A candidatura do empresário Antônio Ermírio de Moraes ao governo de São Paulo, parece, hoje, uma empreitada vitoriosa. Com isso, espraia-se do planalto paulista, em múltiplas direções, um sentimento quase físico de alívio. Uma espécie de “ufa” generalizado percorre todo um arco-íris de correntes partidárias, diante do firme processo de exorcismo aplicado pelo candidato do PTB à insistente tentativa de ressurreição do deputado Paulo Salim Maluf.

Há, porém, uma outra emanação fluindo da candidatura Ermírio, e esta não deve causar júbilo. Trata-se do grave equívoco de ver, no sucesso do empresário, a falência do “político profissional”. É como se a marcha batida de Ermírio em direção ao Palácio dos Bandeirantes conferisse o definitivo carimbo de legitimidade à tese de que político, para ser bom, não pode ser político.

Existem, em torno do fenômeno Ermírio, dois vícios culturais de livre curso no Brasil. O primeiro, tão antigo quanto as naves de Cabral que tocaram a ilha de Vera Cruz, é achar que a História não é nem deve ser feita por movimentos sociais canalizados em partidos ou correntes políticas, mas sim por homens providenciais, ungidos pelos deuses para tomar o lugar de instituições.

Assim, o mesmo velho forno conceitual de onde saiu a ditadura de Getúlio Vargas, por exemplo, acaba, em sua versão up-to-date de forno de microondas, requentando a tese de que o melhor governante é o dirigente mais eficiente e dinâmico, sem compromisso político algum e sem satisfações a dar a ninguém.

O segundo vício, talvez tão ancestral quanto o primeiro, mas vigente com exuberância tropical depois de 1964, é a prática do malabarismo semântico. Isso fez do golpe de 1964 uma revolução, e da junta militar de 1969 “ministros militares no exercício temporário das funções do presidente da República” – para não falar, em meio à riquíssima coleção de exemplos, na célebre “ditadura da minoria”, contra a qual o general Ernesto Geisel, sozinho com sua caneta, fechou o Congresso em 1977. É dessa mesma família vernacular que provém o conceito de que, em política, profissional é palavrão.

Pois é preciso dizer que não. É claro que deve ser aplaudido como saudável o clamor nacional que se eleva em favor de uma renovação de costumes políticos. A contribuição que Ermírio puder dar nesse sentido só vai enriquecer sua biografia. Isso, contudo, não pode ser confundido com a visão a um só tempo preconceituosa e ingênua dos que se escandalizam pelo fato de que existam pessoas que escolheram a carreira pública, a ela se dedicam em tempo integral e por isso devem ser pagas, e bem. Se na política existem aproveitadores intermediários de negociatas ou pesquisadores incansáveis de oportunidades para a safadeza, a eles deve ser aplicado o Código Penal. Esses não são profissionais da política: são malfeitores.

Pode-se sempre brincar com os detratores do profissionalismo em política perguntando se confiariam a obturação de um canal dentário a alguém que manuseia uma broca de alta rotação pela primeira vez. Ou, ainda, indagando do próprio Ermírio o que acha da idéia de afastar seus filhos do comando do império industrial Votorantim e substituí-los por um bando de punks freqüentadores do Madame Satã, o templo dark de São Paulo. Mas talvez seja mais eficiente verificar se os espanhóis, por exemplo, se escandalizam com o fato de seu popularíssimo primeiro-ministro socialista, Felipe González, ser um profissional da política. Ou pesquisar se a comissão que atribuiu o Prêmio Nobel da Paz ao ex-chanceler alemão Willy Brandt por seu papel na distensão entre as Europas do Leste e do Oeste chegou a hesitar diante de sua ficha de membro assalariado do Bundestag alemão.

Só para voltar a nossa taba tupiniquim: os militares teriam feito uma distensão bem-sucedida se não tivessem à mão profissionais competentes como o ex-ministro Petrônio Portela? E a anistia, sem Teotônio Vilela, teria aberto as portas das prisões e levantado as barreiras nos aeroportos? Seria viável a campanha das diretas sem homens como Ulysses Guimarães? A lista, evidentemente, não pára aí. Que seria da transição para um regime civil se não fosse um profissional – e ele se orgulhava desta condição – chamado Tancredo Neves? É bom também não esquecer que existe um determinado inquilino no Palácio da Alvorada, em Brasília, da mesma linhagem, e, finalmente, há o caso do próprio Ermírio, que acaba de realizar uma manobra para controlar a nível nacional um partido político, o PTB, enquanto estende um tapete vermelho a outro, o PMDB.

Nossa generosa, mas igualmente irresponsável, memória histórica pode acabar apagando com excessiva rapidez o fato de que o poder por duas décadas foi ocupado por homens que não eram profissionais da política. Oficialmente, nossos generais detestavam o poder e só o aceitavam como uma missão a ser cumprida à custa de sacrifícios e privações. Exercendo o mais político de todos os cargos, o de Presidente da República, eles repudiavam a condição de políticos, desconfiavam e prescindiam dos políticos, quando não os abominavam de forma expressa e taxativa.

A herança que esse tipo de mentalidade deixou talvez seja o melhor e mais eloqüente produto de seus malefícios.

Portanto, partidários da tese, devagar com o andor.

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