der sua pitacada, a lista é interminável. Que legal ! Valeu, José Carlos. Mas aí são MODELOS que saíram de linha, e não marcas que desapareceram, não é? O Fairlane era da Ford, que continua aí, firme e forte, e o Chevrolet Bel-Air da General Motors, que se recupera. Agora, a Ford vai tirar de linha a marca Mercury. Pretendo montar um post só com os grandes modelos Mercury que fizeram época. Uma pena mais uma grande marca sumir, não é mesmo? E que bom que você gostou! Um abração

Marcus(MG) em 22 de novembro de 2010

A solução para que os muscle cars continuem a existir é que se tornem GNV devoto(mono combustível),se o governo permitisse teriamos como abastecer em casa onde há rede de gás, basta instalar um compressor residencial de carga lenta como o "FuelMaker Phill" vendido na europa e america,inclusive é oferecido na compra do honda civic(lá chama GX) gnc devoto.O problema é que certos impostos não insidem sobre o gás residencial então muita gente principalmente o governo não vão abrir mão de receita em nome do meio ambiente e do prazer dos consumidores, mesmo porque o governo é o maior acionista da petrobrás!

Marcus(MG) em 21 de novembro de 2010

Não seria "Plymouth barracuda"?Houve uma tentativa de modernizar o Plymouth com a versão prowler de 1997,mas o camaro ainda é senhor renovado muscle car! Caro Marcus, houve inúmeros modelos Plymouth. O Barracuda foi um deles. Agora, o Camaro continua firme, porque é da marca-base da General Motors, a Chevrolet. Continuam a existir as marcas da General Motors Chevrolet, Buick, Cadillac e GM. Um abração

Newman em 21 de novembro de 2010

Não dirijo e nem pretendo comprar um carro futuramente mas aquele conversível Packard 180 Victoria 1941 é capaz de me fazer rever meus conceitos. Anos atrás andei de carona num antigo corvete conversível pelas de SP. Dia ensolarado, céu azul, trânsito bom, passando pela Av. Paulista, Rebouças, República do Líbano, Pq do Ibirapuera... coisa fantástica. É de se lamentar que num país com um clima maravilhoso como o nosso, a violência impede seus habitantes de usufruirem a experiência que um carro conversível oferece. Você tem razão. Em qualquer país civilizado, as ruas estão cheias de conversíveis quando o tempo ajuda. E você tem razão também quanto àquele Packard do post: espetacular! Existem bons museus de carros antigos no Brasil. Basta você procurar no Google. Abração, caro Newman.

Anônimo Paulistano em 21 de novembro de 2010

A concepção estética dessas máquinas é arrebatadora mas a lista de vantagens com modelos atuais pára por aí, no mais lembrei também do Tucker, criação do visionário Preston Tucker, sobre esta personagem Francis Ford Coppola, associado a George Lucas, filmou "Tucker: um homem e seu sonho", aproveito par enviar os links do trailler do filme e de um Tucker em excelente estado de conservação, o Tucker é o carro do "terceiro olho", por conta do terceiro farol, central. Tucker: The Man and His Dream http://www.youtube.com/watch?v=mL-AFSAIln0 Tucker: TACA Convention in Ypsilanti, MI , 2008 http://www.youtube.com/watch?v=ANWvtLdLyEs&feature=related Caro Pavan (você é da família Pavan do Paraná?), Eu me lembrei do Tucker, sim. Assisti o filme e acho os modelos que ele produzia espetaculares. Especialmente doido era o Tucker Torpedo, lembra? O problema dessas listas é que elas acabam ficando intermináveis. Por isso é que selecionei apenas alguns veículos. Lembrei-me também do espetacular DeLorean, que acabou não indo adiante, da empresa do ex-superexecutivo da GM, empreendimento que acabou não indo para frente. Foram (e são) jóias preciosas, não? Abraços

Joe em 21 de novembro de 2010

Corrigindo, fusca com teto solar e não conversível.

Joe em 21 de novembro de 2010

Caro Setti, como apaixonado por carros, só tenho a lamentar. O Pontiac Solstice é um objeto de desejo. Linhas limpas, arredondadas, linha de cintura alta, enfim, um desenho espetacular. No Brasil, infelizmente, também acabamos de ter uma enorme perda. A Chamonix, que fabricava as melhores réplicas do mundo das Porsche 550 e, sobretudo, da 356, parou a fabricação recentemente, por problemas financeiros, deixando um grande número de órfãos. Uma enorme tristeza. Interessante, também, o Ford Edsel, um fracasso retumbante, creditado por alguns à dificuldade de pronunciar o seu nome e, por outros, ao apelido que pegou e que se refere à genitália feminina. Com isso lembrei-me do fusca conversível, logo apelidado de "Cornowagen", outro fracasso espetacular. Esperamos outras histórias tão saborosas quanto esta. Obrigado, caro Joe. Estarei sempre procurando temas desse tipo para o blog. Aguarde para os próximos dias o novo avião presidencial da Rússia, por fora e por dentro, por exemplo. E, por falar em carro, nunca entendi porque o Edsel, com linhas interessantes para a época, e excelente qualidade mecânica, foi um fracasso das proporções que foi. Hoje, um Edsel em boas condições nos EUA vale uma fortuna... Abraços

Beto gaúcho em 21 de novembro de 2010

Muito bom esse post Ricardo Setti, parabéns! Eu só gostaria de saber por que os disigners foram cada vez mais arredondando e simplificando as formas dos veículos, carros. Uma reflexão. Onde vai parar esse "arredondamento"? Estaremos num futuro de ficção cada vez mais real, pilotando ovnis andantes? Discos achatados? Ovos deitados? , Alguém já questionou porquê isso significa 'modernidade', 'linhas progressitas'? Isso deve ter suas razões e finalidades, entre elas 'racionalizar' os desperdícios do passado... . Primar pela eficiência, isso é muito bom, mas já pensaram nas coisas simplistas e feias que poderão estar nas ruas no futuro? Nem 8 nem 80. Ou que tenha lugar pra todos os gostos.

JT em 20 de novembro de 2010

Existem muitos carros de sonhos americanos mas, pessoalmente, sempre gostei mais dos clássicos europeus: de menor porte, de maior charme. Entre os brasileiros, sou entusiasta e proprietário de um MP Lafer, que ganhei de meus pais em 1997, ainda nos tempos da faculdade. Desde 2001 mantenho um site sobre este simpático conversível: www.mplafer.net Obrigado pela dica do site, caro Jean. E por sua renovada presença aqui no blog, que me dá muito gosto. Abração

Marco em 20 de novembro de 2010

Caro R. Setti: Nunca fui muito ligado em carros, mas noto hoje um Mercado super aquecido de carros para colecionadores. Inclusive com preços bem superiores aos novos! Abs. Ps:Então tu é um italo-judeu. Mama-Mia..

Amadeus em 20 de novembro de 2010

Setti, Bons esses tempos, não? Seria inimaginável que alguém que não tivesse lido algum livro, as trilhas de guermantes?, as bolachas?, pudesse usufruir em antanho nem tão antanho assim dessas promessas modernosas. Pelo menos você não explicitou contrariedade com os ventos de agora, como o fizeram o Pondé, indignado com o cheiro de "churrasquinho na laje" que impregna os nossos aeroportos, ou com o Prates, o indignado barrigaverde indignado com os desgraçados e miseráveis filhos da era luliana. Folgo em saber que você se coloca como um conformado Cavalcante.

Estanislau em 20 de novembro de 2010

Prezado Setti, Foi uma boa surpresa encontrar, em seu blog, cuja leitura sempre me proporciona prazer, esta nota sobre marcas e modelos de carros norte-americanos que desapareceram. Bom saber que você também gosta de carros. Gostaria apenas de fazer um contraponto ao seu pessimismo nostálgico sobre o fim dos "muscle cars" americanos. Na verdade, eles estão de volta. Em 2005 a Ford relançou o Mustang, inclusive em sua versão "musculosa" Shelby GT 350 e GT 500. A GM trouxe de volta mais recentemente o Camaro. E a Chrysler fez o mesmo com os modelos Charger e Challenger, com opção do famoso motor HEMI, agora com até 6,4 litros. Aliás o Dodge Challenger atual é inspirado no modelo antigo, do início dos anos 70, irmão gêmeo do Plymouth Barracuda (ou simplesmente "Cuda") cuja imagem você inclui em sua nota. Há esperança para quem gosta de carros politicamente incorretos. Abraços, Estanislau Valeu, Estanislau. Eu não tenho pessimismo nostálgico sobre "muscle cars", não. Apenas registrei lembranças a partir do fim do velho Pontiac. Pessoalmente, sou por carros não poluidores. Gostaria de ter um carro elétrico, mas, além de estarem apenas começando a ser fabricados em série, são caríssimos e no Brasil não existe ainda uma rede de abastecimento adequada. Mas que os enormes "gas guzzlers" eram magníficos -- e ainda são --, não há dúvida... Abraço

Sergio Santos em 20 de novembro de 2010

Vou colocar esta pergunta aqui porque não encontrei outro lugar. Ao escrever comentários em algumas colunas, só as que publicam criticas ao colunista, percebo dois erros cometidos. Um é de digitação mesmo, como trocar letras, e o outro é de ortografia ou concordância. Independente do conteúdo dos comentários, o que você acha, se quiser responder, se existe uma evolução, ou um caminho nos comentários que o senhor recebe. Ler sempre foi a melhor atividade, será que escrever comentários pode complementar a leitura. Para salvar a minha pele por jogar esta pergunta aqui. Porque não dizer que os grandem jornalistas com seus textos refinados eram os Pontiac do jornalismo, substituidos hoje por soluções mais economicas, porem menos charmosas Caro Sergio, O fato de existirem eventuais erros de digitação ou outros nos comentários tem muito a ver com a pressa da internet. Nós não corrigimos nada, publicamos os comentários tais como vêm. Acho que os comentários são utilíssimos, porque fazem o colunista sentir o pulso dos leitores, apontam erros, trazem informações e enriquecem o blog mesmo quando são críticos. Há uma parcela de comentários agressivos e mesmo ofensivos, mas a grande maioria tem, sim, me ajudado como profissional. Abração e volte sempre.

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